Acerca dos aspectos linguísticos do texto, marque com V ou ...
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Ano: 2023
Banca:
ISBA
Órgão:
Prefeitura de São Brás - AL
Provas:
ISBA - 2023 - Prefeitura de São Brás - AL - Contador
|
ISBA - 2023 - Prefeitura de São Brás - AL - Analista Técnico de Licitação |
ISBA - 2023 - Prefeitura de São Brás - AL - Agente de Controle Interno |
ISBA - 2023 - Prefeitura de São Brás - AL - Engenheiro Civil |
ISBA - 2023 - Prefeitura de São Brás - AL - Arquiteto |
ISBA - 2023 - Prefeitura de São Brás - AL - Nutricionista |
ISBA - 2023 - Prefeitura de São Brás - AL - Fisioterapeuta |
ISBA - 2023 - Prefeitura de São Brás - AL - Psicólogo |
ISBA - 2023 - Prefeitura de São Brás - AL - Odontólogo |
ISBA - 2023 - Prefeitura de São Brás - AL - Assistente Social |
ISBA - 2023 - Prefeitura de São Brás - AL - Médico |
ISBA - 2023 - Prefeitura de São Brás - AL - Farmacêutico |
ISBA - 2023 - Prefeitura de São Brás - AL - Médico Veterinário |
ISBA - 2023 - Prefeitura de São Brás - AL - Professor de Artes |
ISBA - 2023 - Prefeitura de São Brás - AL - Professor de Educação Física |
ISBA - 2023 - Prefeitura de São Brás - AL - Professor de Matemática |
ISBA - 2023 - Prefeitura de São Brás - AL - Professor de Português |
ISBA - 2023 - Prefeitura de São Brás - AL - Professor de Pedagogia/Especialização em Psicopedagogia |
Q3628134
Português
Texto associado
Lembro-me do livro de contabilidade do meu
pai. Ao lado esquerdo ficava a página do “Deve”, onde
ele anotava os pagamentos feitos, dinheiro que não era
mais seu. Ao lado direito estava a página do “Haver”,
onde se registravam as “entradas”, sua pequena
riqueza. Na alma também se encontra um livro de
contabilidade. Tanto assim que o Vinícius escreveu um
poema com o título “O Haver”. Ele já estava velho e
fazia um balanço final do que restara. “Resta”: é assim
que cada verso se inicia. “Resta essa intimidade perfeita
com o silêncio… Resta esse sentimento de infância
subitamente desentranhado… Resta essa vontade de
chorar diante da beleza... Resta essa comunhão com os
sons…. Resta essa súbita alegria ao ouvir na madrugada
passos que se perdem sem história…”
Quem diria que o som de passos na madrugada
poderia ser parte da herança de felicidade um poeta! Os
poetas são seres muito estranhos. Ficam felizes com
nada. A poesia se faz com nadas. Bem disse o Manoel
de Barros: “Todas as coisas cujos valores podem ser
disputados no cuspe à distância servem para poesia. As
coisas que não servem para nada têm grande
importância” … Fernando Pessoa sofria da mesma
peculiaridade auditiva do Vinícius. Lembro-me de um
verso seu que não consegui encontrar, que é mais ou
menos assim: “Por esse barulho do vento nos meus
ouvidos valeu a pena eu ter nascido”. Se o verso não foi
dele fica sendo meu porque eu já tive a mesma
experiência várias vezes. Caminhando sozinho no
silêncio das árvores o vento me sussurra segredos de
felicidades: “Assim a brisa nos ramos diz sem o saber
uma imprecisa coisa feliz…” (Fernando Pessoa).
Ouvir os sons do mundo é uma felicidade que
somente os artistas recebem por nascimento. Os outros
têm de aprender. Para isso há de haver os mestres da
escuta. Como John Cage que compôs uma curiosa peça
para piano. É assim: o pianista faz precisamente o que
fazem todos os pianistas. Entra no palco, encaminha-se
para o piano, assenta-se, regula a distância do banco,
concentra-se – e não faz o que todo pianista faz. Ele
não toca! Não, não! Não está certo! Eu errei! O pianista
toca sim. Ao piano ele executa o silêncio. O piano toca
uma grande pausa! Cage faz o piano tocar silêncio para
que se ouçam os delicados sons do mundo que não
seriam ouvidos se o piano tocasse: as batidas do
coração, a respiração, o ranger de uma cadeira, uma
tosse, um sussurro… “Há quem não ouça até que lhe
cortem as orelhas”, disse Lichtenberg. O não fazer é a
forma suprema de fazer, afirma a filosofia Tao. Fazer nada é estar à espera. Por isso se aconselha meditação,
que nada tem a ver com a meditação ocidental. A
meditação ocidental é falar baixo os próprios
pensamentos de uma forma metódica. O piano toca.
Mas a meditação oriental é silenciar os próprios
pensamentos para que os sons do mundo possam ser
ouvidos. O piano não toca. Pra que serve isso? Pra
nada. Não é ferramenta. Não tem utilidade. É coisa da
caixa de brinquedos. Só dá felicidade.
