Campos Lara notou, nos olhos ensombrados, sonhadores, do filho,
que o rapaz o procurava. Tinha qualquer necessidade de desabafo.
Alegrou-se. O filho chegava-se. Não quis ser indiscreto. Não perguntou.
Esperou. Os dias foram passando. Joãozinho nas vezes sentava-se ao
seu lado, no escritório, a palavra afogada na garganta.
O pai via os olhos tristes do filho, contava as espinhas no seu rosto.
Era amor. Com certeza era amor. Estava na idade. E esperava a
confidência.
Uma tarde o rapaz se atreveu.
- Papai, eu estava querendo falar com o senhor.
- Fale, meu filho.
De certo ia pedir licença para casar-se. Que loucura! Naquela idade...
Mas o menino hesitava. Afinal, criou coragem. E contou que estava
escrevendo umas coisas. Não sabia se prestavam, se tinha jeito. Não
queria fazer papel ridículo. Estava há muito para lhe falar. Queria a sua
opinião franca. Estava disposto a ver a bobagem?
Campos Lara empalideceu.
- Estava.
E muito vermelho, trêmulo, o rapaz lhe estendeu uma folha. Era um
poema. O pai sentiu uma turvação na vista, percebeu que o coração lhe
batucava no peito. Correu os olhos pelo poema, versos livres, linguagem
nova, imagens febris, uma revelação inquietante de poeta, voltado para
os problemas que eram a angústia da sua geração.
Seu filho era poeta. Um arrepio de orgulho e de emoção percorreu -
lhe a pele. Afinal de contas, tinha sido aquele o seu sonho toda vida.
Um filho que se perpetuasse, que valesse por si, que lhe continuasse a
obra. E teve o impulso de abraçá-lo. Sentiu que seus olhos se
enublavam de lágrimas. Lembrou-se, porém, da sua vida. Dos anos de
luta, de sonho, de tormento e de agonia criadora. Da vida árdua,
humilde, sacrificada e dolorosa que vivera. Da existência que dera à
família, dominado pelo seu devotamento exclusivo à arte. Da vida que
dera ao próprio filho. Era essa a vida que ele tinha diante de si. Que
teriam o filho de seu filho. E que seria talvez pior, porque não era só a
arte que o chamava. Outras insídias e outros desenganos o esperavam.
- Prestam? Continuo?
Campos Lara sorriu. E batendo um cigarro, o pensamento melancólico
no vazio da vida, ficou olhando o filho sem achar resposta.
Assinale a alternativa que demonstra a atitude do rapaz,
que hesitava em falar ao pai, revela:
Incorreta. Gabarito oficial da banca:
Treine mais com um simulado focado no seu concurso. Criar simulado
teste
Parabéns! Você acertou!
Está mandando bem! Treine mais em um simulado completo. Criar simulado