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Q3409569 Português
    Ao receber um texto para avaliar, o profissional da revisão, em uma primeira leitura, pode ter sua atenção despertada para aspectos mais superficiais do texto, mas é necessário lembrar que, se fossem ordenar as tarefas de uma revisão textual, a última etapa seria a verificação desses aspectos. Antes de verificá-los, o revisor precisa ater-se a dois aspectos fundamentais de um texto: seu gênero e sua textualidade. São esses aspectos que irão garantir a legibilidade e adequação globais do texto. Além do mais, para se avaliar tais aspectos, geralmente mais de uma leitura do texto deve ser feita, assim o revisor passará a ter um conhecimento mais aprofundado do texto com o qual lida.

    Como vários autores, ao definirem gênero textual ou gênero discursivo, revisam Bakhtin (Cf. BRONCKART, 1999; MARCUSCHI, 2002, 2006, 2008), entende-se que é importante retomar as ideias, sobre esse tema, do precursor da noção de gênero na linguística, a fim de discutir como elas podem contribuir para a revisão textual. Bakhtin (1992) constrói sua reflexão sobre a interação verbal baseando-se na estreita relação entre língua e sociedade. Os múltiplos usos linguísticos, para ele, são relacionados a diferentes esferas sociais, condicionando, pois, o aparecimento de enunciados distintos, ligados às mais diversas ações humanas. De acordo com o autor, em cada situação produz-se um único enunciado, mas as produções semelhantes levam a enunciados semelhantes, gerando a ocorrência de “tipos ‘relativamente estáveis’ de enunciados”, denominados pelo autor de “gêneros do discurso”.

   Ao trabalhar com a definição bakhtiniana é possível, ainda, ressaltar duas características fundamentais do gênero: seu caráter estável (modelar) e seu caráter flexível (relativamente estável). Em relação ao aspecto modelar dos gêneros, pode-se dizer, como Marcuschi (2002, p. 19), que “os gêneros contribuem para ordenar e estabilizar as atividades comunicativas do dia a dia”, em atividades de interação verbal que tenham as mesmas finalidades. Por outro lado, os gêneros, ao mesmo tempo em que modelam ou fixam, são também flexíveis, maleáveis, dinâmicos. Apesar de textos que se materializam em um mesmo gênero apresentarem características semelhantes, os gêneros não funcionam como formas, engessando os textos para que se mostrem iguais.

    Disso decorre que, ao receber um texto para revisão, o revisor precisa ter consciência de quais características do gênero são fundamentais, devendo, portanto, estar presentes, e das características opcionais, flexíveis. Por exemplo, ao revisar um artigo de opinião, cuja finalidade é opinar, argumentar sobre um fato, o revisor deve, em primeiro lugar, verificar se o texto com que trabalha cumpre a finalidade de opinar sobre um fato. Para cumprir essa finalidade, algumas características referentes ao estilo e à estrutura composicional serão idênticas nos diversos textos desse gênero, outras serão variáveis. Faz-se importante, também, lembrar que a determinação do gênero e de sua finalidade servirá de base para pensar também os aspectos pragmáticos da textualidade. Segundo Costa Val (2004), a textualização está ligada a propriedades que fazem com que um texto seja algo mais que uma sequência de frases isoladas (fatores de textualidade) e a relações entre essas propriedades com o contexto de enunciação em que o texto aparece. Antes de proceder à revisão de um texto, o revisor deve estar atento também a fatores mais globais, tais como aqueles que se voltam para aspectos gráficos, normalizadores e temáticos do material submetido à sua apreciação. Para tanto, é imprescindível identificar o gênero do texto a ser revisado, bem como o suporte e a esfera em que será veiculado, pois a posse desses dados lhe permitirá julgar a (in)adequação: i) de questões relacionadas à composição visual e material do texto (revisão gráfica); ii) de aspectos relacionados à metodologia e à editoração; iii) de fatores ligados à propriedade e à consistência das informações apresentadas em função do interlocutor e da situação, além, é claro; iv) de questões relacionadas aos aspectos gramaticais e ortográficos do texto (revisão linguística).


(COELHO, Sueli Maria; ANTUNES, Leandra Batista. Revisão textual: para além da revisão linguística. Scripta, Belo Horizonte, v. 14, n. 26, 2010, p. 205-224. Adaptado.)
Considerando as informações apresentadas no texto, analise as asserções e a relação proposta entre elas.

I. “A identificação do gênero textual e dos fatores de textualidade é essencial no processo de revisão, pois garante a adequação do texto ao seu propósito comunicativo.”

PORQUE

II. “Os gêneros textuais são estruturas fixas, com regras restritas de composição e estilo, que não permitem variações conforme o contexto de produção e circulação do texto.”


Assinale a alternativa correta. 
Alternativas

Gabarito comentado

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✔ Gabarito: A) A asserção I é verdadeira; a II é falsa.

Tema central: Interpretação de Texto e Conhecimento de Gêneros Textuais.

Conceitos essenciais:

Gênero textual é a categoria que define o tipo de texto conforme sua função social (artigo de opinião, notícia, edital, etc.). Possui características relativamente estáveis, mas é flexível, podendo se adaptar ao contexto social (Bakhtin, Marcuschi).

Textualidade são os elementos que conferem sentido ao texto. Engloba coesão, coerência, intencionalidade, situacionalidade, entre outros (Costa Val).

Justificativa para a alternativa correta (A)

I. VERDADEIRA. Identificar gênero e fatores de textualidade é essencial ao revisor, pois isso garante que o texto se adeque ao seu objetivo comunicativo e seja compreendido como unidade de sentido. O texto afirma que o revisor deve avaliar se o texto cumpre a finalidade do gênero e apresenta consistência textual. Isso está em sintonia com o Manual de Redação da Presidência da República, que recomenda adaptação ao receptor e à situação comunicativa.

II. FALSA. Os gêneros não são estruturas fixas e rígidas. Marcuschi e Bakhtin mostram que são maleáveis, dinâmicos e adaptáveis às situações comunicativas. O próprio texto afirma que, embora haja características comuns, há também flexibilidade e variação.

Análise das alternativas incorretas:

  • B) Erra ao afirmar que apenas a II é verdadeira — II é contrária à teoria dos gêneros.
  • C) Falsa: II não justifica I, pois está errada conceitualmente.
  • D) Idem: II não é verdadeira nem justificativa.

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Leia atentamente as afirmações, busque termos absolutos como “estruturas fixas”, que costumam indicar erro, e relacione à teoria dos gêneros: se houver destaque para flexibilidade e adaptabilidade, a alternativa tende a estar correta.

Autores de referência: Bakhtin (“gêneros do discurso”), Marcuschi (2002), Costa Val (2004). Sempre baseiam-se no dinamismo dos gêneros.

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