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Q2892379 Português

TEXTO:

Protestos, desejos e compreensão de si

Para muitas pessoas, não é fácil entender as manifestações coletivas em nome de causas e

direitos sociais que vêm acontecendo em âmbito global e que, recentemente, surpreendendo a muitos,

surgiram também no Brasil. O desconhecimento a respeito da história social e política, bem como

sobre o significado profundo das lutas, sublevações e insurreições mundiais e nacionais contribui para

5 a perplexidade quanto à situação presente. Não se conhece o passado, não se entende

o presente e, além de tudo, não é possível prever o futuro quanto a mudanças sociais concretas em termos de

direitos, cidadania, reforma política ou direção de políticas públicas. Se, por um lado, o que pensamos

do futuro pertence à especulação e à fantasia, por outro, é o efeito direto do que não somos capazes

de imaginar, daquilo que se dá em bases inconscientes, do que é da ordem imponderável do desejo. O

10 desejo de que um mundo melhor possa nos amparar é o novo sentimento que surge como um terceiro

elemento no instante em que a alternativa estava entre o apático fim das utopias e a ideia de que todas

as utopias já tinham sido realizadas.

Certo, no entanto, é que uma mudança de autocompreensão coletiva está em cena no Brasil

atual. E esse talvez seja o aspecto mais decisivo no contexto dos acontecimentos, a experiência

15 subjetiva que está sendo vivida quando muitos acreditavam no fim do sujeito ético e político, aniquilado

pelos diversos mecanismos de dessubjetivação que vão da economia à tecnologia. A impressão

generalizada era que as pessoas estavam vendidas ao sistema econômico, tinham cancelado qualquer

desejo político, eram servas do consumismo e da publicidade e, portanto, já não pertenciam a si

mesmas. Não tinham subjetividade, a instância da decisão, da liberdade que se elabora e forma na

20 intimidade de cada um e em sua relação com o outro.

No contexto, surpreende que a internet – que aparece, muitas vezes, como a máquina

devoradora de subjetividades – se torne um mecanismo democrático, uma instância de trocas

intersubjetivas, que faz irromper liberdades individuais na formação da expressão comum tal como a

da multidão nas ruas. O fato de a internet, como meio tecnológico, ter sido a ameaça de aniquilação da

25 subjetividade e, de repente, ter ajudado a forjar outras subjetividades, mostra apenas que o ser

humano permanece humano, na liberdade de recriar seu sentido, seu modo de viver e usar

instrumentos, como a própria internet, a seu favor.

A queixa geral que ouvíamos como um sussurro social poderia ter continuado seu zunido

gasto, mas tornou-se ativismo político dos brasileiros. O que de fato está acontecendo entre nós? É

30 algo que podemos nos perguntar. Mais do que curiosidade, o que está em cena é um abalo sísmico no

processo de nossa autocompreensão comum. Isso quer dizer que nunca mais nos veremos do mesmo

modo porque, devido aos eventos políticos e sociais, já não somos os mesmos.

TIBURI, Márcia. Protestos, desejos e compreensão de si. Revista Mente e Corpo. Disponível em: < http://www2.uol.com.br/vivermente/artigos/protestos_desejos_e_compreensao_de_si.html>. Acesso em: 14 ago. 2013. Adaptado.

A análise linguística dos elementos que compõem o texto está correta em

Alternativas

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Análise da questão

A banca explora, nesta questão, o reconhecimento de funções sintáticas e semânticas de elementos linguísticos no texto, exigindo domínio sobre orações subordinadas, pronomes relativos, e o emprego dos verbos.

Principais temas abordados: reconhecimento da função do sujeito oracional, pronomes, valor semântico-sintático do “se”, agente de ação verbal e tempo verbal.

Justificativa da alternativa correta (C):

A oração “que uma mudança de autocompreensão coletiva está em cena no Brasil atual” atua como sujeito oracional da oração principal (“Certo, no entanto, é...”). Essa é uma estrutura típica de sujeito oracional introduzido por “que”, funcionando como sujeito do predicativo “certo”. Pela norma culta (Bechara, Cunha & Cintra), a oração subordinada substantiva subjetiva exerce o papel de sujeito da oração principal.

Outras questões costumam cobrar a identificação do sujeito oracional. O segredo é localizar o predicativo do sujeito (“é certo”, “é necessário”), que revela oração subordinada subjetiva.

Análise crítica das alternativas incorretas:

A) Incorreta. No trecho “Não se conhece o passado”, o “se” é índice de indeterminação do sujeito. Já em “Se, por um lado...”, é conjunção condicional. Funções distintas.

B) Incorreta. “em que” (linha 11) é pronome relativo que retoma “instante” (não “terceiro elemento”) e introduz oração adjetiva restritiva. Não há comparação, mas sim identificação de tempo.

D) Incorreta. “as pessoas” é sujeito do verbo “eram”, e não agente. Agente da passiva existe somente em voz passiva analítica.

E) Incorreta. “ouvíamos” é pretérito imperfeito, indicando ação habitual, contínua ou inacabada no passado, não ação concluída (o que seria pretérito perfeito).

Estratégia para questões assim:

Cuide com as pegadinhas semânticas (“sujeito/agente”), funções do “se” e distinção entre tipos de orações. Leia com atenção ao verbo de comando (“está correta”) e analise termos-chave do enunciado.

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