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Q3952127 Português
TEXTO: Adultização e outras brigas com o tempo

        A palavra “adultização” virou senha para um vasto mundo criminoso que prospera à vista de todos na internet, incentivado pela dinâmica algorítmica de redes sociais desreguladas. Esse é o xis do problema, mas quero falar aqui de uma questão mais sutil de linguagem.  

        Adultização – título do excelente vídeobomba do youtuber Felca sobre exploração sexual de menores e substantivo não dicionarizado, criado de forma regular a partir do também recente verbo “adultizar” – é uma das invenções vocabulares a que nossa linguagem tem recorrido para dar conta de problemas novos nas velhas etapas de crescimento de uma vida humana. Infância, adolescência, idade adulta, maturidade e velhice pareciam territórios delimitados com razoável segurança e estabilidade no século passado. As fronteiras entre eles vêm se tornando menos nítidas, por razões variadas que ainda aguardam estudos aprofundados. E as palavras, como sempre, correm atrás dos fatos.

        É razoável supor que entrem nessa conta fenômenos como o esgotamento dos velhos modelos de crescimento econômico, o aumento da expectativa de vida, o narcisismo como patologia coletiva, o consumismo como religião suprema, os avanços da medicina estética e o sucesso do discurso coach picareta (com perdão da redundância) de que todo mundo pode ser o que quiser. Seja como for, o que me parece indiscutível é que todos esses fatores se organizam sob a batuta do fenômeno mais socialmente relevante – para o bem e para o mal, mais para este que para aquele – do século 21: a rede-socialização desenfreada de tudo o que existe no mundo.

        Nesse território dentro do espelho, crianças adultizadas – como aqueles tragicômicos empreendedores mirins que aparecem no vídeo do momento falando mal da escola e morrendo de rir de Aristóteles – encontram seu correspondente simétrico em adultos infantilizados, fixados em bonecos, brinquedos, histórias pueris e até chupetas. Se vemos proliferar expressões como “os 60 são os novos 40” e meninas obcecadas por produtos de beleza algumas décadas antes da hora, também cunhamos neologismos como “adultescente” (adulto + adolescente, ou seja, o adulto que reluta em crescer) e eufemismos como “melhor idade” (para substituir a outrora digna, mas hoje aparentemente inaceitável, “velhice”). 

        Será que estamos fadados a essa rota de colisão com nossos relógios biológicos? Sermos uma espécie que sabe que vai morrer sempre foi um problema sério, claro, o maior de todos os problemas – é nessa dor que deitam raízes tanto as religiões quanto as artes. Contudo, por que nossa relação com o tempo ficou de repente tão disfuncional? 

        Não é difícil encontrar na língua e na linguagem sintomas de que esse tipo de transtorno dismórfico-temporal aspira a ser a única universalidade possível num mundo em que as big techs têm mais poder do que tinha a Igreja Católica na Idade Média. Só pode ser porque dá lucro, esse deus sem metafísica.

SÉRGIO RODRIGUES Adaptado de folha.uol.com.br, 13/08/2025.
A última frase do texto, em relação às que a antecedem no parágrafo, expressa sentido de: 
Alternativas

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Gabarito: B

Fundamento decisivo: “Não é difícil encontrar na língua e na linguagem sintomas de que esse tipo de transtorno dismórfico-temporal aspira a ser a única universalidade possível num mundo em que as big techs têm mais poder do que tinha a Igreja Católica na Idade Média. Só pode ser porque dá lucro, esse deus sem metafísica.” A relação decisiva entre as duas frases do parágrafo é lógico-semântica: a última, introduzida por “porque”, apresenta a explicação da afirmação anterior, o que leva ao gabarito B.

Tema central: Relação lógico-semântica entre enunciados
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque não há ideia de objetivo ou finalidade. A última frase não indica para que o fenômeno ocorre; indica por que ele ocorre segundo o autor. Finalidade exigiria sentido como “para”, “a fim de” ou “com o objetivo de”, o que não aparece nessa articulação.
B
Certa
A alternativa B está correta porque a última frase interpreta e justifica o fenômeno descrito antes. Em “Só pode ser porque dá lucro”, o segmento com “porque” fornece a razão alegada pelo autor para a expansão desse “transtorno” no mundo dominado pelas big techs. Portanto, a função da frase final, em relação às anteriores do parágrafo, é explicativa.
C
Errada
Está errada porque a última frase não é efeito do que foi dito antes. Ela não decorre como resultado; ela justifica o quadro já apresentado. Consequência seria uma relação de resultado, marcada por construções como “por isso”, “assim” ou “de modo que”. Aqui, o sentido é de motivação explicativa.
D
Errada
Está errada porque não há qualquer relação de conformidade. O trecho não exprime adequação a norma, modelo, fonte ou critério, nem traz marcas como “conforme” ou “segundo”. A frase final explica a afirmação anterior; não a coloca em conformidade com algo.
Pegadinha da questão
A banca explora a proximidade entre causa e consequência e o fato de “porque” poder ser lido apenas dentro da oração. Mas o comando pede a relação da última frase com as anteriores no parágrafo; nesse plano textual, ela funciona como explicação do enunciado anterior.
Dica para questões semelhantes
  • Leia o comando no plano do texto: a banca pode pedir a relação entre frases, não a classificação isolada de uma conjunção.
  • Quando uma frase posterior justifica ou interpreta a anterior, o valor tende a ser explicativo, mesmo que a relação também envolva causa.
  • Separe explicação de consequência: explicação motiva o que foi dito antes; consequência resulta do que foi dito antes.

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