A língua portuguesa tem sido alvo de um amplo debate sobre o sentido de alguns termos e expressões. Para
especialistas, algumas frases de uso comum entre os
países lusófonos fazem referência a grupos minoritários, tratando-os de forma pejorativa.
Consideradas machistas, sentenças como "mal-amada" e "essa é para casar" também foram sentenciadas
ao cancelamento, embora ainda sejam usadas com
afinco por todos os tios no Natal.
Como a linguagem está em constante transformação,
outras expressões correm o risco de serem excluídas, ou
por serem ofensivas ou por não fazerem mais sentido.
Antes usada para descrever indivíduos que frequentam todos os eventos, o termo "arroz de festa" caiu em
desuso. Com o preço da cesta básica, o item é raridade
e desejado em qualquer celebração.
Da mesma forma, "descascar abacaxi", antigamente
usada para descrever um problema difícil, com o preço
da fruta, hoje é sinônimo de prazer e satisfação.
"Custar os olhos da cara" também perdeu o sentido.
Diante da crise atual, qualquer cidadão está disposto a
vender os olhos e a cara por preços baixos.
Por soar xenofóbica, muitos passaram a evitar o termo
"negócio da China". Mesmo porque, nos dias de hoje,
fazer transações comerciais com o gigante asiático tem
sido um excelente negócio.
Expressões se conhecem e expressões se ensinam.
Outra que envelheceu mal foi "armado até os dentes". Hoje o cidadão pode até ter facilidade de andar
armado, mas, com as políticas de saúde precárias, está
completamente sem dentes.
O termo "pai presente", aos poucos, também caiu em
desuso pois, na maioria das famílias do país, o sujeito
raramente está presente, muito menos traz presentes.
O dito "a cobra vai fumar" ficou desatualizado. Antes
usado para se referir a algo impossível, com a situação
que está o país, é compreensível que a cobra esteja
fumando e muito.
* Roteirista. Escreve para programas e séries.
Folha de São Paulo, 8 jun. 2022. Adaptado.
Sabendo-se que o texto de Flávia Boggio foi publicado em um veículo impresso de circulação nacional, é
correto afirmar que os leitores poderão encontrá-lo
na seção do jornal denominada