Considerando o emprego correto do acento indicativo de crase...
Exercício físico como deleite?
Por Carlos Alberto Gianotti
- Dia desses, falei com um velho colega e amigo ultramaratonista para saber como ele havia
- se saído na recente Travessia Torres-Tramandaí. A resposta veio taxativa: "Simplesmente
- desisti, abandonei a prova na altura da Praia do Barco e fui tomar uma cerveja, porque cheguei
- ___ conclusão de que corria por obrigação, e não por prazer."
- Sei que meu amigo chegaria a Tramandaí entre os melhores, não só em sua categoria. Mas
- parou ao sentir ou a falta de prazer no que estava a fazer, ou o tormento da obrigação. Sim,
- concluir uma prova, como meta, é a obrigação. Disputá-la, o sacrifício. Ao término, e só então,
- há o prazer de haver cumprido o percurso. No caso, parece, houve, além de algo estranhável,
- ou um erro de avaliação ou de autoengano momentâneo (o mais provável), por alguém
- acostumado a treinos de longas distâncias, horas ___ fio. Corridas de fundo não se constituem
- em prazer, mas em disciplina, esforço, sacrifício. Logo, não há deleite.
- Há, entre os vídeos que se acumulam na internet, um essencialmente pedagógico relativo
- ___ prática do fundismo, com o doutor Dráuzio Varella, conhecido médico, escritor e
- maratonista, com cujo conteúdo concordo plenamente, depois de eu, hoje aos 71 anos, já ter
- corrido por mais de 36 anos cerca de 48 mil quilômetros. Diz Dráuzio que o exercício físico não
- é algo "natural" para o ser humano, sendo ele o único animal que o pratica. A tendência das
- pessoas é de permanecer quietinhas, gastando energia apenas para reprodução da espécie, para
- conseguir alimentos (no caso dos humanos, o tal trabalho) e para escapar de predadores da
- espécie (no Brasil, fugir da bandidagem). Diz o médico que nunca ninguém viu, em um zoológico,
- girafa fazendo alongamento ou leão correndo maratona.
- Ora, essa conversa bacana de que correr pelos parques ou pelas ruas é um momento
- edificante espiritual e físico pode ser faltar .... verdade para os ouvintes ou para si mesmo.
- Prática esportiva continuada requer disciplina, logo é sacrifício. Creio que não houve uma vez
- nesses meus anos de fundista em que me preparasse para sair a treinar e que não tenha, antes
- da partida, conjecturado comigo mesmo: "Por que estou fazendo isso?". Claro que há benefícios
- físicos e psíquicos notórios na prática periódica do exercício físico, mas daí a dizer que se trata
- de um prazer é um grande autoengano.
(Disponível em: https://gauchazh.clicrbs.com.br/esportes/noticia/2018/02/carlos-alberto-gianotti-exercicio-fisico-como-deleite-cjddnqo9a07sj01kevloi0rqm.html – texto adaptado especialmente para esta prova).
Considerando o emprego correto do acento indicativo de crase, assinale a alternativa que preenche, correta e respectivamente, as lacunas tracejadas das linhas 04, 10 e 13.
Gabarito comentado
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Tema central: uso do acento indicativo de crase (fusão da preposição “a” + artigo “a” = “à”). Para acertar, cheque: (1) a regência do termo anterior; (2) se o termo seguinte admite artigo; (3) locuções fixas que não levam artigo.
Alternativa correta: A — à – a – à
1) Lacuna da linha 4: “chegar à conclusão”
– O verbo chegar exige preposição “a”.
– “Conclusão” (feminino) admite artigo “a”.
– Preposição + artigo = à.
– Teste do masculino: “chegar ao consenso” ⇒ há artigo; no feminino, crase: à conclusão.
2) Lacuna da linha 10: “horas a fio”
– Expressão cristalizada de tempo/modo: a fio.
– “Fio” é masculino; não há artigo. Logo, só preposição “a”, sem crase.
– Regra útil: não há crase antes de palavra masculina (ex.: a pé, a cavalo, a prazo).
3) Lacuna da linha 13: “relativo à prática (do fundismo)”
– O adjetivo relativo rege preposição “a”.
– “Prática” (feminino) com artigo “a” (“a prática do fundismo”).
– Preposição + artigo = à.
– Teste do masculino: “relativo ao procedimento” ⇒ no feminino, à prática.
Por que as demais estão erradas?
B) à – à – a: erra na 2ª (deve ser “a fio”, sem artigo) e na 3ª (deve ser “à prática”).
C) à – a – a: erra na 3ª (falta o artigo: correto “à prática”).
D) a – à – à: erra na 1ª (verbo “chegar” + “conclusão” com artigo pede crase: “à conclusão”).
E) a – à – a: erra na 1ª (falta crase) e na 2ª (sobra crase em “a fio”).
Estratégias de prova (evite pegadinhas):
• Teste do masculino: se no masculino vira “ao”, no feminino costuma ser “à”.
• Expressões fixas sem artigo (a pé, a cavalo, a prazo, a domicílio, a fio) não levam crase.
• Verifique regência (verbo/adjetivo que exigem “a”) + artigo do substantivo seguinte.
Gabarito: A
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Comentários
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Chegei à conclusão. / Quem chega, chega a algo, ou de algo.
"Horas a fio". / "fio" substantivo masculino.
"relativo à pratica". / relativo a algo.
Agora, que texto mais mentiroso que vi em anos. Dizer que um ultramarotonista desistiu de uma prova e foi beber, pois caiu a real que não gostava de correr, é acreditar em contos de fadas.
Gabarito A
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