“Vamos supor que toda palavra tenha uma vocação primeira”.O ...
O sequestro das palavras
Gregório Duvivier
___Vamos supor que toda palavra tenha uma vocação primeira. A palavra mudança, por exemplo, nasceu filha da transformação e da troca, e desde pequena servia para descrever o processo de mutação de uma coisa em outra coisa que não deixou de ser, na essência, a mesma coisa – quando a coisa é trocada por outra coisa, não é mudança, é substituição. A palavra justiça, por exemplo, brotou do casamento dos direitos com a igualdade (sim, foi um ménage): servia para tornar igual aquilo que tinha o direito de ser igual, mas não estava sendo tratado como tal.
___No entanto as palavras cresceram. E, assim como as pessoas, foram sendo contaminadas pelo mundo à sua volta. As palavras, coitadas, não sabem escolher amizade, não sabem dizer não. A liberdade, por exemplo, é dessas palavras que só dizem sim. Não nasceu de ninguém. Nasceu contra tudo: a prisão, a dependência, o poder, o dinheiro – mas não se espante se você vir a liberdade vendendo absorvente, desodorante, cartão de crédito, empréstimo de banco. A publicidade vive disso: dobrar as melhores palavras sem pagar direito de imagem. Assim, você verá as palavras ecologia e esporte juntarem-se numa só para criar o EcoSport – existe algo menos ecológico ou esportivo que um carro? Pobres palavras. Não têm advogados. Não precisam assinar termos de autorização de imagem. Estão aí, na praça, gratuitas.
___Nem todos aceitam que as palavras sejam sequestradas ao bel prazer do usuário. A política é o campo de guerra onde se disputa a posse das palavras. A "ética", filha do caráter com a moral, transita de um lado para o outro dos conflitos, assim como a Alsácia-Lorena, e não sem guerras sanguinárias. Com um revólver na cabeça, é obrigada a endossar os seres mais amorais e sem caráter. A palavra mudança, que sempre andou com as esquerdas, foi sequestrada pelos setores mais conservadores da sociedade – que fingem querer mudar, quando o que querem é trocar (para que não se mude mais). A Justiça, coitada, foi cooptada por quem atropela direitos e desconhece a igualdade, confundindo-a o tempo todo com seu primo, o justiçamento, filho do preconceito com o ódio.
___Já a palavra impeachment, recém-nascida, filha da democracia com a mudança, está escondida num porão: emprestaram suas roupas à palavra golpe, que desfila por aí usando seu nome e seus documentos. Enquanto isso, a palavra jornalismo, coitada, agoniza na UTI. As palavras não lutam sozinhas. É preciso lutar por elas.
Observação: Após a coluna "O Sequestro das Palavras" ter sido publicada no jornal impresso, na segunda-feira, 21/3 de 2016, o colunista modificou seu texto e pediu para atualizá-lo na versão on-line.
http://www1.folha.uol.com.br/colunas/gregorioduvivier/2016/03/1752170-o-sequestro-das-palavras.shtml
“Vamos supor que toda palavra tenha uma vocação primeira”.
O sentido construído para essa frase é o de que
Gabarito comentado
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Tema central: Interpretação de Texto e Semântica – o foco está em compreender o sentido original das palavras (sentido literal ou denotativo) e sua relação com o uso corrente.
Análise da alternativa correta (C):
A frase “Vamos supor que toda palavra tenha uma vocação primeira” sugere que cada palavra possui inicialmente um sentido original, ou seja, seu significado principal, estabelecido e reconhecido socialmente. Isso corresponde ao chamado sentido denotativo ou literal, como ensinam gramáticas normativas (Cunha & Cintra; Bechara). Assim, a alternativa C está correta ao afirmar que o sentido de uma palavra é, a priori, o do uso corrente, pois esse “sentido corrente” aponta para o significado aceito pela coletividade e definido nos dicionários. Trata-se, portanto, do sentido que serve de base para novas ampliações ou interpretações conotativas.
Por que as demais estão erradas?
A) “As palavras podem ser usadas de modo diferente por pessoas diferentes.” — Apesar de verdadeira em outros contextos, aqui a alternativa não trata da ideia de vocação primeira, mas sim da polissêmica ou flexibilidade do uso das palavras por diferentes pessoas. O enunciado está interessado na noção de “origem” do significado.
B) “As palavras têm sentidos que mudam ao longo dos usos.” — Fala sobre evolução de sentido, mas não responde à ideia de ‘primeiro sentido’ proposto. O destaque do enunciado não é a mudança, mas sim o ponto de partida (vocação primeira).
D) “O sentido literal das palavras está em desuso.” — Esta é uma afirmação falsa; o sentido literal continua sendo empregado, especialmente em textos jurídicos, científicos e comunicações formais.
Dica para provas:
Lembre-se de sempre identificar palavras ou expressões que indiquem origem, essência ou primeiro sentido e evite confundir o sentido principal com os usos alternativos ou contextuais.
Autores como Bechara e Rocha Lima evidenciam, nas suas gramáticas, que o sentido literal é sempre o ponto de partida para a compreensão e a derivação de novos significados.
Conclusão: A alternativa C é a correta porque traduz com exatidão a ideia central do trecho analisado. Treine esse tipo de raciocínio para interpretar questões que abordem sentidos originais ou mudanças semânticas das palavras.
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