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Q3409576 Português
   Os estudos que abrangem o Tratado da Argumentação (PERELMAN, 1987) encontram-se no campo das artes do discurso, por meio dos estudos da lógica, retórica e dialética. Estas três abordagens se distinguem em relação às perspectivas que guiavam seus estudos, pois quando o interesse estava relacionado em entender as condições de persuasão, fazia-se uso da retórica, mas quando se almejava analisar as condições de uma discussão crítica, utilizava-se a dialética, e a abordagem lógica relacionava-se ao raciocínio conclusivo (ALVES, 2005).

   O Tratado da Argumentação compreende o campo da argumentação do verossímil, do plausível e do provável. Este campo fez-se necessário, porque todo raciocínio alheio à lógica formal deixou de ser estudado, assim, o TA pode ser caracterizado como um complemento à teoria da demonstração, que é uma teoria da argumentação (ALVES, 2005).

   As pesquisas de Alves (2005) apresentam o TA na perspectiva da abordagem lógica, retórica e descritiva. Lógica, porque pode ser comparado à lógica informal, que estuda os meios de prova não concludentes e pode ser empregada em todos os tipos de situações a partir das justificações, mesmo que o TA preocupe-se antes em descrever como ocorre o raciocínio de cada esquema de argumento. Retórica, por centrar o discurso na relação do orador com o auditório e na importância do aspecto persuasivo e processual da argumentação e descritiva, porque os autores não estão preocupados em ensinar como argumentar, mas em descrever o que persuade os sujeitos.

   Perelman e Olbrechts-Tyteca (1996) assumem a retórica como subtítulo, mas não se prendem somente a ela, tampouco, abordam todas as suas características, ao contrário, ultrapassam seus limites e desenvolvem ideias próprias, com o objetivo de mostrar que “as mesmas técnicas de argumentação se encontram em todos os níveis, tanto no da discussão ao redor da mesa familiar, como no do debate num meio muito especializado” (PERELMAN; OLBRECHTS-TYTECA, 1996, p. 8).

   Ainda que a retórica tenha como essência a arte de falar em público de modo persuasivo através do discurso, a obra de Perelman e Olbrechts-Tyteca (1996) pretende abranger, além da fala, também a escrita, mas somente no que se refere à estrutura da argumentação e não a forma como o orador se comunica com o auditório.

   O auditório, para Perelman e Olbrechts-Tyteca (1996), é fundamental no desenvolvimento da argumentação, primeiramente porque visa obter a adesão e isso implica que a construção do discurso do orador estará inteiramente direcionada para aqueles que ele pretende influenciar.

   No contexto da Nova Retórica, Perelman e Olbrechts-Tyteca (1996) identificam um conjunto de aspectos que precisam ser lembrados quando se pretende examinar técnicas argumentativas: o orador deve desenvolver sua argumentação em função do seu auditório; cada auditório admite um conjunto de noções ou princípios que guiam seus atos e estes podem influenciar-lhe; no discurso, o orador seleciona os elementos que serão utilizados e as técnicas para o uso destes, conforme o tempo que dispõe.

   Assim, o ouvinte é considerado um ser bem informado, que precisa do empenho do orador para convencê-lo de suas ideias, por isso, a necessidade do bom aproveitamento do tempo para apresentar seus dados, a escolha das palavras mais adequadas, bem como os significados mais relevantes, tornando sua argumentação o mais eficaz possível.

   Dessa forma, por razões de comodidade técnica, a argumentação deve ser entendida na perspectiva de Perelman (1987) como um processo que envolve orador e auditório por meio do discurso. Por isso, todas as vezes que nos referirmos ao termo discurso ou argumentação deve-se entender a relação entre orador e auditório.


(SOUSA, Taize Borges; MALHEIRO, João Manoel da Silva. Análise das técnicas argumentativas da teoria da argumentação a partir da aprendizagem baseada em problemas em um curso de férias. Ens. Pesqui. Educ. Ciênc., Belo Horizonte, p. 21. 2019. Fragmento.)
Considerando os princípios éticos na elaboração do texto argumentativo, analise as asserções e a relação proposta entre elas.

