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Q3877603 Filosofia
“E até, como por vezes julgo que os outros se equivocam, mesmo nas coisas que pensam saber com a maior certeza, pode ocorrer que ele tenha querido que eu me engane todas as vezes que faço a adição de dois e três, ou que enumero os lados de um quadrado, ou que julgo alguma coisa ainda mais fácil, caso se possa imaginar algo mais fácil que isso. Mas talvez Deus não tenha querido que eu fosse ludibriado dessa forma, pois diz-se que é soberanamente bom. Todavia, se repugnasse à sua bondade ter-me feito tal que eu me enganasse sempre, isto pareceria também ser-lhe de alguma forma contrário, permitir que eu por vezes me engane, e não obstante não posso duvidar que ele o permita” (Descartes, 2005, p. 35-36).

Nesse sentido, é correto afirmar que(,)
Alternativas

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Gabarito: C

Fundamento decisivo: A questão se decide pela identificação da passagem com a dúvida hiperbólica cartesiana: ela leva a suspeita até operações simples de aritmética e geometria, o que afasta as alternativas que tratam o trecho como prova de Deus, hipótese do sonho ou tese sobre a priori.

Tema central: dúvida hiperbólica cartesiana
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque transforma a passagem em argumento para a existência de Deus, quando sua função ali é metódica: radicalizar a dúvida por meio da hipótese do enganador. Também erra ao dizer que, se eu me enganasse, Deus não seria onipotente; esse não é o ponto cartesiano indicado na base.
B
Errada
Está errada porque confunde duas hipóteses distintas. A dúvida sobre verdades aritméticas e geométricas básicas, expressa no trecho por 'dois e três' e pelos lados do quadrado, pertence à hipótese do Deus enganador/gênio maligno, não à mera hipótese do sonho.
C
Certa
A alternativa C é a única compatível com a função da hipótese do enganador nas Meditações: ao pôr sob suspeita até inferências lógicas e matemáticas elementares, ela mostra que o 'penso, logo existo' não deve ser entendido, nesse estágio, como argumento dedutivo ordinário, mas como certeza imediata do pensar.
D
Errada
Está errada porque introduz uma tese não sustentada: a de que Deus poderia querer enganar 'para o meu próprio bem'. Além disso, inverte a ordem das certezas ao afirmar que a única coisa indubitável seria a existência de Deus, algo que a passagem não estabelece.
E
Errada
Está errada porque do fato de um juízo matemático poder ser posto metodicamente em dúvida não se segue que ele não seja a priori. A referência ao antiexcepcionalismo lógico e matemático é extrapolação indevida e anacrônica em relação ao papel do trecho.
Pegadinha da questão
A confusão central era tomar a passagem como hipótese do sonho ou como prova da existência de Deus, quando ela trata da hipótese do enganador para ampliar a dúvida até a matemática e as inferências.
Dica para questões semelhantes
  • Se o texto cartesiano põe em dúvida aritmética e geometria, identifique a hipótese do Deus enganador/gênio maligno, não a do sonho.
  • Quando a dúvida alcança a própria inferência, descarte leituras do cogito como silogismo ou argumento dedutivo comum.
  • Em Descartes, verifique se a menção a Deus está servindo para provar algo ou para radicalizar metodicamente a dúvida.

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