A colocação do pronome oblíquo, em “Encontramo-los entre es...
Analise o texto a seguir para responder à questão.
Os profetas secretos
(José Eduardo Agualusa)
O que menos aprecio nesta época do ano — os maus profetas. O que mais aprecio — os bons profetas. Abomino os profetas profissionais — astrólogos, tarólogos, e certos analistas políticos — que fingem olhar para o futuro, ignorando que as profecias autênticas, aquelas que se confirmam, resultam de um exercício sistemático de atenção ao presente.
Os verdadeiros profetas não olham para o futuro — a mais respeitada e esquiva das superstições! Olham, sim, para aquilo que os rodeia. Escutam os movimentos subterrâneos. Analisam e interpretam os sinais do tempo em que estão mergulhados. O futuro emerge então como consequência lógica — ou poética — de um presente esticado até ao limite.
George Orwell, por exemplo, não sonhou com o Grande Irmão. Não foram as cartas, nem os astros, que lhe permitiram adivinhar a emergência de regimes totalitários, capazes de vigiar o dia a dia dos seus cidadãos através de tecnologias sofisticadas. Orwell imaginou o aprofundamento de métodos de vigilância, de propaganda e do uso da linguagem como instrumento de poder, que já existiam no seu tempo.
“Fahrenheit 451”, de Ray Bradbury, não é um romance sobre a queima de livros, mas sobre uma sociedade anestesiada por projetos de entretenimento cuidadosamente imbecilizantes — aquilo a que chamamos, num eufemismo elegante, cultura de massas.
Bradbury compreendeu que não seriam necessárias fogueiras para destruir os livros. Bastaria torná-los desnecessários, fazendo com que as pessoas trocassem a leitura por estímulos incessantes, rápidos e superficiais. O autor testemunhou o tédio se alastrando, viu a superficialidade ocupando todos os espaços, e escreveu a partir desses indícios.
Orwell e Bradbury foram grandes profetas — assim como Júlio Verne, Aldous Huxley, Philip K. Dick e mais uma dúzia de outros gigantes da literatura universal — porque, ao contrário de tantos falsos quiromantes, souberam olhar e escutar o presente.
Os bons profetas do nosso tempo não reivindicam nenhum dom de clarividência. Pelo contrário. Desconfiam das certezas. Encontramo-los entre escritores que interrogam as correntes obscuras do inconsciente coletivo, como a romancista canadense Margaret Atwood, com as suas visões distópicas, como no excelente “O conto da aia”. Encontramo-los também entre algumas figuras da ciência, como o físico italiano Carlo Rovelli, que há vários anos se esforça por nos mostrar o meticuloso logro do tempo.
Nenhum destes profetas contemporâneos promete salvação. Nenhum oferece calendários. Limitam-se a mostrar que o presente é mais estranho, mais frágil — e mais exigente — do que aquilo que gostamos de admitir.
Os maus profetas anunciam futuros confortáveis; os outros tornam o presente desconfortável. Os maus tranquilizam; os bons inquietam. No fim, volto ao início: o que menos aprecio nesta época do ano são os maus profetas, tão seguros de si e com tantos seguidores nas redes sociais. O que mais aprecio — os bons profetas, quase sempre discretos, atentos, solitários. Aqueles que não olham para o futuro, mas para aquilo que está ocorrendo agora, e nos forçam, por isso mesmo, a abrir os olhos. A mantê-los abertos.
(Disponível: https://oglobo.globo.com/cultura/jose-eduardoagualusa/coluna/2026/01/os-profetas-secretos.ghtml. Acesso em 01/02/2026)
Assinale a alternativa que explica, adequadamente, a grafia apresentada nesse emprego.
Gabarito comentado
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Gabarito: B
Fundamento decisivo: Em “Encontramo-los entre escritores”, há ênclise do pronome oblíquo átono “os” ao verbo “encontramos”. Pela regra normativa, quando o(s)/a(s) se ligam encliticamente a verbo terminado em -r, -s ou -z, a consoante final cai e o pronome passa a lo(s)/la(s); por isso, a grafia correta é “Encontramo-los”, o que confirma a alternativa B.
- Primeiro identifique a estrutura: verifique se o pronome está antes, no meio ou depois do verbo; isso separa próclise, mesóclise e ênclise.
