Em “(...) uma truta que estacionara com a boca encostada no ...
Leia o texto para responder às questões de 1 a 10.
O olhar da truta
O homem pediu truta e o garçom perguntou se ele não gostaria de escolher uma pessoalmente.
— Como, escolher?
— No nosso viveiro. O senhor pode escolher a truta que quiser.
Ele não tinha visto o viveiro ao entrar no restaurante. Foi atrás do garçom. As trutas davam voltas e voltas dentro do aquário, como num cortejo. Algumas paravam por um instante e ficavam olhando através do vidro, depois retomavam o cortejo. E o homem se viu encarando, olho no olho, uma truta que estacionara com a boca encostada no vidro à sua frente.
— Essa está bonita... — disse o garçom.
— Eu não sabia que se podia escolher. Pensei que elas já estivessem mortas.
— Não, nossas trutas são mortas na hora. Da água direto para a panela.
A truta continuava parada contra o vidro, olhando para o homem.
— Vai essa, doutor? Ela parece que está pedindo...
Mas o olhar da truta não era de quem queria ir direto para uma panela. Ela parecia examinar o homem. Parecia estar calculando a possibilidade de um diálogo. Estranho, pensou o homem. Nunca tive que tomar uma decisão assim. Decidir um destino, decidir entre a vida e a morte. Não era como no supermercado, em que os bichos já estavam mortos e a responsabilidade não era sua — pelo menos não diretamente. Você podia comê-los sem remorso. (...) Claro, era com sua aprovação tácita que bovinos, ovinos, suínos, caprinos, galinhas e peixes eram assassinados para lhe dar de comer. Mas você não estava presente no ato, não escolhia a vítima, não dava a ordem. (...) De certa maneira, pensou o homem, vivi sempre assim, protegido das entranhas do mundo. Sem precisar me comprometer. Sem encarar as vítimas. Mas agora era preciso escolher.
— Vai essa, doutor? — insistiu o garçom.
— Não sei. Eu...
— Acho que foi ela que escolheu o senhor. Olha aí, ficou paradinha. Só faltando dizer “Me come”.
O homem desejou que a truta deixasse de encará-lo e voltasse ao carrossel junto com as outras. Ou que pelo menos desviasse o olhar. Mas a truta continuava a fitá-lo.
— Vamos — estava dizendo a truta. — Pelo menos uma vez na vida, seja decidido. Me escolha e me condene à morte, ou me deixe viver. (...) Não posso decidir a minha vida, ou a de ninguém. Mas você pode. (...) Até agora foi um protegido, um desobrigado, um isento da vida. Mas chegou a hora de se comprometer. (...)
— Vai essa mesmo, doutor? — quis saber o garçom, já com a rede na mão para pegar a truta.
— Não — disse o homem. — Mudei de ideia. Vou pedir outra coisa.
E de volta na mesa, depois de reexaminar o cardápio, perguntou:
— Esses camarões estão vivos?
— Não, doutor. Os camarões estão mortos.
— Pode trazer.
VERISSIMO, L. F. Verissimo antológico: meio século de crônicas, ou coisa parecida. São Paulo: Objetiva, 2020.
Em “(...) uma truta que estacionara com a boca encostada no vidro à sua frente.”, a desinência do verbo “estacionara”, empregado no contexto apresentado, indica o tempo e o modo:
- Gabarito Comentado (1)
- Aulas (4)
- Comentários (3)
- Estatísticas
- Cadernos
- Criar anotações
- Notificar Erro
Gabarito comentado
Confira o gabarito comentado por um dos nossos professores
Tema central: Morfologia – Verbos (tempos e modos verbais).
O núcleo da questão está em identificar o tempo e o modo verbal do verbo “estacionara” no contexto do texto. Para resolver esse tipo de questão, é essencial reconhecer as desinências verbais e entender o emprego dos tempos compostos e simples na norma-padrão.
Justificativa da alternativa correta (C):
A desinência “-ara” presente em “estacionara” indica o pretérito mais-que-perfeito do indicativo. Segundo Cunha & Cintra: “Esse tempo expressa um fato anterior a outro também passado”. Exemplo: “Quando cheguei, ele já partira”. No texto, a truta já tinha estacionado junto ao vidro antes de o homem observá-la. Portanto, a alternativa C é a correta.
Análise das alternativas incorretas:
A) Pretérito perfeito do indicativo: usado para ação concluída no passado, sem relação de anterioridade com outro ato pretérito (“Ele estacionou”). “Estacionara” não pertence a esse tempo.
B) Pretérito imperfeito do indicativo: indica hábito, repetição ou continuidade no passado (“Ele estacionava”). Não expressa anterioridade, logo não se aplica.
D) Futuro do pretérito do indicativo: utilizado para indicar ação futura em relação a outro ato passado hipotético (“Ele estacionaria”). Não é o caso.
E) Pretérito imperfeito do subjuntivo: empregado para hipóteses, condições (“Se ele estacionasse”). Não corresponde à forma “estacionara”.
Dicas e estratégias:
Fique atento às terminações verbais pouco usadas na fala cotidiana, comuns em narrativas literárias e provas de concurso. Tempos como o mais-que-perfeito aparecem para testar seu domínio da morfologia. Diante das formas “-ara, -era, -ira”, lembre-se de analisar o contexto de anterioridade.
Referência gramatical: Bechara e Cunha & Cintra apontam que o mais-que-perfeito pode ocorrer na forma simples (“partira”) e composta (“tinha partido”) — ambas adequadas à norma-padrão.
Portanto, a alternativa correta é a C: pretérito mais-que-perfeito do indicativo.
Gostou do comentário? Deixe sua avaliação aqui embaixo!
Clique para visualizar este gabarito
Visualize o gabarito desta questão clicando no botão abaixo
Comentários
Veja os comentários dos nossos alunos
Conjugação e modo verbal:
Eu estacionei (pretérito perfeito do modo indicativo);
Eu estacionava (pretérito imperfeito do modo indicativo);
Eu estacionara (pretérito mais que perfeito do modo indicativo).
ARA= pretérito mais-que-perfeito do indicativo.
Um colega do QC deu essa dica e eu nunca mais esqueci:
Pretérito Mais-que-perfeito - Sempre terminado em ARA
Conjugação do Kiko (ra... ra...)
Clique para visualizar este comentário
Visualize os comentários desta questão clicando no botão abaixo