O que o eu lírico deseja ao falar sobre "solidão", de acord...

Próximas questões
Com base no mesmo assunto
Q3406768 Português
Texto para a questão

Um sopro de vida

Meu Deus, me dê a coragem de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites, todos vazios de Tua presença. Me dê a coragem de considerar esse vazio como uma plenitude. Faça com que eu seja a Tua amante humilde, entrelaçada a Ti em êxtase. Faça com que eu possa falar com este vazio tremendo e receber como resposta o amor materno que nutre e embala. Faça com que eu tenha a coragem de Te amar, sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo. Faça com que a solidão não me destrua. Faça com que minha solidão me sirva de companhia. Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar. Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo. Receba em teus braços meu pecado de pensar. (…)

Clarice Lispector
O que o eu lírico deseja ao falar sobre "solidão", de acordo com o texto?
Alternativas

Gabarito comentado

Confira o gabarito comentado por um dos nossos professores

Tema e habilidade cobrada: interpretação de texto (sentido contextual e semântica). A questão pede para inferir o desejo do eu lírico ao empregar a palavra “solidão”, considerando o que o próprio texto diz e sugere.

Estratégia de resolução:

- Localize as palavras-chave e paráfraseie o trecho relevante: no texto, aparecem pedidos como “Faça com que minha solidão me sirva de companhia”, “Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar” e “ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo”.

- Cuidado com a pegadinha da “definição de dicionário”: “solidão” costuma remeter à ausência de companhia, mas o texto ressignifica o termo, dando-lhe valor conotativo e aproximando-o de autonomia interior.

- Observe figuras de linguagem: há paradoxo/antítese (“nada” versus “plena de tudo”), o que reforça a ideia de transformar a solidão em força e suporte.

Resposta correta: C — Uma condição de autossuficiência.

Por quê? O eu lírico deseja que a “solidão” não o destrua e, mais que isso, que lhe sirva de companhia. Isso significa aprender a bastar-se a si mesmo, com coragem de se encarar (“me enfrentar”) e de se sentir plena mesmo no “nada”. Em termos semânticos, “solidão”, aqui, é reinterpretada como capacidade de sustento interior, isto é, autossuficiência.

Por que as demais estão incorretas?

A) A ausência de companhia. É a definição literal de “solidão”, mas o texto a supera: o eu lírico pede que a solidão sirva de companhia. Logo, não deseja a mera falta de companhia; deseja transformar a solidão em amparo.

B) Um estado de introspecção. A introspecção pode até estar implicada no “me enfrentar”, mas não é o alvo principal do pedido. O foco explícito é tornar a solidão um suporte, o que ultrapassa a simples reflexão interna e aponta para autonomia.

D) A presença de Deus. Embora a fala seja dirigida a Deus (tom de prece), a pergunta restringe-se ao que o eu lírico deseja ao falar de “solidão”. Nesse recorte, o pedido é que a solidão seja companhia e não destrua — não se trata da presença divina como resposta específica à “solidão”.

Observação linguística útil para provas:autossuficiência” escreve-se com ss após o prefixo “auto-”, conforme o Acordo Ortográfico e o VOLP (Academia Brasileira de Letras). Exemplos corretos: “autossuficiente”, “autossustentável”.

Resumo para memorizar: quando o texto ressignifica um termo (conotação), prefira a alternativa que capture o sentido construído no contexto, e não a definição dicionarizada. Aqui, “solidão” = autossuficiência, pois o eu lírico quer que ela seja apoio e companhia.

Gabarito: C

Gostou do comentário? Deixe sua avaliação aqui embaixo!

Clique para visualizar este gabarito

Visualize o gabarito desta questão clicando no botão abaixo