A assertiva que indica a idéia central de “A Fábula da Cida...

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Q97905 Português
Os textos desta prova se referem a cenas e cenários cariocas.

Texto I

A Fábula da Cidade

      Uma casa é muito pouco para um homem; sua verdadeira casa é a cidade. E os homens não amam as cidades que os humilham e sufocam, mas aquelas que parecem amoldadas às suas necessidades e desejos, humanizadas e oferecidas – uma cidade deve ter a medida do homem.
     É possível que, pouco a pouco, os lugares cordiais da cidade estejam desaparecendo, desfigurados pelo progresso e pela técnica, tornados monstruosos pela conspiração dos elementos que obrigam as criaturas a viver como se estivessem lutando, jungidas a um certo número de rituais que as impedem de parar no meio de uma calçada para ver uma criança ou as levam a atravessar uma rua como se estivessem fugindo da morte.
      Em cidades assim, a criatura humana pouco ou nada vale, porque não existe entre ela e a paisagem a
harmonia necessária, que torna a vida uma coisa digna. E o habitante, escravizado pelo monstro, vai-se repetindo diariamente, correndo para as filas dos alimentos, dos transportes, do trabalho e das diversões, proibido de fazer
algo que lhe dê a certeza da própria existência.
       Não será excessivo dizer que o Rio está correndo o perigo de incluir-se no número das cidades desumanizadas, devoradas pela noção da pressa e do combate, sem rostos que se iluminem em sorrisos e lugares que convidem à permanência.
       Mal os seus habitantes podem tomar cafezinho e conversar sentados; já não se pode passear nem sorrir nem sonhar, e as pessoas andam como se isso fosse um castigo, uma escravidão que as leva a imaginar o refúgio das casas onde as tardes de sábado e os domingos as insulam, num temor de visitas que escamoteiam o descanso e a intimidade familiar. E há mesmo gente que transfere os sonhos para a velhice, quando a aposentadoria, triunfante da morte, facultar dias inteiros numa casa de subúrbio, criando canários, decifrando palavras cruzadas, sonhando para jogar no bicho, num mister que justifique a existência. E outras pessoas há que esperam o dia em que poderão fugir da cidade de arranha-céus inamistosos, de atmosferas sufocantes, de censuras e exigências, humilhações e ameaças, para regressar aos lugares de onde vieram, iludidas por esse mito mundial das grandes cidades. E ainda existem as que, durante anos e anos, compram terrenos a prestações ou juntam dinheiro à espera do dia em que se plantarão para sempre num lugar imaginário, sem base física, naquele sítio onde cada criatura é um Robinson atento às brisas e delícias de sua ilha, ou o síndico ciumento de um paraíso perdido.
        Para que se ame uma cidade, é preciso que ela se amolde à imagem e semelhança dos seus munícipes,
possua a dimensão das criaturas humanas. Isso não quer dizer que as cidades devam ser pequenas; significa
apenas que, nas mudanças e transfigurações, elas crescerão pensando naqueles que as habitam e completam, e
as tornam vivas. Pois o homem é para a cidade como o sangue para o corpo – fora disso, dessa harmoniosa
circulação, há apenas cadáveres e ruínas.
       O habitante deve sentir-se livre e solidário, e não um guerreiro sozinho, um terrorista em silêncio. Deve encontrar na paisagem os motivos que o entranham à vida e ao tempo. E ele não quer a paisagem dos turistas, onde se consegue a beleza infensa dos postais monumentalizados; reclama somente os lugares que lhe estimulem a fome de viver, sonegando-o aos cansaços e desencantos. Em termos de subúrbio, ele aspira ao bar debaixo de árvores, com cervejinha gelada e tira-gosto, à praça com “playground” para crianças, à retreta coroada de valsas.
        Suprimidas as relações entre o habitante e seu panorama, tornada incomunicável a paisagem, indiferente a cidade à fome de simpatia que faz alguém preferir uma rua à outra, um bonde a um ônibus, nada há mais que fazer senão alimentar-se a criatura de nostalgia e guardar no fundo do coração a imagem da cidade comunicante, o reino da comunhão humana onde se poderia dizer “bom dia” com a convicção de quem sabe o que isso significa.
         E esse risco está correndo o Rio, cidade viva e cordial. Um carioca dos velhos tempos ia andando pela avenida, esbarrou num cidadão que vinha em sentido contrário e pediu desculpas. O outro, que estava transbordante de pressa, indignou-se:
       O senhor não tem o que fazer? Esbarra na gente e ainda se vira para pedir desculpas?
       Era a fábula da cidade correndo para a desumanização.

