Segundo Cegalla (2013, p. 312), “uma palavra pode ter mais d...
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Ano: 2022
Banca:
FCM
Órgão:
IF-AM
Provas:
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Q4078788
Português
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O pandemônio que vem por aí
Sérgio Rodrigues*
Pode ser um daqueles truques que a memória nos
prega, mas me lembro que, na bolha da minha infância mineira, a palavra "pandemônio" tinha ampla
circulação.
Não é que o mundo que eu habitava fosse especialmente confuso ou cacofônico. Comparado ao de
hoje, tinha uma simplicidade de três acordes da “Jovem Guarda” ‒ que, aliás, lhe providenciava a maior
parte da trilha sonora.
O que acontecia era que, nas asas eternas da hipérbole, do exagero, do drama, o pandemônio era invocado para qualificar desordens mínimas. Por exemplo, a de um quarto de criança com dois gibis do Pato
Donald, três carrinhos Matchbox e um pé de Kichute
largados no chão.
Só muitos anos depois aprendi que o pandemônio,
termo tão corriqueiro, tinha uma origem não apenas
literária, mas enraizada na alta cultura. Era um termo
erudito, eruditíssimo, que havia caído na vida. Como?
Não é tão simples desvendar esse como porque rola
no mundo dos vocábulos uma clara tendência ao
pandemônio. O que podemos fazer no caso é reconstituir com relativa segurança a fonte primária da palavra – e isso não é pouco.
Os etimologistas, que não gostam muito de concordar uns com os outros, concordam que se trata de
um neologismo culto, um termo inventado pelo poeta inglês John Milton (1608-1674) em sua obra-prima
"Paraíso Perdido". Esse longo poema épico de inspiração religiosa, lançado em 1667, tem entre seus
personagens Adão, Eva, Deus e Satã. Pandemonium
vem a ser o local de trabalho deste último: o palácio, o quartel-general onde labutam o “Rabudo” e seus
demônios subordinados.
O nome traduzia justamente esse coletivo. Milton o
criou juntando dois elementos gregos: "pan" (todos)
e "daimónion" (demônios), este após tabelinha com
o latim "daemonium". Ou seja, o Pandemonium era o
local onde se reunia a diabada toda.
Sobre a bem-sucedida carreira do pandemônio na
linguagem comum há pistas esparsas. O dicionário
etimológico de Douglas Harper registra, para o inglês,
o surgimento do sentido expandido ‒ e já atenuado,
pois não diabólico ‒ de "lugar de balbúrdia e desordem" cerca de um século após a publicação de "Paraíso Perdido".
Daí até o pandemônio chegar ao meu quarto infantil
bagunçado foi preciso fazer uma escala em 1877, ano
do primeiro registro do vocábulo em português, no
dicionário Morais.
Hoje o Houaiss tem como uma das acepções da palavra uma fórmula domesticada e próxima do sentido
em que a conheci: "mistura caótica de pessoas ou
coisas; confusão".
Desconfio que o pandemônio já não ocupe posição
tão privilegiada na linguagem familiar brasileira. Desde aquele tempo a sensação de desordem cresceu, e
com ela o número de palavras encarregadas de traduzi-la. Da chula zona ao científico caos, do cômico
furdunço ao popular angu de caroço, não faltam rivais para dividir as preferências do público e desafiar
a autoridade vocabular do pandemônio.
Um dos sentidos de pandemônio no Houaiss ‒ "associação de pessoas para praticar o mal ou promover
desordens e balbúrdias" ‒ sugere que pode estar na
hora de tirá-lo da gaveta.
* Escritor e jornalista.
Folha de São Paulo, 11 de maio de 2022. Adaptado.
Segundo Cegalla (2013, p. 312), “uma palavra pode ter mais de uma significação”.
No trecho “tinha uma simplicidade de três acordes da Jovem Guarda ‒ que, aliás, lhe providenciava a maior parte da trilha sonora.”, a palavra “trilha” significa “composição, parte musical”. Todavia, em outros contextos, pode ser empregada no sentido de “pista, rastro, vereda, vestígio, exemplo, debulho”, entre outros.
A esse fenômeno linguístico dá-se o nome de
No trecho “tinha uma simplicidade de três acordes da Jovem Guarda ‒ que, aliás, lhe providenciava a maior parte da trilha sonora.”, a palavra “trilha” significa “composição, parte musical”. Todavia, em outros contextos, pode ser empregada no sentido de “pista, rastro, vereda, vestígio, exemplo, debulho”, entre outros.
A esse fenômeno linguístico dá-se o nome de