- Se o pronome for o(s)/a(s) e estiver ligado a verbo terminado em -r, -s ou -z, confira a regra de adaptação: cai a consoante final do verbo e o pronome vira lo(s)/la(s).
- Não segmente a forma verbal de modo artificial: em “Encontramo-los”, “-mo-” faz parte de “encontramos”, não é pronome.
- Não atribua a forma “lo(s)/la(s)” à pessoa verbal; ela depende do encontro entre o pronome e a terminação do verbo.
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Comentários
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A alternativa correta é a B.
A regra aplicada em "Encontramo-los" é puramente morfológica e ocorre em casos de ênclise (pronome depois do verbo).
Por que a alternativa B está correta?
Quando pronomes oblíquos o, a, os, as são associados a verbos terminados em -r, -s ou -z:
- A terminação consonantal do verbo desaparece.
- O pronome ganha a letra "l", transformando-se em lo(s), la(s).
- No exemplo: Encontramos + os
- Encontramo + los
- Encontramo-los.
Por que as outras estão incorretas?
- ❌ A) Mesóclise: A mesóclise ocorre no meio do verbo (ex: Encontrar-nos-emos). No exemplo, o pronome está no final (ênclise).
- ❌ C) Combinação de pronomes: Não há o pronome "me" na palavra. O que houve foi a queda do "-s" da terminação verbal de 1ª pessoa do plural.
- ❌ D) Pronome "lhe": O pronome original é "os" (objeto direto). O "lhe" funciona como objeto indireto e não sofre essa transformação para "los".
Regra de Ouro:
Sempre que o verbo terminar em -S, -R ou -Z, corte a letra e use LO/LA.
- Fazer + o = Fazê-lo
- Dizemos + a = Dizemo-la
Gabarito Letra B.
Lembrando que não pode iniciar frase com pronome, logo, o pronome tem que ir para o final da palavra, aplicando-se a ÊNCLISE.
O verbo está na 1ª pessoa do plural: encontramos
Quando se usa ênclise (pronome depois do verbo) e o verbo termina em -s, ocorre uma adaptação:
- o -s final cai
- o pronome “os” vira “los”
Próclise – POA situa-se antes do verbo
Mesóclise – POA no meio do verbo
Ênclise- POA após o verbo
Colocação pronominal
O deslocamento de um pronome oblíquo átono (me, te, se, nos, vos, o, os, a, as, lhe, lhes) deve seguir as regras de colocação pronominal.
Dica: NARISD (palavras atrativas, as quais exigem próclise)
- N – negativas (não, nunca, jamais etc)
- A – advérbios (sempre, talvez, somente etc)
- R – relativos (pronomes relativos – Todos)
- I – indefinidos e interrogativos (algum, todos, por que etc)
- S – subordinativas (conjunções e locuções – que, embora, já que etc)
- D – demonstrativos (pronomes – este, aquele, isso etc)
⚠️ Se a próclise for obrigatória, não existe mesóclise ou ênclise.
⚠️Quando há verbo no infinitivo, a colocação pronominal é facultativa, podendo ocorrer tanto ênclise quanto próclise, mesmo tendo palavras atrativas antes. (CESPE)
⚠️ Olhou o “que” e viu um nome antes, pronome relativo obrigatório o uso da próclise.
3 PROIBIÇÕES:
- ➪ INÍCIO DE ORAÇÃO: Me empresta um lápis.
- ➪ ÊNCLISE após FUTURO: Emprestarei-te um lápis - Emprestar-te-ei um lápis [Futuro do presente (...rei)], [Futuro do pretérito (...ria)]
- ➪ ÊNCLISE após PARTICÍPIO: Tinha emprestado-lhe um lápis (regular: bebido/falado, irregular: visto/vindo
2 EXCEÇÕES
- ➪ Verbo no infinitivo: sempre aceita ênclise Ex: Para me responder / Para responder me
- ➪ Conjunções coordenativas: Ex. Chegou e se deitou / Chegou e deitou-se
⚠️Se a vírgula marcar o início de uma nova oração, a próclise é proibida.
⚠️Se a vírgula marcar uma intercalação, a próclise é permitida.
Essa matéria é TÃO chata, nao entra na minha cabeça por nada no mundo.
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