Desigualdade social é o principal obstáculo à
qualidade da educação no país.
A educação básica brasileira registrou avanços
significativos nas últimas décadas, mas continua
marcada por desigualdades profundas e por um
descompasso entre o modelo de ensino e as
transformações tecnológicas e sociais contemporâneas.
A avaliação é do pesquisador Ivan Siqueira, professor
titular de Interdisciplinaridade da UFBA (Universidade
Federal da Bahia), durante a 2ª Conferência FAPESP
2026 − "Educação Básica no Brasil: Desafios e
Oportunidades".
Segundo o conferencista, o país ampliou o acesso à
escola desde a Constituição de 1988, mas ainda
enfrenta dificuldades para garantir qualidade compatível
com os investimentos realizados. "Há muita evidência de
que avançamos. Mas, quando consideramos os níveis
de desigualdade, entendemos que ainda precisamos
fazer muito, muito, muito mais", ressaltou.
Um dos pontos centrais da apresentação foi a distinção
entre princípios e critérios na definição das políticas
públicas. Para Siqueira, a legislação brasileira possui
diretrizes acertadas, mas carece de mecanismos
objetivos de implementação. O pesquisador analisou
especificamente o artigo 205 da Constituição da
República Federativa do Brasil, que estabelece: "A
educação, direito de todos e dever do Estado e da
família, será promovida e incentivada com a colaboração
da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da
pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua
qualificação para o trabalho".
"O maior problema do artigo 205 é ser ele uma
declaração de princípio e não o estabelecimento de um
critério. E o princípio não é binário: você pode dizer que
está indo em determinada direção, mesmo sem nunca
chegar lá", explicou. "Precisamos transformar princípios
em critérios, porque critérios são objetivos e permitem
cobrança."
Essa lacuna, segundo ele, afeta diretamente a
governança educacional, especialmente em municípios
com baixa capacidade administrativa. "Grande parte da
educação básica está nas mãos das prefeituras, que têm
menos recursos e menos estrutura, justamente na fase
mais importante do desenvolvimento humano", disse.
O professor criticou também a formação de professores
no país. Segundo ele, o sistema permite que docentes
sejam formados sem experiência prática em escolas. "O
Brasil autoriza a formação de pessoas que nunca
pisaram em uma sala de aula. Isso não acontece em
áreas como medicina", ponderou. Outro problema
apontado foi a fragmentação curricular. "É ilusório
imaginar que um aluno consiga aprender 13 disciplinas
diferentes com menos de quatro horas de aula por dia",
sublinhou. Para ele, o modelo pressupõe uma escola em
tempo integral, que ainda não é realidade na maior parte
do país.
Siqueira destacou que as tecnologias digitais
introduziram uma mudança estrutural no processo de
aprendizagem, afetando atenção, linguagem e formas de
interação. "O modelo tradicional de aula expositiva está
morto. Ele não serve mais para os estudantes que temos
hoje", resumiu. Conforme o pesquisador, os estudantes
têm dificuldade crescente de concentração e
organização do pensamento: "Hoje é muito difícil manter
um aluno focado por dez minutos. Para escrever, ele
precisa pensar — e não está exercitando isso".
Ele relatou ainda o aumento de fenômenos como
desinformação, dependência de redes sociais e
problemas de saúde mental. "Na UFBA, 70% dos
estudantes de medicina relatam problemas de saúde
mental. Na psicologia, o percentual é ainda maior: 80%.
Tanto que os professores, meus colegas, dizem que o
pessoal vem para a psicologia para se tratar", contou.
A IA (inteligência artificial) foi apresentada como um dos
principais vetores de transformação da educação e do
mercado de trabalho. Siqueira citou demissões recentes
no setor financeiro para ilustrar o impacto da adoção das
novas tecnologias digitais. "Nos últimos quatro meses, os
quatro maiores bancos norte-americanos demitiram 15
mil funcionários, enquanto obtinham mais de US$ 1
bilhão de lucro. Uma pessoa com IA faz o trabalho de
dez. E isso muda completamente o mercado", enfatizou.
Ao mesmo tempo, ele destacou aplicações positivas no
sistema educacional. "Modelos baseados na BNCC
[Base Nacional Comum Curricular] conseguem gerar
planos de aula adaptados para diferentes perfis de
estudantes, reduzindo enormemente o trabalho do
professor", disse. A BNCC é o documento normativo que
define o que todos os estudantes brasileiros têm o direito
de aprender ao longo da educação básica (educação
infantil, ensino fundamental e ensino médio).
Além disso, a incorporação das novas tecnologias
digitais favorece o acesso a conteúdos de qualidade, a
formação de comunidades de aprendizagem e a
possibilidade de integrar o currículo às realidades locais,
como em comunidades indígenas e quilombolas,
ampliando o potencial de uma educação mais
contextualizada, colaborativa e alinhada às demandas
contemporâneas.
Mas há vários gargalos a serem ultrapassados. Entre
eles, o modelo de avaliação. Siqueira argumentou que
exames como o do Sistema de Avaliação da Educação
Básica (Saeb) estão defasados e não capturam
competências essenciais. E defendeu a incorporação de
habilidades como pensamento crítico, metacognição e
resolução de problemas complexos. "O estudante
precisa saber mobilizar conhecimentos em situações
reais. Não basta repetir conteúdo", disse.
"Segundo o conferencista, o país ampliou o acesso à
escola desde a Constituição de 1988, mas ainda
enfrenta dificuldades para garantir qualidade compatível
com os investimentos realizados."
Considerando o processo de formação do período
acima, analise a afirmativa incorreta.