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Ano: 2019 Banca: Quadrix Órgão: FHGV Prova: Quadrix - 2019 - FHGV - Médico Hematologista |
Q1069594 Medicina
Uma mulher de 24 anos de idade, previamente sem comorbidades, foi internada na emergência com hematomas em MMII espontâneos, epistaxe e sangramento gengival. Na apresentação, sua contagem de leucócitos era de 3,4 × 109/L, com 330 neutrófilos totais, a hemoglobina era de 10,7 g/dL, a contagem de plaquetas era de 27 × 109/L e o coagulograma indicou coagulação intravascular disseminada com hiperfibrinólise reativa. Um diagnóstico de LMA M3 foi confirmado pelo mielograma e pela análise citogenética e molecular. A indução da remissão com ATRA + idarrubicina foi iniciada na enfermaria oncológica. Cinco dias após o início do ATRA, sua contagem de leucócitos aumentou para 8,7 × 109/L e ela desenvolveu edema periférico, com 5 kg de ganho de peso, febre (38,5 ºC), dispneia em repouso e saturação de oxigênio de 82%. A radiografia de tórax revelou infiltrados pulmonares bilaterais e uma sombra cardíaca aumentada, com derrame pleural laminar bilateral. A ecocardiografia mostrou derrame pericárdico moderado e uma fração de ejeção de 70%.
Com base nesse caso hipotético, assinale a alternativa correta quanto ao manejo clínico mais adequado.
Alternativas

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Tema central: O caso aborda a Leucemia Promielocítica Aguda (LPA) e o manejo da Síndrome de Diferenciação (SD) induzida pelo tratamento com ácido all-trans-retinoico (ATRA).

Explicação didática e justificativa da alternativa B: O quadro clínico agudo (dispneia, febre, ganho de peso importante, infiltrado pulmonar, derrame pleural e pericárdico) que se instala rapidamente durante o uso de ATRA é altamente sugestivo da SD, também denominada Síndrome do Ácido Retinoico. Segundo a literatura hematológica, especialmente o Harrison’s Principles of Internal Medicine e evidências nacionais (Revista Brasileira de Cancerologia, 2020), o manejo imediato inclui:

  • Suspensão do ATRA: Evita a progressão da resposta inflamatória sistêmica.
  • Dexametasona: Corticosteroide de escolha, 10 mg IV 2x/dia, reduzindo mortalidade (“O uso imediato de dexametasona é essencial.” - RBC, 2020).
  • Restrição hídrica e antibióticos de amplo espectro: Controla edema e previne/t rata infecção secundária em imunossuprimidos.

Essas condutas estão alinhadas às diretrizes clínicas internacionais e nacionais, que orientam agir prontamente para evitar evolução para insuficiência respiratória ou choque multiorgânico.

Análise das alternativas incorretas:

  • A: Dobutamina não é indicada sem sinais de choque ou disfunção cardíaca, e omite antibiótico necessário.
  • C: Não se deve aumentar quimioterapia ou manter ATRA durante SD, pois agrava o quadro.
  • D: O uso simultâneo de dexametasona, antibióticos e diurético está correto, mas não menciona suspensão do ATRA, passo essencial, além do uso cauteloso de diuréticos nesta situação devido ao risco de comprometimento renal e hemodinâmico.
  • E: Suspender somente o ATRA e o diurético não resume a conduta correta e omite o uso dos esteroides e antibióticos.

Dica de interpretação: Fique atento a quadros de rápida deterioração clínica em pacientes com LPA durante ATRA! A associação de sintomas pulmonares, febre e ganho de peso pode indicar SD, cuja conduta prioritária sempre inclui a suspensão imediata do ATRA e início de corticosteroide.

Em resumo: A alternativa B traduz o melhor manejo, conforme recomenda a literatura médica especializada (UpToDate, Harrison’s, Revista Brasileira de Cancerologia).

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Comentários

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O manejo clínico mais adequado para essa paciente é suspender imediatamente o ATRA, administrar dexametasona e iniciar restrição hídrica e antibiótico de amplo espectro, conforme a alternativa B. Isso porque os sintomas apresentados pela paciente sugerem uma possível síndrome de liberação de citocinas induzida pelo ATRA, que pode resultar em edema pulmonar, derrame pericárdico e alterações cardíacas. Além disso, o risco de infecção também é elevado devido à imunossupressão causada pela LMA e pela terapia citotóxica. Portanto, a suspensão imediata do ATRA e o início do tratamento com dexametasona e antibióticos são essenciais para controlar os sintomas e prevenir complicações graves.

A alternativa correta é: B - Deve‐se suspender imediatamente o ATRA, administrar dexametasona e iniciar restrição hídrica e antibiótico de amplo espectro.

JUSTIFICATIVA

O quadro apresentado pela paciente é característico da síndrome de diferenciação da leucemia promielocítica aguda (LPA), uma complicação grave associada ao uso do ácido all-trans retinoico (ATRA) durante o tratamento. A síndrome de diferenciação é causada pela liberação de citocinas inflamatórias e pela adesão de leucócitos ao endotélio, levando a sintomas como febre, ganho de peso, dispneia, derrames pleurais e pericárdicos e infiltrados pulmonares.

O manejo imediato inclui:

  1. Suspensão do ATRA: Essa medida é essencial para evitar a progressão da síndrome.
  2. Administração de dexametasona: Corticoides são o tratamento de escolha, pois atuam na redução da resposta inflamatória e edema tecidual.
  3. Restrição hídrica: Auxilia no controle do edema periférico e do derrame pleural/pericárdico.
  4. Antibióticos de amplo espectro: Indispensáveis, pois a febre pode ser secundária a infecção associada à imunossupressão, especialmente devido à neutropenia grave.

ANÁLISE DAS ALTERNATIVAS INCORRETAS

  • A: Dobutamina não é indicada, pois não há sinais de insuficiência cardíaca ou choque cardiogênico. A restrição hídrica e o uso de dexametasona são corretos, mas a continuação do ATRA pode agravar o quadro.
  • C: Continuar o ATRA e adicionar idarrubicina é contraindicado na síndrome de diferenciação. A prioridade é controlar os sintomas antes de retomar o tratamento com ATRA.
  • D: Embora antibióticos e dexametasona sejam indicados, os diuréticos de alça não são de primeira linha para o manejo do derrame pleural e do edema causado pela síndrome de diferenciação. A suspensão do ATRA é crucial.
  • E: Suspender o ATRA está correto, mas a suspensão do diurético de alça não é mencionada no manejo habitual.

EM RESUMO

A síndrome de diferenciação exige um manejo rápido com suspensão do ATRA, administração de dexametasona e controle dos sintomas associados, incluindo restrição hídrica e terapia antimicrobiana para febre.

PONTOS CHAVE

  • A síndrome de diferenciação ocorre em 15-25% dos pacientes tratados com ATRA e/ou arsênico trióxido para leucemia promielocítica aguda.
  • Manifestações incluem febre, edema, dispneia, derrame pleural e infiltrados pulmonares.
  • Tratamento envolve suspensão do ATRA, dexametasona e manejo de suporte.

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