Assinale a alternativa que apresenta palavra que NÃO poderia...
Por que escrevo?
Por Martha Medeiros
01 Escrevo para dar exclusividade ___ solidão que vive em mim. Para não parecer tão
02 esquisita como pareceria se fosse uma solitária que não escreve. Escrevo para não desperdiçar a
03 minha sinceridade. Sozinhos, somos mais sinceros do que quando socializamos.
04 Escrevo para ficar quieta por mais tempo. Para não falar sobre ___ vida dos outros —
05 escrever sobre eles dá menos problema. Escrevo porque não sei tocar guitarra, porque não
06 aprendi a esculpir em madeira, porque meus glúteos são muito largos para o balé. Escrevo
07 porque teria dificuldade de decorar o texto para uma peça, porque só sei desenhar uma casinha
08 — e mal.
09 Escrevo porque a literatura é uma arte discreta. Escrevo porque não existe horário para
10 começar, nem terminar, nem dia útil, nem dia inútil, nem ônibus para pegar, nem parada para
11 descer, nem apito de fábrica, nem gerente, nem chefe (nem carteira assinada também, é o
12 ônus).
13 Escrevo porque gosto muito de ficar em casa. Nunca escrevo em quartos de hotéis, em
14 trens, em espaços de coworking. Escrevo porque ninguém me acusa de estar me escondendo,
15 mesmo que eu esteja.
16 Escrevo porque dizem que a maioria dos homens não suporta mulheres que escrevem.
17 Abençoo esta triagem. Só os corajosos me atraem.
18 Escrevo para me relacionar melhor com a morte. A morte não traz benefícios para quem
19 fabrica guarda-chuvas, atende em consultórios ou limpa vidraças. Mas ela costuma ser generosa
20 com escritores: inspira e, se você for uma Clarice Lispector, eterniza.
21 Escrevo porque não é um trabalho de equipe. Escrevo para uma única pessoa: você, que
22 ao me ler estará sozinho também (mesmo cercado de gente) e em silêncio. Prefiro relações a
23 dois. Escrevo para dar voz às minhas feras, bruxas, demônios. Escrevo porque posso ser
24 malvada, traidora, desaforada, matar e morrer — e acordar ilesa na segunda-feira.
25 Escrevo para me consolar dos traumas de infância e para transformar as dores de amor
26 em royalties — é uma compensação justa. Escrevo porque escrever ativa ___ esperança. A
27 esperança de ser lida, compreendida e amada. E a esperança de que meu texto sirva para fazer
28 alguém se sentir menos estranho para si mesmo. Escrevo porque, se eu parecer louca, ninguém
29 vai dar muita atenção. Periga até eu ganhar um prêmio.
30 Escrevo porque enquanto estou escrevendo, estou lembrando. Escrevo porque nunca sei
31 sobre o que irei escrever. É uma aventura constante revelar para mim mesma o que permanece
32 desconhecido em mim.
33 Em meu primeiro livro, ainda muito jovem, publiquei um verso que dizia: quanto mais
34 escrava, mais escrevo. O tempo passou, me libertei de quase tudo o que me oprimia e devo isso
35 a todos os livros que li, e aos meus. É por ela, a liberdade, que escrevo.
(Disponível em: https://gauchazh.clicrbs.com.br/donna/colunistas/martha-medeiros/ – texto adaptado especialmente para esta prova).
Assinale a alternativa que apresenta palavra que NÃO poderia substituir o vocábulo “ilesa” (l. 24) por acarretar alteração significativa no sentido do trecho em que ocorre.
Gabarito comentado
Confira o gabarito comentado por um dos nossos professores
Gabarito: E) Aniquilada
Tema central: Trata-se de uma questão de interpretação textual e semântica, mais especificamente sobre o sentido e a sinonímia da palavra “ilesa” no contexto do texto de Martha Medeiros. Para acertar, o candidato deve analisar o significado do termo e avaliar se as palavras das alternativas podem substituí-la sem alteração de sentido.
No trecho “Escrevo porque posso ser malvada, traidora, desaforada, matar e morrer — e acordar ilesa na segunda-feira”, o termo ilesa (feminino de “ileso”) significa “sem lesão, dano ou ferimento, incólume”. Segundo Bechara, sinônimos próximos mantêm o sentido pretendido pelo autor; antônimos ou palavras com sentido diverso modificam a mensagem (ver: Moderna Gramática Portuguesa).
Justificativa da alternativa correta:
A alternativa E) “aniquilada” corresponde a “destruída completamente”, “abatida”, “sem vida”. Esse sentido é oposto ao de “ilesa”, pois alguém aniquilado está afetado em sua integridade, enquanto “ilesa” expressa quem não sofreu dano algum. Assim, a substituição alteraria profundamente o sentido do texto.
Análise das alternativas incorretas:
- A) Salva: Sinônimo aceitável, pois significa estar livre de perigo ou dano.
- B) Intacta: Também indica alguém sem qualquer alteração, dano ou ferimento.
- C) Incólume: Significa “sem lesão”, sendo até dicionarizado como sinônimo direto de “ilesa”.
- D) Inatingida: Refere-se a não ter sido atingida, ou seja, permanecendo sem dano, mantendo coerência com o contexto.
Estratégias de prova: Para esse tipo de questão, foque em reconhecer as sutilidades semânticas e use a exclusão lógica. Palavras de sentido oposto ou radicalmente diferente — como “aniquilada” —, mesmo parecendo sofisticadas, devem ser descartadas quando destoam do contexto.
De acordo com Cunha & Lindley Cintra, o uso de sinônimos em textos depende da adequação ao contexto e intenção do autor. O erro comum na prova é não perceber antíteses disfarçadas de sinônimos.
Conclusão: Apenas “aniquilada” (alternativa E) altera o sentido do trecho, pois implica destruição, e não integridade preservada.
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