I. “A argumentação ética exige que o orador apresente informações verídicas e coerentes, respeitando a inteligência e a autonomia crítica do auditório.”
PORQUE
II. “O efeito da argumentação depende, exclusivamente, da qualidade lógica dos argumentos, sendo irrelevante a relação do orador com o auditório e as estratégias persuasivas utilizadas.”

Assinale a alternativa correta.
Alternativas

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Gabarito: A) A asserção I é verdadeira; a II é falsa.

Tema central da questão: Interpretação de texto com foco em princípios éticos do texto argumentativo e análise dos fundamentos da Teoria da Argumentação de Perelman e Olbrechts-Tyteca.

Análise da Asserção I:

A afirmação de que a argumentação ética exige informações verídicas e coerentes está de acordo com os princípios da Nova Retórica. Perelman defende que a ética do discurso demanda respeito à inteligência do auditório e honestidade na exposição das ideias (coerência, verdade e respeito à autonomia crítica). Segundo Celso Cunha e Lindley Cintra, o texto coerente “apresenta sequência lógica de informações”.

Análise da Asserção II:

A segunda asserção é falsa justamente porque contradiz o texto-base e a teoria de Perelman. A argumentação não depende exclusivamente da lógica, mas também das estratégias de persuasão e da relação com o auditório. Trechos do texto ressaltam que “o orador deve desenvolver sua argumentação em função do seu auditório” e que as técnicas argumentativas visam à adesão do público. Assim, o papel do auditório é central.

Justificativa da alternativa correta (A):

Estratégia de resolução: Busque no texto-palavras como “adesão”, “auditório”, “persuasão” e “processo argumentativo”. Esses termos evidenciam a influência do público na eficácia argumentativa, afastando a ideia de que a lógica é o único fator relevante.

Análise das alternativas incorretas:

B) A I é correta, a II é falsa – portanto, esta relação está incorreta.

C) Embora a I seja verdadeira, a II é falsa, então não pode ser justificativa.

D) Novamente, a II não é verdadeira – está em oposição ao que é defendido no texto e na teoria de Perelman.

Dicas e pontos sutis:

Observe que a palavra “exclusivamente”, usada na II, indica uma generalização extrema – cuidado com termos categóricos que anulam outros elementos textuais. Em provas, este tipo de termo frequentemente sinaliza incorreção sem respaldo do texto-fonte.

Conclusão: A alternativa A é a correta, pois a I está alinhada à ética argumentativa segundo Perelman, enquanto a II erra ao desprezar o aspecto persuasivo e a interação com o auditório.

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Comentários

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A alternativa correta é:

A – A asserção I é verdadeira; a II é falsa.

I. “A argumentação ética exige que o orador apresente informações verídicas e coerentes, respeitando a inteligência e a autonomia crítica do auditório.”

Verdadeira.

Essa afirmação está alinhada com os princípios éticos da argumentação. Ética na argumentação pressupõe respeito ao interlocutor, uso de informações verdadeiras, transparência, e coerência. O orador não deve manipular o público, mas sim confiar na capacidade crítica dele.

II. “O efeito da argumentação depende, exclusivamente, da qualidade lógica dos argumentos, sendo irrelevante a relação do orador com o auditório e as estratégias persuasivas utilizadas.”

Falsa.

Essa afirmação desconsidera aspectos fundamentais da retórica e da comunicação. A eficácia da argumentação não depende apenas da lógica dos argumentos. A relação com o auditório, a credibilidade do orador (ethos), a emoção envolvida (pathos), e as estratégias persuasivas também são elementos essenciais na construção do efeito da argumentação.

II. “O efeito da argumentação depende, exclusivamente, da qualidade lógica dos argumentos, sendo irrelevante a relação do orador com o auditório e as estratégias persuasivas utilizadas.” Falsa

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