Acho muito simpática a maneira de a Rádio Nacional anunciar a hora: "onze e meia" no lugar de "vinte
e três e trinta" [...]. Mas confesso minha implicância com aquele "meio-dia e meia".
Sei que "meio-dia e meio" está errado; "meio" se refere a hora e tem de ficar no feminino. Sim, "meiodia e meia". Mas a língua é como a mulher de César: não lhe basta ser honesta, convém que o pareça. Aquele
"meia" me dá ideia de teste de colégio para pegar estudante distraído. Para que fazer da nossa língua um
alçapão?
Lembrando um conselho que me deu certa vez um amigo boêmio quando lhe perguntei se certa frase
estava certa ("Olhe, Rubem, faça como eu, não tope parada com a gramática: dê uma voltinha e diga a mesma
coisa de outro jeito") [...] Aliás, a língua da gente não tem apenas regras: tem um espírito, um jeito, uma
pequena alma que aquele "meio-dia e meia" faz sofrer. E, ainda que seja errado, gosto da moça que diz: "Estou
meia triste..." Aí, sim, pelo gênio da língua, o "meia" está certo.
BRAGA, Rubem. Recado de primavera. Rio de Janeiro: Record, 1984. p. 58.
“Neste particular, a minha imaginação era uma grande égua ibera; a menor brisa lhe dava um potro, que
saía logo cavalo de Alexandre; mas deixemos de metáforas atrevidas e impróprias dos meus quinze anos.
Digamos o caso simplesmente.” A palavra destacada pode ser substituída sem prejuízo de sentido por: