O texto de Otto Lara Resende é uma crônica. No componente L...

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Q3877491 Literatura
Ninguém sabe crasear, mas ler todo mundo lê

Otto Lara Resende

    Depois que a redação voltou ao vestibular, o que mais se ouve nesta época do ano é uma jeremiada sobre o desprezo a que está hoje relegado o livro. Ninguém sabe escrever porque ninguém lê.
    Escrever é uma técnica e, como tal, pode ser ensinada e, claro, pode ser aprendida por quem quiser. Também é uma arte, mas isto é outra história. Há vários métodos de ensinar a técnica de escrever. O mais comum, ou o mais aceito, é o que elimina qualquer noção de gramática. Não há razão para impor regra, nem lei. Tudo se pode ignorar. Ninguém precisa saber análise léxica ou sintática.
    Como os mestres que sustentam este ponto de vista sustentam também que pouquíssimo ou quase nada se lê, sobretudo nas novas gerações, presumo que a técnica de escrever seja ensinada por um processo mediúnico. Com a moda universal do esoterismo, quem sabe já se chegou ao aprendizado da leitura sem livro. Ou sem texto de qualquer espécie.
    No Brasil, como sabemos há séculos, nossos compatriotas analfabetos se contam por milhões. Até porque é muito difícil diagnosticar com precisão o grau de analfabetismo de um cidadão. Há titulares de diplomas e canudos que não vão muito longe em matéria de alfabeto. Um simples ditado, daqueles que há anos se davam na escola primária, pode derrubar milhares de bacharéis de grau superior. Isto para não falar da crase.
    A crase é hoje um obstáculo tão difícil, ou mais, do que o “cujo”. Há 30 anos ou mais, o Ferreira Gullar formulou as novas tábuas da lei nessa matéria. O primeiro mandamento trazia o princípio da libertação. A crase não foi feita para humilhar ninguém. Era um tempo em que a crase ainda humilhava. Hoje chegamos a um tal nível de saúde mental que ninguém se abala com a crase.
    Mas afinal de contas, eu ia falar da leitura. E do livro, cujo dia passou quase despercebido. Pois há um Dia do Livro. Mera coincidência, é o dia de São Judas Tadeu, o santo dos impossíveis e dos desesperados. São Judas Tadeu, de quem sou devoto, atraiu à sua igreja milhares de fiéis no Rio e pelo Brasil afora. 
    Podia ser também o patrono do livro, já que o livro, pelo que ouço, só existe e resiste por força de um milagre. Cheguei até aqui e não disse o que queria. Digo agora assim de estalo o que é a minha tese. Seguinte: nada neste mundo é mais promovido do que o livro. Dessacralizado pela sociedade de consumo, o livro não perdeu status. Continua a seu modo sagrado. Quem ousaria, por exemplo, declarar de público que não lê? Conheço dois casos. O Graciliano, que nos últimos anos de sua vida não lia nada. É o que ele dizia. E o garoto que outro dia disse na televisão que detesta ler. Cara de pau? Não. Um bravo!


Disponível em: https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/6549/ninguemsabe-crasear-mas-ler-todo-mundo-le Acesso em: 24 nov. 2025. Adaptado.
O texto de Otto Lara Resende é uma crônica. No componente Língua Portuguesa da BNCC, prevê-se a ampliação do “contato dos estudantes com gêneros textuais relacionados a vários campos de atuação e a várias disciplinas, partindo-se de práticas de linguagem já vivenciadas pelos jovens para a ampliação dessas práticas, em direção a novas experiências.” (BRASIL, 2018, p. 136)

Dentre as classificações previstas na BNCC, é correto afirmar que a crônica de Lara Resende é
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: B

Fundamento decisivo: O enunciado já identifica o texto como crônica, e esse dado, na BNCC, o coloca no campo artístico-literário; por isso, a alternativa correta é a que combina esse enquadramento com o traço opinativo do excerto.

Tema central: Classificação da crônica
Análise das alternativas
A
Errada
Incorreta. O texto não exerce função de norma, regulação, prescrição legal ou institucional. Falta o traço decisivo de gênero legal-normativo, e sobra elaboração de crônica com opinião do autor.
B
Certa
A alternativa B está certa porque a resolução depende de combinar dois traços do texto. Primeiro, o enunciado identifica o gênero como crônica, o que sustenta o núcleo "literária" no campo artístico-literário previsto pela BNCC. Segundo, o excerto é construído com posicionamento avaliativo, tese explícita e juízos do autor sobre leitura e escrita, o que sustenta o qualificativo "opinativa". Mesmo havendo trânsito entre campos na BNCC, aqui o enquadramento predominante é esse.
C
Errada
Incorreta. A finalidade central do texto não é informar fatos com objetividade jornalística. Predominam comentário subjetivo, ironia e argumentação pessoal, o que afasta a classificação jornalística-informativa.
D
Errada
Incorreta. O texto critica e avalia, mas não formula reivindicação concreta, proposta de ação, pauta pública nem encaminhamento interventivo. Por isso, não se enquadra como reivindicatória-propositiva.
E
Errada
Incorreta. Não há promoção de produto, serviço, marca, campanha ou tentativa de adesão típica da esfera publicitária. A finalidade promocional/propagandística simplesmente não existe no excerto.
Pegadinha da questão
A confusão real era tomar a circulação possível da crônica em jornal ou o tema social do texto como motivo suficiente para marcá-la como jornalística-informativa ou reivindicatória. O que resolvia era observar o enquadramento principal de crônica no campo artístico-literário e o predomínio opinativo do excerto.
Dica para questões semelhantes
  • Quando a questão trouxer um gênero já identificado no enunciado, use esse dado como ponto de partida para o campo predominante antes de olhar o suporte ou o tema.
  • Para classificar, separe natureza do gênero e funcionamento do texto: aqui, crônica sustenta o polo literário e a tese do autor sustenta o polo opinativo.
  • Não confunda crítica social com texto reivindicatório: para ser propositivo, o texto precisa formular demanda ou encaminhamento concreto.
  • Não confunda publicação em contexto jornalístico com finalidade informativa: se predominam subjetividade, ironia e juízo de valor, isso afasta o rótulo informativo.

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