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Ano: 2026
Banca:
IV - UFG
Órgão:
Prefeitura de Buriti Alegre - GO
Provas:
IV - UFG - 2026 - Prefeitura de Buriti Alegre - GO - Monitor
|
IV - UFG - 2026 - Prefeitura de Buriti Alegre - GO - Recepcionista |
IV - UFG - 2026 - Prefeitura de Buriti Alegre - GO - Técnico em Higiene Bucal |
Q4303982
Não definido
Texto associado
Texto 2
Medo da eternidade
Clarice Lispector
Jamais esquecerei o meu aflitivo e dramático contato com a
eternidade.
Quando eu era muito pequena ainda não tinha provado chicles
e mesmo em Recife falava-se pouco deles. Eu nem sabia bem
de que espécie de bala ou bombom se tratava. Mesmo o
dinheiro que eu tinha não dava para comprar: com o mesmo
dinheiro eu lucraria não sei quantas balas. Afinal minha irmã
juntou dinheiro, comprou e ao sairmos de casa para a escola
me explicou:
— Tome cuidado para não perder, porque esta bala nunca se
acaba. Dura a vida inteira.
— Como não acaba? — Parei um instante na rua, perplexa.
— Não acaba nunca, e pronto. — Eu estava boba: parecia-me
ter sido transportada para o reino de histórias de príncipes e
fadas. Peguei a pequena pastilha cor-de-rosa que representava
o elixir do longo prazer. Examinei-a, quase não podia acreditar
no milagre. Eu que, como outras crianças, às vezes tirava da
boca uma bala ainda inteira, para chupar depois, só para fazêla durar mais. E eis-me com aquela coisa cor-de-rosa, de
aparência tão inocente, tornando possível o mundo impossível
do qual já começara a me dar conta.
Com delicadeza, terminei afinal pondo o chicle na boca.
— E agora que é que eu faço? — perguntei para não errar no
ritual que certamente deveria haver.
— Agora chupe o chicle para ir gostando do docinho dele, e só
depois que passar o gosto você começa a mastigar. E aí
mastiga a vida inteira. A menos que você perca, eu já perdi
vários.
— Perder a eternidade? Nunca.
O adocicado do chicle era bonzinho, não podia dizer que era
ótimo. E, ainda perplexa, encaminhávamo-nos para a escola.
— Acabou-se o docinho. E agora?
— Agora mastigue para sempre.
Assustei-me, não saberia dizer por quê. Comecei a mastigar e
em breve tinha na boca aquele puxa-puxa cinzento de borracha
que não tinha gosto de nada. Mastigava, mastigava. Mas me
sentia contrafeita. Na verdade eu não estava gostando do gosto.
E a vantagem de ser bala eterna me enchia de uma espécie de
medo, como se tem diante da ideia de eternidade ou de infinito.
Eu não quis confessar que não estava à altura da eternidade.
Que só me dava aflição. Enquanto isso, eu mastigava
obedientemente, sem parar.
Até que não suportei mais, e, atravessando o portão da escola,
dei um jeito de o chicle mastigado cair no chão de areia.
— Olha só o que me aconteceu! — disse eu em fingidos
espanto e tristeza. — Agora não posso mastigar mais! A bala
acabou!
— Já lhe disse — repetiu minha irmã — que ela não acaba
nunca. Mas a gente às vezes perde. Até de noite a gente pode
ir mastigando, mas para não engolir no sono a gente prega o
chicle na cama. Não fique triste, um dia lhe dou outro, e esse
você não perderá.
Eu estava envergonhada diante da bondade de minha irmã,
envergonhada da mentira que pregara dizendo que o chicle
caíra da boca por acaso.
Mas aliviada. Sem o peso da eternidade sobre mim.
Disponível em: https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/5889/medo-daeternidade. Acesso em: 6 jul. 2026.
Considerando a forma como a narrativa articula o episódio
vivido e as sensações que ele desperta, a ideia central que
se depreende do texto é a de que o(a)