Sou do tempo dos salgadinhos reconhecíveis.
Você me entende: do tempo em que, diante da bandeja,
a gente não tinha dúvidas ‒ o que ali estava era croquete,
coxinha, empadinha. Sem chance de equívoco. Bem diferente, admita, dos dias de hoje, em que é preciso recorrer
ao garçom para decifrar enigmas culinários, alguns deles
tão complexos e empetecados que você se pergunta se não
seriam, em vez de comida, peças decorativas. Sim, vivemos
a era do salgadinho que demanda apresentação. Deveria vir
com legenda.
Nada contra a modernização do tira-gosto. Mas me dê
um tempo para me adaptar. Outro dia, num casamento,
estenderam na minha direção um artefato aparentemente
comestível, algo como uma coxinha esférica, acoplada a um
talo branco. Era, de fato, uma minicoxinha ‒ mas e o misterioso talo branco, grosso demais para ser palito? Na roda,
um convidado mais ousado se aventurou a mastigá-lo, e aí
se deu conta de que, naquele casamento chique, ele tinha na
boca um vulgar pedaço de cana. Coxinha com cana ‒ onde
vamos parar? E o que fazer com o bagaço?
Muita coisa surgiu na vida de meus maxilares tão
fatigados desde a primeira dentição. Na minha infância
belo-horizontina não tinha shitake, rúcula e kiwi, por exemplo.
Em compensação, tinha Crush, drops Dulcora, açúcar cândi,
que depois sumiram do mapa.
Como sumiu o cajuzinho. Onde foi parar o cajuzinho?
Você vai me dizer que não sei onde tem uma “dona” que faz.
Coisas de Belo Horizonte: em alguma parte, tem sempre uma
dona que faz o docinho, o salgadinho que desapareceu das
vitrines. Não duvido de que nalgum recanto da capital haja
uma dona do cajuzinho. Vai ver que é a mesma do bolinho
de feijão.
(Humberto Werneck. Esse inferno vai acabar, 2011. Adaptado)
Assinale a alternativa que apresenta trecho do texto reescrito em conformidade com a norma-padrão de regência
verbal.