TEXTO I “Pandemonium vem a ser o local de trabalho deste úl...
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Ano: 2022
Banca:
FCM
Órgão:
IF-AM
Provas:
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Q4078790
Português
Texto associado
O pandemônio que vem por aí
Sérgio Rodrigues*
Pode ser um daqueles truques que a memória nos
prega, mas me lembro que, na bolha da minha infância mineira, a palavra "pandemônio" tinha ampla
circulação.
Não é que o mundo que eu habitava fosse especialmente confuso ou cacofônico. Comparado ao de
hoje, tinha uma simplicidade de três acordes da “Jovem Guarda” ‒ que, aliás, lhe providenciava a maior
parte da trilha sonora.
O que acontecia era que, nas asas eternas da hipérbole, do exagero, do drama, o pandemônio era invocado para qualificar desordens mínimas. Por exemplo, a de um quarto de criança com dois gibis do Pato
Donald, três carrinhos Matchbox e um pé de Kichute
largados no chão.
Só muitos anos depois aprendi que o pandemônio,
termo tão corriqueiro, tinha uma origem não apenas
literária, mas enraizada na alta cultura. Era um termo
erudito, eruditíssimo, que havia caído na vida. Como?
Não é tão simples desvendar esse como porque rola
no mundo dos vocábulos uma clara tendência ao
pandemônio. O que podemos fazer no caso é reconstituir com relativa segurança a fonte primária da palavra – e isso não é pouco.
Os etimologistas, que não gostam muito de concordar uns com os outros, concordam que se trata de
um neologismo culto, um termo inventado pelo poeta inglês John Milton (1608-1674) em sua obra-prima
"Paraíso Perdido". Esse longo poema épico de inspiração religiosa, lançado em 1667, tem entre seus
personagens Adão, Eva, Deus e Satã. Pandemonium
vem a ser o local de trabalho deste último: o palácio, o quartel-general onde labutam o “Rabudo” e seus
demônios subordinados.
O nome traduzia justamente esse coletivo. Milton o
criou juntando dois elementos gregos: "pan" (todos)
e "daimónion" (demônios), este após tabelinha com
o latim "daemonium". Ou seja, o Pandemonium era o
local onde se reunia a diabada toda.
Sobre a bem-sucedida carreira do pandemônio na
linguagem comum há pistas esparsas. O dicionário
etimológico de Douglas Harper registra, para o inglês,
o surgimento do sentido expandido ‒ e já atenuado,
pois não diabólico ‒ de "lugar de balbúrdia e desordem" cerca de um século após a publicação de "Paraíso Perdido".
Daí até o pandemônio chegar ao meu quarto infantil
bagunçado foi preciso fazer uma escala em 1877, ano
do primeiro registro do vocábulo em português, no
dicionário Morais.
Hoje o Houaiss tem como uma das acepções da palavra uma fórmula domesticada e próxima do sentido
em que a conheci: "mistura caótica de pessoas ou
coisas; confusão".
Desconfio que o pandemônio já não ocupe posição
tão privilegiada na linguagem familiar brasileira. Desde aquele tempo a sensação de desordem cresceu, e
com ela o número de palavras encarregadas de traduzi-la. Da chula zona ao científico caos, do cômico
furdunço ao popular angu de caroço, não faltam rivais para dividir as preferências do público e desafiar
a autoridade vocabular do pandemônio.
Um dos sentidos de pandemônio no Houaiss ‒ "associação de pessoas para praticar o mal ou promover
desordens e balbúrdias" ‒ sugere que pode estar na
hora de tirá-lo da gaveta.
* Escritor e jornalista.
Folha de São Paulo, 11 de maio de 2022. Adaptado.
TEXTO I
“Pandemonium vem a ser o local de trabalho deste último [Satã]: o palácio, o quartel-general onde labutam o “Rabudo” e seus demônios subordinados. [...] Sobre a bem-sucedida carreira do pandemônio na linguagem comum há pistas esparsas. O dicionário etimológico de Douglas Harper registra, para o inglês, o surgimento do sentido expandido ‒ e já atenuado, pois não diabólico ‒ de "lugar de balbúrdia e desordem...”
TEXTO II
“Já dizia Camões, 'do velho caos a tão confusa face'. Mas, afinal, o que é o caos? [...] Desordem, babel, balbúrdia, barafunda, confusão, atrapalhada, charivari, embaralhação, escangalho, forrobodó, fuzarca, pandemônio, algaravia, atarantação, bagunça, cipoal etc. Esses sinônimos são uma expressão do caos, o qual é assim resumido por Plinio Corrêa de Oliveira: 'Um catastrófico auge de todas as desordens. [...] O caos, portanto, é o contrário da ordem.'”
Disponível em: <https://www.abim.inf.br/caos-o-aids-psicossocial-de-nossos-dias/>. .
Considerando-se os dois textos, analise as asserções a seguir e a relação proposta entre elas.
I – Ambos, cada um à sua maneira, buscam explicar os sentidos para as palavras-chave que os norteiam, com destaque para certos aspectos que os aproximam. Ambos também se servem do argumento de autoridade para fundamentar seu ponto de vista. Todavia, o TEXTO II se distancia do TEXTO I
PORQUE,
II – além de conter a mescla de elementos verbais e imagéticos (ainda que esses últimos pudessem ser descartados, pois não comprometeriam a intenção original da mensagem), privilegia o humor estabelecido a partir da contraposição entre as representações metafóricas de “caos” e de “pandemônio”.
A respeito das asserções, é correto afirmar que
“Pandemonium vem a ser o local de trabalho deste último [Satã]: o palácio, o quartel-general onde labutam o “Rabudo” e seus demônios subordinados. [...] Sobre a bem-sucedida carreira do pandemônio na linguagem comum há pistas esparsas. O dicionário etimológico de Douglas Harper registra, para o inglês, o surgimento do sentido expandido ‒ e já atenuado, pois não diabólico ‒ de "lugar de balbúrdia e desordem...”
TEXTO II
“Já dizia Camões, 'do velho caos a tão confusa face'. Mas, afinal, o que é o caos? [...] Desordem, babel, balbúrdia, barafunda, confusão, atrapalhada, charivari, embaralhação, escangalho, forrobodó, fuzarca, pandemônio, algaravia, atarantação, bagunça, cipoal etc. Esses sinônimos são uma expressão do caos, o qual é assim resumido por Plinio Corrêa de Oliveira: 'Um catastrófico auge de todas as desordens. [...] O caos, portanto, é o contrário da ordem.'”
Disponível em: <https://www.abim.inf.br/caos-o-aids-psicossocial-de-nossos-dias/>. .
Considerando-se os dois textos, analise as asserções a seguir e a relação proposta entre elas.
I – Ambos, cada um à sua maneira, buscam explicar os sentidos para as palavras-chave que os norteiam, com destaque para certos aspectos que os aproximam. Ambos também se servem do argumento de autoridade para fundamentar seu ponto de vista. Todavia, o TEXTO II se distancia do TEXTO I
PORQUE,
II – além de conter a mescla de elementos verbais e imagéticos (ainda que esses últimos pudessem ser descartados, pois não comprometeriam a intenção original da mensagem), privilegia o humor estabelecido a partir da contraposição entre as representações metafóricas de “caos” e de “pandemônio”.
A respeito das asserções, é correto afirmar que