Ninguém consegue expressar um sentimento ou visão do
mundo sem um vocabulário apropriado; sem isso, é impossível
traduzir a realidade interior em algo que possa ser transmitido
a outra pessoa
Roberto Motta
São 5h30 da manhã e eu começo a caminhada pela praia do
Rio de Janeiro. Há grupos espalhados pela areia, muita gente.
Não são banhistas. Estão se recuperando de uma longa noite.
Ao redor deles há uma mancha de lixo: garrafas de todos os
tipos, embalagens de alimentos industrializados e restos de
comida. E o odor de maconha. Caixas de som estão ligadas na
potência máxima. As músicas são todas do mesmo tipo:
“canções” sem melodia ou harmonia, nas quais vozes
desafinadas e desagradáveis – algumas aos berros – se
submetem à tirania de ritmos que soam como pancadas. As
“letras” são relatos de atos sexuais, uso de drogas e crimes;
algumas dessas músicas servem de hinos a facções. Álcool,
carboidratos industrializados, drogas e violência: essa foi a
dieta da noite na praia, onde a escuridão não acaba quando o
sol nasce.
Essa praia é o meu quintal. Sempre que o mar permite, eu
nado. Nos outros dias, eu leio. Não levo nada comigo além dos
livros, porque nas praias roubam tudo. Menos livros. Deixo os
meus sobre a cadeira quando vou dar um mergulho, sem
preocupação. O risco de serem roubados é zero.
Não tenho uma boa explicação para minha obsessão por
leitura. Uma parte do meu cérebro se ilumina quando leio. É
uma sensação física. Sempre foi assim. Quando era muito
criança, livros já me interessavam. No final da década de 1970,
minha mãe me deixava na biblioteca pública de Salvador
enquanto ia fazer compras. Não leio em busca de conhecimento
ou cultura. Dizer isso seria mentir. Sou curioso sim, e isso me
leva a ler de tudo. Preciso de variedade. Mas minha obsessão
tem outra origem. É uma necessidade orgânica: sou
dependente de leitura. Na falta de livros e revistas, leio bulas de
remédio, rótulos de embalagens e manuais de instruções. Para
alguém como eu, a internet foi um milagre. Nunca mais fiquei
sem ter algo para ler.
Além de disponibilizar infinito material de leitura, a internet
transformou todo mundo em escritor, nem que sejam apenas
de comentários em postagens alheias. Com isso, ficou evidente
o prejuízo causado pela degradação da linguagem, um
fenômeno encorajado por sistemas políticos populistas como
forma de igualdade. É a ideia de que existem muitos “saberes”
igualmente importantes, mesmo que alguns desses saberes
não saibam nada. O cidadão ocidental confortavelmente
instalado em um sistema de bem-estar social que lhe garante a
sobrevivência, é alimentado com o equivalente cultural de uma
dieta de carboidratos, álcool e maconha. Exatamente como o
pessoal da praia do início deste texto.
Comentários nas redes sociais expõem a torturante
experiência de ter algo a dizer, mas não saber como. A
linguagem foi reduzida a seus componentes mais rudimentares,
e estão desaparecendo a capacidade de observação e descrição, a sutileza e a moderação necessárias à expressão
de ideias e ao exame equilibrado da vida em geral. Tudo se
reduz a “amo” ou “odeio” e a “comunistas” versus “fascistas”.
Políticos são classificados como santos ou impostores,
submetidos aleatoriamente a ataques virulentos ou a adulação
desmedida. A cidadania – se é que algo assim já existiu por
essas terras – se esfarela junto com a linguagem.
Ninguém consegue expressar um sentimento ou visão do
mundo sem um vocabulário apropriado; sem isso, é impossível
traduzir a realidade interior em algo que possa ser transmitido
a outra pessoa. Fiz uma postagem com a recomendação do
livro Trilogia Cósmica, de C. S. Lewis. Um dos comentários foi
feito por alguém que se identificou como Alberto, ex-usuário de
tudo. Ele disse: “Minha geração não lê livros. Jogamos games
e assistimos vídeos. Acho que estamos certos porque a
realidade é líquida. Preferimos receber o resumo da sua
geração”. Alberto, o resumo é esse: de todas as perdas que
alguém pode sofrer, a perda da linguagem é uma das mais
graves, principalmente porque é impossível notar a perda de
algo que você nunca teve.
Acontece que a linguagem é a ferramenta do raciocínio.
Pensamentos são expressos em uma voz interior que usa a
linguagem que aprendemos. Até que esses pensamentos
sejam articulados, eles não existem de forma consciente. Bom
senso e clareza de raciocínio não são privilégio de pessoas
instruídas, isso é evidente; existem pessoas simples que
conduzem suas vidas com padrões morais elevados e
acumulam conquistas pessoais maiores do que as de muitos
“intelectuais”. Entretanto, na maioria dos casos – e exceto por
um esforço extraordinário – a falta de um vocabulário leva a um
embotamento da sensibilidade e do raciocínio, assim como a
falta de treinamento leva à atrofia muscular. O universo fica
reduzido a um estreito conjunto de experiências mundanas,
quase sempre primitivas, quase sempre envolvendo as partes
inferiores do corpo. O resultado é um vazio experiencial – um
mal tornado ainda mais terrível porque o portador da aflição não
consegue nomear a enfermidade. O primeiro impulso é
preencher o vazio com barulho, porque o silêncio é insuportável
para uma mente que não tem como pensar. Por isso, a
onipresença de equipamentos sonoros em todos os lugares e
momentos.
É impossível encontrar, na minha cidade, uma praia livre de
caixas de som, ou uma clínica cujos pacientes, nas salas de
espera, não sejam tutelados – não sei se essa é a melhor
palavra – por aparelhos de televisão permanentemente ligados.
A forma mais popular de anestesia, claro, é o celular: não há
desespero existencial que resista a uma sequência de reels.
Esse vazio também é preenchido por ideologias e filosofias
calamitosas, do neomarxismo woke ao ambientalismo xiita, dos
métodos infalíveis para enriquecer com criptomoedas ao
extremismo religioso. Improváveis teorias da conspiração se
transformam na justificativa existencial de multidões. O lixo
criado pelo homem é consumido pelo homem como se fosse o
caminho da verdade.
Permitam-me sugerir a redescoberta da linguagem, por meio
da leitura, como remédio. Mas o caminho da libertação não
passa apenas por livros – ele exige bons livros. Como disse o
filósofo Arthur Schopenhauer: “A arte de não ler é uma arte
muito importante. Ela consiste em não se interessar por aquilo
que, em determinado momento, esteja ocupando a atenção do
público em geral. Quando algum panfleto político ou
eclesiástico, ou um romance, ou um poema estiver provocando
grande alvoroço, você deve se lembrar de que aquele que
escreve para tolos sempre encontra um grande público. Uma
condição prévia para ler bons livros é não ler livros ruins: pois a
vida é curta”.
Fonte: MOTTA, Roberto. A perda da linguagem e a perda da liberdade.
https://revistaoeste.com/revista/edicao-305/a-perda-da-linguagem-e-a-perda-da-liberdade/
Assinale a alternativa cujo emprego da pontuação
evidenciada esteja gramaticalmente correto.