Cresci ouvindo histórias. Porque tinham histórias a contar, eles: meus pais, meus tios, nossos vizinhos. Eram, na
maioria, emigrantes. Da Rússia. Lá tinham vivido, como seus
antepassados, em pequenas aldeias, em meio a uma lírica
miséria, lendo a Bíblia, praticando a religião e trabalhando
como artesãos e pequenos comerciantes. A ruína do império czarista, nos anos que precederam a Revolução de 1917,
acarretou também a destruição desse pequeno mundo.
Contar histórias. Eis uma coisa que meus pais sabiam
fazer particularmente bem, com graça e humor; sabiam transformar pessoas em personagens, acontecimentos em situações ou cenas.
De minha mãe adquiri o gosto pela leitura. Éramos pobres, não indigentes; não chegávamos a passar fome, mas
tínhamos de economizar. Apesar disso nunca me faltou
dinheiro para livros. Minha mãe me levava à tradicional Livraria do Globo e eu podia escolher à vontade. Desde pequeno estava lendo. De tudo, como até hoje: Monteiro Lobato e
revistas em quadrinhos, divulgação científica e romances.
Ler. Lembro-me: uma manhã, acordo cedo. Não são seis
horas ainda. Vou para a salinha da frente, abro a janela, pego
um livro (são as aventuras do Camundongo Mickey). Leio um
pouco. Olho pela janela. No leito da rua, uma pomba debica
entre as pedras. Levanta a cabecinha e fixa em mim um pequeno olho escuro, duro como um grão. Mickey e a pomba.
Por onde andará a pomba porto-alegrense que à tênue luz
da madrugada parou um instante de bicar para olhar o garoto
com o livro na mão? Não sei, não sei de nada.
Monteiro Lobato era meu autor preferido. Mas eu também lia
o “Tesouro da Juventude”, uma enciclopédia infanto-juvenil em
dezoito volumes. Curioso, eu queria saber tudo: por que chove?
Quem depois de morta foi rainha? Lia, lia. Deitado num sofá,
o livro servindo como barreira entre a criança e o mundo. Isto:
o livro é uma barreira; mas é também a porta. A porta para um
mundo imaginário, onde eu vivia grande parte de meu tempo.
(Moacyr Scliar. Minha mãe não dorme
enquanto eu não chegar. 1996. Adaptado)
Cresci ouvindo histórias. Porque tinham histórias a contar, eles: meus pais, meus tios, nossos vizinhos. Eram, na
maioria, emigrantes. Da Rússia. Lá tinham vivido, como
seus antepassados, em pequenas aldeias, em meio a
uma lírica miséria, lendo a Bíblia, praticando a religião
e trabalhando como artesãos e pequenos comerciantes.
(1°
parágrafo)
Os termos destacados na passagem exprimem, correta e
respectivamente, sentidos de:
Incorreta. Gabarito oficial da banca:
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