No período "Guardo a impressão de que perco mais tempo prep...

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Q3912941 Português
Auxiliar do pequeno arroz


Amo faxinar. Amo varrer. Amo passar aspirador de pó, carregando nos braços as curvas dos canos como uma jiboia de estimação.


Quando Beatriz decidiu comprar um robozinho aspirador, eu me considerei extinto, superado, posto de lado. Minha primeira reação resumiu-se a um dolorido sentimento de rejeição. Não poderia mais me vangloriar da limpeza, do piso lustrado, dos cantos asseados.


Era como o adeus a um reconhecimento familiar. A despedida de uma função na minha vida. De uma utilidade. De um significado doméstico. Das recompensas.


Atingiu em cheio a minha vaidade. Tentei dissuadir minha esposa, mas ela cedeu aos encantos da tecnologia. Disse que o aparelho iria facilitar nossa rotina. Seu discurso centrava-se no atenuante de que completaria meu trabalho, mantendo meu valor.


Recebemos um disco voador do chão, que jamais decolava, que falava inglês e ruminava a sujeira. O produto vinha da China. Seu nome — Xiaomi — corresponde a "pequeno arroz" (Xiao = pequeno, Mi = arroz).


Chegava para mexer com o feijão e o arroz dos meus préstimos.


A princípio, prometia uma varredura sem igual. Prospectou o espaço do lar, incorporou a planta dos aposentos, esnobou vantagens em termos de profissionalismo e método. Ele me humilhou no brainstorm, no business plan, no dark horse, no deadline, no follow-up, no know-how, no target, no mindset — e pensar que eu me achava super organizado arredando os móveis. Era possível programá-lo remotamente via celular. Mandaria mensagens ao concluir o serviço.


A teoria, entretanto, não acompanhou a prática.


Ele desapareceu no meio de suas operações. Ou enforcado nos fios da televisão, ou atolado no box do banheiro, ou prensado debaixo da cama, ou paralisado por algum chinelo, ou engasgado com um capacho.


Brincava perigosamente de esconde-esconde conosco.


Empreendíamos diariamente uma expedição para localizar seu misterioso paradeiro. Adquirido para diminuir o estresse, só causava preocupação. Parecia um bebê engatinhando e botando na boca tudo o que encontrasse pelo caminho. Já temíamos por sua fragilidade.


Provocou um rebuliço na nossa logística. Porque, antes de colocá-lo em movimento, acabávamos obrigados a tirar qualquer obstáculo para sua passagem. Fazíamos uma vistoria do que ele seria capaz de engolir. Deu saudade da época muito mais simples em que levantávamos os pés para alguém limpar.


Foi assim que eu me tornei auxiliar do Xiaomi. Ele depende de mim para não morrer. Guardo a impressão de que perco mais tempo preparando o terreno para ele do que eu gastaria realmente arrumando a casa.


Mas ainda permaneço, de um jeito ou de outro, aos trancos e barrancos, insubstituível.


Fabrício Carpinejar


CARPINEJAR, Fabrício. Auxiliar do pequeno arroz. O Tempo, Belo
Horizonte, 26 dez. 2025. Disponível em:
https://www.otempo.com.br/opiniao/fabricio-carpinejar/2025/12/26/auxili
ar-do-pequeno-arroz . Acesso em: 22 fev. 2026.

No período "Guardo a impressão de que perco mais tempo preparando o terreno para ele do que eu gastaria realmente arrumando a casa.", a organização sintática articula diferentes processos de subordinação e uma estrutura comparativa. Considerando os mecanismos formais de coordenação e subordinação presentes no trecho, assinale a alternativa que descreve corretamente sua estrutura, sem simplificações indevidas.
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: A

Fundamento decisivo: "Guardo a impressão de que perco mais tempo preparando o terreno para ele do que eu gastaria realmente arrumando a casa." O ponto decisivo é que "de que perco mais tempo preparando o terreno para ele" completa o nome "impressão", caracterizando subordinada substantiva completiva nominal; já "do que eu gastaria realmente arrumando a casa" introduz a comparação com elipse do segmento verbal correspondente, o que torna correta a alternativa A.

Tema central: orações subordinadas
Análise das alternativas
A
Certa
A alternativa A descreve a estrutura sem simplificação indevida. "Guardo a impressão" constitui a oração principal. O segmento "de que perco mais tempo preparando o terreno para ele do que eu gastaria realmente arrumando a casa" não funciona como objeto direto de "guardo", mas como complemento do nome "impressão"; por isso, é subordinada substantiva completiva nominal. No interior dessa oração, "do que eu gastaria realmente arrumando a casa" introduz a comparação entre duas situações e forma a subordinada comparativa indicada na alternativa.
B
Errada
Erra em dois pontos. Primeiro, a oração introduzida por "de que" não é subordinada objetiva direta, porque não completa o verbo "guardo"; ela completa o nome "impressão". Segundo, não há "duas coordenadas alternativas": o trecho "do que eu gastaria realmente arrumando a casa" introduz comparação, não alternância nem coordenação.
C
Errada
A descrição por coordenação adversativa implícita não se sustenta. O período não traz duas orações independentes; há encaixamento sintático por subordinação. Além disso, a comparação não nasce apenas do contexto semântico: ela está formalmente marcada por "do que".
D
Errada
Não há subordinação adjetiva restritiva, porque falta antecedente nominal retomado por pronome relativo. A oração introduzida por "de que" é substantiva, pois completa o nome "impressão". Também não existe oração coordenada explicativa reduzida: o trecho com "do que" pertence à estrutura comparativa, não à coordenação explicativa.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre completiva nominal e objetiva direta: como a oração depende semanticamente de "guardo", muitos a classificam pelo verbo, mas o núcleo efetivamente completado é o nome "impressão". A outra armadilha é tratar "do que" como ligação coordenativa, quando ele marca comparação.
Dica para questões semelhantes
  • Antes de classificar a subordinada, verifique se ela completa um verbo ou um nome do enunciado; aqui, o termo completado é "impressão".
  • Quando aparecer "do que" em estrutura de "mais... do que", teste primeiro o valor comparativo antes de pensar em coordenação.
  • Se a questão pedir descrição sem simplificações, observe se há uma oração encaixada dentro de outra, como a comparativa dentro da completiva nominal.

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