Ledo Ivo. Crônicas – Antologias Escolares Edijovem – organizada por Herbert Sale. Rio de Janeiro: EditoraTecnoprint SA, s/d.

A assertiva que indica a idéia central de “A Fábula da Cidade” é a seguinte:
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: B

Fundamento decisivo: O critério decisivo é a identificação da tese global do texto, centrada na relação entre cidade, habitante e desumanização. O trecho-base explicita que "uma cidade deve ter a medida do homem" e que o Rio corre o risco de integrar o grupo das "cidades desumanizadas" quando se rompe a harmonia entre paisagem e criatura humana. Por isso, a alternativa B é a única que sintetiza, ainda que por aproximação semântica, essa macroideia.

Tema central: relação entre cidade e habitante
Análise das alternativas
A
Errada
A alternativa reduz a ideia central a um desdobramento pontual: a liberdade do habitante. O texto de fato diz que "O habitante deve sentir-se livre e solidário", mas isso aparece como condição desejável dentro de uma cidade humanizada, não como tese principal. Além disso, a expressão "mesmo que desumanizadas" contraria frontalmente o texto, que critica a desumanização e a apresenta como risco negativo.
B
Certa
A alternativa B condensa a tese de que a configuração da cidade e o modo de vida que ela impõe produzem efeitos decisivos sobre a experiência humana no Rio de Janeiro. O texto afirma que "uma cidade deve ter a medida do homem", mostra que, quando isso não ocorre, "a criatura humana pouco ou nada vale" por faltar "a harmonia necessária" entre habitante e paisagem, e aplica essa reflexão ao Rio ao dizer que ele corre o risco de integrar o grupo das "cidades desumanizadas". Embora a formulação da alternativa não seja literal, ela é a única que reúne, no mesmo enunciado, o espaço urbano e os efeitos humanos/psicológicos dessa organização.
C
Errada
A alternativa inverte o sentido do texto. O cronista não afirma que os grandes centros urbanos já vêm se amoldando às necessidades dos habitantes; afirma justamente o contrário, ao sustentar que "uma cidade deve ter a medida do homem" e ao alertar que o Rio "está correndo o perigo de incluir-se no número das cidades desumanizadas". O que a alternativa apresenta como fato realizado é, no texto, uma condição ideal ameaçada.
D
Errada
A alternativa deturpa o valor semântico de "rituais" no texto. Os rituais urbanos mencionados são negativos: "obrigam" e "impedem" as pessoas, funcionando como sinais de mecanização e opressão da vida na cidade. O texto não defende "a necessidade de rituais harmoniosos"; a harmonia mencionada refere-se à relação entre habitante e paisagem, não à adoção de rituais urbanos.
E
Errada
A alternativa desloca a tese para uma prescrição sobre comportamento dos habitantes, mas esse não é o centro do texto. O cronista discute a desumanização da cidade pela ruptura entre espaço urbano e homem, não a necessidade de os cariocas "renovarem os hábitos". Também erra ao tratar "mudanças" e "transfigurações" como se fossem problema em si; o texto admite mudanças urbanas, desde que a cidade cresça pensando em seus habitantes.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre ideia central e elemento secundário do texto, além de induzir o candidato a rejeitar a alternativa correta por ela ser mais abstrata e não repetir literalmente o vocabulário do cronista.
Dica para questões semelhantes
  • Quando o comando pedir ideia central, procure a tese que organiza o texto inteiro, não um trecho expressivo isolado.
  • Verifique se a alternativa mantém a direção argumentativa do texto: aqui, o eixo é o risco de desumanização, não sua superação nem sua aceitação.
  • Desconfie de alternativas que transformam condição ideal em fato consumado ou que trocam crítica do autor por prescrição comportamental.
  • Se a alternativa correta não for literal, avalie se ela preserva a síntese entre os núcleos semânticos dominantes do texto.

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Comentários

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Não achei que a ideia central do texto fosse a questão do Rio de Janeiro, e sim das grandes cidades como um todo.

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