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Q4297662 Português
Furto de Flor


        Furtei uma flor daquele jardim. O porteiro do edifício cochilava e eu furtei a flor. Trouxe-a para casa e coloquei-a no copo com água. Logo senti que ela não estava feliz. O copo destina-se a beber, e flor não é para ser bebida.
      Passei-a para o vaso, e notei que ela me agradecia, revelando melhor sua delicada composição. Quantas novidades há numa flor, se a contemplarmos bem. Sendo autor do furto, eu assumira a obrigação de conservá-la. Renovei a água do vaso, mas a flor empalidecia. Temi por sua vida. Não adiantava restituí-la ao jardim. Nem apelar para o médico das flores. Eu a furtara, eu a via morrer.
      Já murcha, e com a cor particular da morte, peguei-a docemente e fui depositá-la no jardim onde desabrochara. O porteiro estava atento e repreendeu-me: – Que ideia a sua, vir jogar lixo de sua casa neste jardim!


(ANDRADE, Carlos Drummond de. Furto de flor. In: ______. Contos plausíveis. Rio de Janeiro: Record, 2006) 
A coerência global da crônica decorre da articulação entre o título, o acontecimento narrado, bem como a interpretação do narrador a respeito desse episódio, e o desfecho. Essa integração favorece a conclusão de que as partes do texto
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