O mundo está cheio de música. Há os sons que
não existem mais, que estão perdidos na memória. Meu
amigo Severino Antônio, poeta de voz mansa, sugeriu
aos seus alunos que um passo primeiro para a poesia
seria chamar do esquecimento os sons que um dia
ouviram e que não se ouvem mais. A música do realejo,
o canto do carro de bois, o apito das fábricas, das
locomotivas, o “din-din” dos bondes, o canto dos galos,
o repicar fúnebre dos sinos, o crepitar do fogo nos
fogões de lenha, a gaita do sorveteiro, a buzina das
charretes… Parece que a poesia fica guardada nos sons
que não mais se ouvem. Há também os sons da cidade,
os gritos dos vendedores, o vozerio nas feiras, a
algazarra das crianças ao sair das escolas, os bateestacas das construtoras, o canto dos pardais, os rádios
ligados dos trabalhadores, o latido ardido dos poodles…
E há os sons da natureza: o assobio do vento, o barulho
da chuva, os mantras das cachoeiras, o canto dos
pássaros, dos sapos, dos grilos (tantos hai-kais sobre os
grilos), dos galos, o barulho das ondas…
“Todo homem – até mesmo o rico – é poeta
entre os quinze e os vinte anos. A nova educação
deverá fazer do homem um poeta em todas as idades,
sem que lhe seja necessário escrever versos. Viver a
poesia é muito mais necessário e importante do que
escrevê-la” – assim disse Murilo Mendes. Poesia é
música. A primeira poesia que se ouve é uma canção de
ninar. Depois, é a música do mundo…
“Agora os ouvidos dos meus ouvidos
acordaram”, escreveu Cummings. Acordar os ouvidos!
Não me consta que essa tarefa tenha sido jamais
mencionada em tratados sobre a educação. É
compreensível. Para isso os professores teriam que ser
artistas, pianos que não tocam nada e que só fazem
ouvir. Quando isso acontecer, quem sabe, os nossos
jovens aprenderão a identificar o canto dos pássaros e
ficarão subitamente alegres “ao ouvir na madrugada
passos que se perdem sem memória…”
Acerca dos aspectos linguísticos do texto,
marque com V ou com F, conforme sejam,
respectivamente, verdadeiras ou falsas as
afirmativas abaixo.
(___) A partícula “se” em “onde se registravam as entradas” é uma conjunção integrante.
(___) A partícula “se” em: “Se o verso não foi dele fica sendo meu porque eu já tive a mesma experiência várias vezes” e em “é assim que cada verso se inicia” exercem a mesma função morfossintática.
(___) Na oração “Quem diria que o som de passos na madrugada poderia ser parte da herança de felicidade um poeta!” o termo em destaque exerce a função de pronome relativo.
(___) Em “Todas as coisas cujos valores podem ser disputados no cuspe à distância servem para poesia” o sinal indicativo de crase justifica-se pela regência do verbo “poder”, que exige preposição, e pela presença de artigo definido feminino.
(___) Em “Os poetas são seres muito estranhos” encontramos uma oração coordenada assindética. O tipo de sujeito da oração é denominado de sujeito simples. Desse modo, os vocábulos “poetas” e “são” são termos essenciais da oração.
(___) A partícula “que” em “dinheiro que não era mais seu” e em “A primeira poesia que se ouve é uma canção de ninar” possuem a mesma função.
(___) A substituição do vocábulo “têm” em “Os outros têm de aprender” por “tem” prejudicaria a correção gramatical do texto.
(___) Em “Parece que a poesia fica guardada nos sons que não mais se ouvem” a partícula “que” é pronome relativo e exerce, na oração, função anafórica.
A alternativa que contém a sequência correta, de cima para baixo, é:
(___) A partícula “se” em “onde se registravam as entradas” é uma conjunção integrante.
(___) A partícula “se” em: “Se o verso não foi dele fica sendo meu porque eu já tive a mesma experiência várias vezes” e em “é assim que cada verso se inicia” exercem a mesma função morfossintática.
(___) Na oração “Quem diria que o som de passos na madrugada poderia ser parte da herança de felicidade um poeta!” o termo em destaque exerce a função de pronome relativo.
(___) Em “Todas as coisas cujos valores podem ser disputados no cuspe à distância servem para poesia” o sinal indicativo de crase justifica-se pela regência do verbo “poder”, que exige preposição, e pela presença de artigo definido feminino.
(___) Em “Os poetas são seres muito estranhos” encontramos uma oração coordenada assindética. O tipo de sujeito da oração é denominado de sujeito simples. Desse modo, os vocábulos “poetas” e “são” são termos essenciais da oração.
(___) A partícula “que” em “dinheiro que não era mais seu” e em “A primeira poesia que se ouve é uma canção de ninar” possuem a mesma função.
(___) A substituição do vocábulo “têm” em “Os outros têm de aprender” por “tem” prejudicaria a correção gramatical do texto.
(___) Em “Parece que a poesia fica guardada nos sons que não mais se ouvem” a partícula “que” é pronome relativo e exerce, na oração, função anafórica.
A alternativa que contém a sequência correta, de cima para baixo, é: