Ao citar a criança e o riso, o autor deixa claro:

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Q3702121 Português
O Riso é o Melhor Indicador da Alma


    O Riso é o Melhor Indicador da Alma. Acho que, na maioria dos casos, quando uma pessoa se ri torna-se nojento olharmos para ela. Manifesta-se no riso das pessoas, na maioria das vezes, qualquer coisa de grosseiro que humilha a quem ri, embora essa pessoa quase nunca saiba que efeito o seu riso provoca. Tal como não sabe (ninguém sabe, aliás) a cara que faz quando dorme. Há quem mantenha no sono uma cara inteligente, mas outros há que, embora inteligentes, fazem uma cara tão estúpida a dormir que se torna ridícula. Não sei por que tal acontece, apenas quero salientar que a pessoa que ri, tal como a pessoa que dorme, não sabe a cara que faz. De uma maneira geral, há muitíssimas pessoas que não sabem rir. Aliás, isso não é coisa que se aprenda: é um dom, não se pode aperfeiçoar o riso. A não ser que nos reeduquemos interiormente, que nos desenvolvamos para melhor e que superemos os maus instintos do nosso caráter: então também o riso poderá possivelmente mudar para melhor.

    A pessoa manifesta no riso aquilo que é, é possível conhecermos num instante todos os seus segredos. Mesmo o riso incontestavelmente inteligente é, às vezes, abominável. O riso exige em primeiro lugar sinceridade, mas onde está a sinceridade das pessoas? O riso exige a ausência de maldade, mas as pessoas, na maioria dos casos, riem com maldade. Um riso sincero e sem maldade é uma pura alegria, mas, nos tempos que correm, onde está a alegria? E poderão as pessoas serem alegres? A alegria é um dos mais reveladores traços humanos, basta a alegria para revelar as pessoas dos pés à cabeça.

   Por vezes não há meio de percebermos o caráter de uma pessoa, mas basta ela rir para lhe conhecermos o feitio como às palmas das nossas mãos. Só as pessoas desenvolvidas do modo mais elevado e feliz sabem ser contagiosamente alegres, de uma maneira irresistível e benévola. Não falo de desenvolvimento intelectual, mas de caráter, do homem como um todo. Portanto: se quiserdes compreender uma pessoa e conhecer-lhe a alma não presteis atenção à sua maneira de se calar, ou de falar, ou de chorar, ou de se emocionar com as ideias mais nobres, olhai antes para ela quando se ri. Ri-se bem - é boa pessoa.

    Observai depois todos os matizes: por exemplo, é preciso que o riso não pareça estúpido, por mais alegre e ingênuo que seja. Mal detecteis a mais pequena nota de estupidez num riso, ficai sabendo que a pessoa que assim ri é intelectualmente limitada, apesar de deitar cá para fora um sem-fim de ideias. Mesmo que o riso não seja estúpido, se vos parecer ridículo, nem que seja um pouquinho, ficai sabendo que não há na pessoa que o ri uma verdadeira dignidade, pelo menos uma dignidade suficiente. Por último, notai que, mesmo que um riso seja contagioso, mas por qualquer razão vos pareça vulgar, também a natureza dessa pessoa é vulgar, que toda a nobreza e espírito sublime que tínheis visto nela ou são fingidos ou imitados inconscientemente, e que essa pessoa, no futuro, mudará inevitavelmente para pior, dedicar-se-á ao «útil», abandonando sem pena as ideias nobres como sendo erros e paixões da juventude. (...)

    Apenas entendo que o riso é a mais certeira prova da alma. Olhai para uma criança: só as crianças sabem rir com perfeição, por isso são fascinantes. É abominável a criança que chora, mas a que ri alegremente é um raio do paraíso, é o futuro do homem quando ele, finalmente, se tornar tão puro e ingênuo como uma criança.


(Fiódor Dostoiévski, in 'O Adolescente')
Ao citar a criança e o riso, o autor deixa claro:
Alternativas

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Comentário de Gabarito – Interpretação de Texto

Tema central: Interpretar texto, identificando a mensagem central e a intenção do autor sobre o valor simbólico do riso infantil. O candidato deve analisar ideias, semântica e inferências, conforme recomendam gramáticas como Moderna Gramática Portuguesa, de Evanildo Bechara.

Alternativa Correta: C
A alternativa C sintetiza o essencial da mensagem do texto: quem aprende a rir de modo puro e sincero, como uma criança, alcança verdadeira plenitude da alma. No texto, Dostoiévski afirma: “Olhar para uma criança: só as crianças sabem rir com perfeição... é o futuro do homem quando ele se tornar tão puro e ingênuo como uma criança.” Ou seja, o riso infantil é apresentado como ideal a ser buscado pelo adulto.

Estratégia de resolução:
A interpretação exige compreensão do valor das palavras-chave ("pureza", "alegria", "futuro", "raio do paraíso") e capacidade de distinguir ideia central x ideias secundárias. Fique atento a generalizações ou negações disfarçadas nas alternativas!

Análise das alternativas incorretas:

A) Erro de sentido: O texto não sugere que crianças nos enganam; pelo contrário, exalta sua sinceridade.
B) Generalização indevida: Nunca foi criada uma oposição entre crianças “com raiva” e “sem raiva” em relação ao riso.
D) Visão negativa e incoerente: O texto exalta a ingenuidade e inocência infantil, defendendo-as como virtudes, e não como entrave ao amadurecimento.

Ponto-chave: O autor valoriza o riso infantil enquanto manifestação de alma genuína; o adulto que almeja essa pureza de riso está a caminho de um amadurecimento completo, e não preso à imaturidade.

Dica para provas:
Desconfie de alternativas que distorcem a carga semântica positiva ou negativa expressa no texto. Segundo Bechara e Cunha & Cintra, interpretação correta depende de atenção aos detalhes de sentido e intenção.

Resumo: O texto elogia quem conquista um riso genuíno, como o da criança, revelando maturidade e uma “alma sólida”.

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