No texto, a construção discursiva do narrador articula expe...

Próximas questões
Com base no mesmo assunto
Q3912942 Português
Auxiliar do pequeno arroz


Amo faxinar. Amo varrer. Amo passar aspirador de pó, carregando nos braços as curvas dos canos como uma jiboia de estimação.


Quando Beatriz decidiu comprar um robozinho aspirador, eu me considerei extinto, superado, posto de lado. Minha primeira reação resumiu-se a um dolorido sentimento de rejeição. Não poderia mais me vangloriar da limpeza, do piso lustrado, dos cantos asseados.


Era como o adeus a um reconhecimento familiar. A despedida de uma função na minha vida. De uma utilidade. De um significado doméstico. Das recompensas.


Atingiu em cheio a minha vaidade. Tentei dissuadir minha esposa, mas ela cedeu aos encantos da tecnologia. Disse que o aparelho iria facilitar nossa rotina. Seu discurso centrava-se no atenuante de que completaria meu trabalho, mantendo meu valor.


Recebemos um disco voador do chão, que jamais decolava, que falava inglês e ruminava a sujeira. O produto vinha da China. Seu nome — Xiaomi — corresponde a "pequeno arroz" (Xiao = pequeno, Mi = arroz).


Chegava para mexer com o feijão e o arroz dos meus préstimos.


A princípio, prometia uma varredura sem igual. Prospectou o espaço do lar, incorporou a planta dos aposentos, esnobou vantagens em termos de profissionalismo e método. Ele me humilhou no brainstorm, no business plan, no dark horse, no deadline, no follow-up, no know-how, no target, no mindset — e pensar que eu me achava super organizado arredando os móveis. Era possível programá-lo remotamente via celular. Mandaria mensagens ao concluir o serviço.


A teoria, entretanto, não acompanhou a prática.


Ele desapareceu no meio de suas operações. Ou enforcado nos fios da televisão, ou atolado no box do banheiro, ou prensado debaixo da cama, ou paralisado por algum chinelo, ou engasgado com um capacho.


Brincava perigosamente de esconde-esconde conosco.


Empreendíamos diariamente uma expedição para localizar seu misterioso paradeiro. Adquirido para diminuir o estresse, só causava preocupação. Parecia um bebê engatinhando e botando na boca tudo o que encontrasse pelo caminho. Já temíamos por sua fragilidade.


Provocou um rebuliço na nossa logística. Porque, antes de colocá-lo em movimento, acabávamos obrigados a tirar qualquer obstáculo para sua passagem. Fazíamos uma vistoria do que ele seria capaz de engolir. Deu saudade da época muito mais simples em que levantávamos os pés para alguém limpar.


Foi assim que eu me tornei auxiliar do Xiaomi. Ele depende de mim para não morrer. Guardo a impressão de que perco mais tempo preparando o terreno para ele do que eu gastaria realmente arrumando a casa.


Mas ainda permaneço, de um jeito ou de outro, aos trancos e barrancos, insubstituível.


Fabrício Carpinejar


CARPINEJAR, Fabrício. Auxiliar do pequeno arroz. O Tempo, Belo
Horizonte, 26 dez. 2025. Disponível em:
https://www.otempo.com.br/opiniao/fabricio-carpinejar/2025/12/26/auxili
ar-do-pequeno-arroz . Acesso em: 22 fev. 2026.

No texto, a construção discursiva do narrador articula expectativas, frustrações e rearranjos simbólicos no interior da rotina doméstica. Considerando a progressão argumentativa, os recursos de ironia e o modo como se estrutura a autopercepção do eu enunciador, é CORRETO afirmar que:
Alternativas

Gabarito comentado

Confira o gabarito comentado por um dos nossos professores

Gabarito: B

Fundamento decisivo: O critério decisivo é interpretativo-discursivo: a progressão do texto contrasta a expectativa de autonomia do robô com sua dependência prática, produzindo ironia na reconfiguração do papel do narrador. O trecho obrigatório confirma a inversão de papéis e a permanência de sua função sob nova mediação tecnológica.

Tema central: rearranjo da função doméstica
Análise das alternativas
A
Errada
A alternativa erra por reduzir o problema a "resistência subjetiva do narrador à redistribuição das tarefas". O texto é mais específico: o desconforto inicial decorre da ameaça à sua utilidade, ao reconhecimento familiar e à sua vaidade, como mostram "eu me considerei extinto, superado, posto de lado" e "Era como o adeus a um reconhecimento familiar. A despedida de uma função na minha vida. De uma utilidade." Além disso, o sentido global não fica no desconforto inicial; ele evolui para um rearranjo funcional mediado pela tecnologia.
B
Certa
A alternativa B está correta porque sintetiza o movimento central do texto: o aparelho entra em cena como promessa de modernização e autonomia, mas a prática mostra o contrário. A virada em "A teoria, entretanto, não acompanhou a prática." desfaz a expectativa inicial, e o desfecho mostra que o narrador não foi substituído; ele passou a exercer uma nova função assistiva diante da máquina. Por isso, a identidade doméstica dele é reorganizada: deixa de ser apenas o executor direto da limpeza e passa a ser necessário como mediador do funcionamento do robô, permanecendo "insubstituível".
C
Errada
A alternativa é incompatível com o desfecho do texto. Ela fala em "ruptura irreversível entre reconhecimento pessoal e prática cotidiana", mas o final afirma o contrário: "Mas ainda permaneço, de um jeito ou de outro, aos trancos e barrancos, insubstituível." Também é incorreto dizer que há deslocamento para uma racionalidade instrumental dominante, porque o texto mantém do início ao fim a dimensão afetiva, subjetiva e irônica; o vocabulário tecnológico e empresarial aparece justamente em chave irônica.
D
Errada
A alternativa projeta uma conclusão futura que o texto não autoriza. Não há indicação de que a falibilidade do robô seja uma fase transitória de adaptação que levará à "autonomia plena". Ao contrário, o texto apresenta a dependência como dado efetivo da experiência narrada: "antes de colocá-lo em movimento, acabávamos obrigados a tirar qualquer obstáculo para sua passagem" e "Ele depende de mim para não morrer." Portanto, há extrapolação indevida.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre a reação inicial do narrador e o sentido final do texto: quem para na rejeição subjetiva erra; o desfecho mostra uma inversão irônica em que a tecnologia não substitui o narrador, mas passa a depender dele.
Dica para questões semelhantes
  • Em textos com ironia, localize a virada argumentativa; aqui, ela está em "A teoria, entretanto, não acompanhou a prática."
  • Não decida pela primeira impressão do narrador; confira como o texto reconstrói essa percepção no desfecho.
  • Quando a alternativa usar formulação abstrata, teste se ela resume fielmente o percurso inteiro do texto, não apenas um trecho isolado.

Clique para visualizar este gabarito

Visualize o gabarito desta questão clicando no botão abaixo

Comentários

Veja os comentários dos nossos alunos

Gabarito: B

Clique para visualizar este comentário

Visualize os comentários desta questão clicando no botão abaixo