O narrador pondera que a época de Natal

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Q3834670 Português
Natal

        É época de Natal. De prendas, de frutas secas e fios dourados. De perus e bebidas várias. De plásticos. De muitos plásticos. E de sacrifícios.

        Também festa de família.

        Estou numa loja. Três mocinhos semi-esfarrapados entram. Não têm pressa. Não pedem para serem atendidos. Os olhinhos passam de um brinquedo para outro e neles vejo o mesmo brilho dos olhos dos meus filhos.

        Timidamente, quando não se sentem observados pela vendedora, passam a mão – um dedo só – pela carroceria de um caminhão. Estão mudos, num mundo à parte e nem sequer trocam olhares uns com os outros. Cada um vivendo o sonho de uma viagem, a aventura de uma corrida.

        Os compradores entram e saem atarefados. E não vejo alegria neles. A cada presentinho, a cada pacotinho de uma bagatela qualquer, um balanço às notas que ficam, um cálculo mental, uma decepção. E começam as lamentações que os artigos estão caros, que a vida está cada vez mais difícil, que já é tempo de se acabar com o Natal.

        Não estou de acordo. É bom haver Natal. É bom escrever aos amigos e dizer-lhes que estão comigo o tempo todo, apesar do meu silêncio. É bom haver Natal e poder dizer-te que tenho saudades tuas, que te amo e te queria abraçar forte. É bom haver Natal, quando não é época de sacrifícios e angústias e dívidas, para se manter uma ridícula aparência de sucesso.

(Dina Salústio. Mornas Eram as noites, 2002. Adaptado)
O narrador pondera que a época de Natal
Alternativas

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Gabarito: C

Fundamento decisivo: O critério decisivo é o contraste entre o valor afetivo do Natal e sua vivência social deturpada por consumo, sacrifício financeiro e aparência. O trecho obrigatório é: "E não vejo alegria neles. A cada presentinho, a cada pacotinho de uma bagatela qualquer, um balanço às notas que ficam, um cálculo mental, uma decepção. [...] É bom haver Natal, quando não é época de sacrifícios e angústias e dívidas, para se manter uma ridícula aparência de sucesso." Esse contraste sustenta a alternativa C, que sintetiza a oposição entre sentimentos e compras/aparências.

Tema central: Natal: afeto e consumo
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque afirma que os preços "raramente incomodam as pessoas", mas o texto mostra o contrário: "um balanço às notas que ficam, um cálculo mental, uma decepção" e ainda menciona as lamentações de que os artigos estão caros. Há incompatibilidade direta com a literalidade do texto.
B
Errada
Está errada porque atribui ao texto a ideia de que as pessoas abandonam as angústias e fazem sacrifícios e dívidas com "alegria genuína". O texto nega isso expressamente: "E não vejo alegria neles" e fala em "sacrifícios e angústias e dívidas". A alternativa contradiz o sentido expresso.
C
Certa
A alternativa C está correta porque traduz a oposição central do texto: o narrador reconhece o valor humano do Natal, ligado à lembrança, ao amor e à aproximação, mas critica o modo como muitas pessoas o vivem, com sentimentos em segundo plano e prioridade para compras e aparência. Isso se confirma em "Os compradores entram e saem atarefados. E não vejo alegria neles." e em "ridícula aparência de sucesso". A formulação "comportamentos confusos" não é literal, mas funciona como paráfrase aceitável dessa contradição entre sentido afetivo e prática consumista.
D
Errada
Está errada porque transforma em incômodo aquilo que o narrador valoriza. O texto diz: "É bom escrever aos amigos" e "É bom haver Natal", o que mostra aprovação da retomada dos vínculos e da manifestação de afeto. Também não há base para dizer que as pessoas juram falsamente sentir saudades; isso é extrapolação indevida.
E
Errada
Está errada porque apresenta como positivo um aspecto que o narrador reprova. O texto até reconhece valor humano no Natal, mas não valida seu suposto "valor comercial"; ao contrário, critica a lógica de compras, dívidas e manutenção de uma "ridícula aparência de sucesso". A alternativa deturpa o juízo de valor do narrador.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre defender o Natal e defender o consumismo natalino. O texto faz a primeira coisa e rejeita a segunda.
Dica para questões semelhantes
  • Quando o texto opõe dois modos de ver o mesmo tema, procure a alternativa que preserve esse contraste, sem transformar tudo em elogio ou tudo em condenação.
  • Verifique palavras avaliativas do narrador, como "não vejo alegria" e "ridícula aparência de sucesso"; elas definem o juízo do texto.
  • Elimine alternativas que absolutizam o comportamento das pessoas se o texto faz apenas uma observação social recorrente, não uma generalização total.

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Comentários

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O texto de 2002 e as pessoas reclamavam dos preços na época de Natal

Imagina hoje que um carro tá 100 mil e nessa época era 30 mil kkkkkkkkkkkk

O texto constrói um contraste:

  • Compradores atarefados
  • Cálculos mentais
  • Decepção
  • Lamentações
  • Aparência de sucesso
  • Sacrifícios e dívidas
  • O sonho inocente dos meninos
  • O verdadeiro sentido afetivo do Natal
  • Escrever aos amigos
  • Declarar saudade e amor

Trecho decisivo:

Aqui está a crítica:

O Natal perde sentido quando vira consumo e aparência.

Fala que os preços “raramente incomodam”.

O texto mostra exatamente o contrário: há cálculos, decepção e lamentações.

Afirma que as pessoas abandonam as angústias e fazem dívidas com alegria.

O texto mostra angústia, não alegria.

✔ Exatamente o que o texto critica:

  • priorização das compras
  • aparência de sucesso
  • esvaziamento do sentido afetivo

Alternativa coerente com a visão do narrador.

Não há ideia de que o Natal “incomoda bastante” por reatar laços.

O narrador valoriza a expressão sincera de afeto.

Fala em “valor humano e comercial” como algo positivo.

O texto critica o aspecto comercial quando associado à aparência.

LETRA C

É bom haver Natal, quando não é época de sacrifícios e angústias e dívidas, para se manter uma ridícula aparência de sucesso.

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