Em consonância com a argumentação do texto, questionar a nat...

Próximas questões
Com base no mesmo assunto
Q3916792 Português
Atenção: Considere o texto a seguir para responder à questão.


   Como é possível, pergunta La Boétie, que a maioria obedeça a um só, não apenas lhe obedeça, mas o sirva, não apenas o sirva mas queira servi-lo?

   A natureza e o alcance de tal questão excluem de saída que se possa reduzi-la a essa ou àquela situação histórica concreta. А possibilidade de formular uma interrogação tão destrutiva remete, simples mas heroicamente, a uma lógica dos contrários: se sou capaz de me espantar que a servidão voluntária seja a invariante comum a todas as sociedades, a minha mas também aquelas sobre as quais me informam os livros, é evidentemente porque imagino o contrário de tal sociedade, é porque imagino a possibilidade lógica de uma sociedade que ignore a servidão voluntária. Heroísmo e liberdade de La Boétie: basta essa ligeira e fácil passagem da história à lógica, basta essa abertura no que é o mais naturalmente evidente, basta essa brecha na convicção geral de que não se poderia pensar a sociedade sem sua divisão entre dominantes e dominados. Ao espantar-se com isso, ao recusar a evidência natural, o jovem La Boétie transcende toda a história conhecida para dizer: outra coisa é possível.

(Adaptado de: CLASTRES, Pierre. Arqueologia da Violência. São Paulo: CosacNaify, 2004, p. 147-8)
Em consonância com a argumentação do texto, questionar a naturalidade de algo significa
Alternativas

Gabarito comentado

Confira o gabarito comentado por um dos nossos professores

Gabarito: C

Fundamento decisivo: O critério decisivo é a oposição entre “evidência natural” e “outra coisa é possível”: ao recusar o que parece natural, o texto desnaturaliza a servidão voluntária e a desloca para o campo do que pode ser historicamente compreendido como construído; por isso, a alternativa correta é a que traduz esse movimento de desnaturalização.

Tema central: desnaturalização do social
Análise das alternativas
A
Errada
A alternativa erra o alvo do texto. O excerto não discute a natureza em si, nem propõe “submeter a natureza ao crivo da lógica”, muito menos trata de “ausência de finalidade”. A “passagem da história à lógica” serve apenas para imaginar o contrário daquilo que foi naturalizado socialmente. Há incompatibilidade semântica entre essa formulação abstrata sobre a natureza e o sentido contextual de “recusar a evidência natural”.
B
Errada
A alternativa introduz duas ideias sem apoio textual: modificação da natureza pela cultura e benefício da sociedade. O texto não avalia até que ponto a cultura transforma a natureza, nem trata de utilidade social. Seu ponto é outro: a servidão voluntária não deve ser tomada como necessidade natural. Trata-se de extrapolação interpretativa.
C
Certa
A alternativa C traduz o movimento central do texto: a servidão voluntária deixa de ser tratada como dado natural, evidente e inevitável e passa a ser compreendida como fenômeno produzido no âmbito social e cultural. Essa leitura decorre da oposição entre a “evidência natural” e a afirmação de que “outra coisa é possível”. Embora o texto não use literalmente a expressão “fruto da cultura”, essa é a inferência autorizada pela recusa da naturalização. O termo “intencionalidade” não aparece no excerto, mas, entre as opções, é a única formulação compatível com a ideia de construção humana e não de inerência natural.
D
Errada
A alternativa inverte a direção do argumento. Questionar a naturalidade não é “pôr em xeque sua historicidade”; no texto, é justamente romper com a aparência de inerência e abrir espaço para entender o fenômeno como contingente, portanto historicamente produzido. Além disso, a expressão “aspectos inerentes e não sujeitos a mudanças” contradiz frontalmente a conclusão “outra coisa é possível”.
E
Errada
A alternativa transforma em conclusão aquilo que o texto põe em crise. A menção a “invariante comum a todas as sociedades” aparece como objeto de espanto, não como constante a ser confirmada. O raciocínio de La Boétie não busca estabelecer uma estrutura permanente da sociedade; busca romper com a naturalização dessa recorrência. É uma leitura invertida do valor argumentativo de “invariante comum”.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre o que é historicamente recorrente e o que é natural. O texto menciona uma “invariante comum”, mas justamente para recusá-la como evidência necessária; quem toma recorrência como essência cai nas alternativas D e E.
Dica para questões semelhantes
  • Quando o texto opõe “natural” a “outra coisa é possível”, o sentido costuma ser: o fenômeno não é necessário, mas contingente e produzido.
  • Não confunda frequência histórica com natureza: algo recorrente pode ser precisamente o que o texto está desnaturalizando.
  • Se a alternativa leva o texto para teleologia, essência imutável ou método estrutural, confirme antes se esses temas aparecem de fato no excerto.
  • Em questões de interpretação, observe se o texto rompe uma evidência social; esse rompimento costuma deslocar o fenômeno do campo do natural para o do histórico-cultural.

Clique para visualizar este gabarito

Visualize o gabarito desta questão clicando no botão abaixo

Comentários

Veja os comentários dos nossos alunos

Pra mim houve extrapolação da banca

A alternativa correta é:

C

✅ Entendendo o ponto central do texto

O antropólogo Pierre Clastres mostra que Étienne de La Boétie faz algo decisivo:

Ele questiona o que parecia “natural” (a servidão voluntária)

E ao fazer isso:

  • rompe com a ideia de que isso é inevitável
  • mostra que “outra coisa é possível”

O que significa “questionar a naturalidade”?

No contexto do texto:

Significa deixar de ver algo como:

  • natural
  • inevitável
  • dado pela natureza

➡️ E passar a entendê-lo como:

✔ algo construído

✔ algo que poderia ser diferente

✔ algo ligado à organização social (cultura)

✔ Por que a alternativa C está correta?

“fazer com que passe a ser considerado como fruto da cultura...”

✔ Exatamente o que o texto propõe:

  • a servidão não é “natural”
  • é uma construção social
  • portanto, pode ser questionada e modificada

❌ Por que as outras estão erradas?

A)

❌ Fala em “submeter a natureza à lógica”

  • O texto não discute natureza nesse sentido abstrato

B)

❌ Foca na relação natureza × cultura

  • Mas o texto não trata de transformação da natureza
  • Trata de desnaturalização de um fenômeno social

D)

❌ Diz “pôr em xeque sua historicidade”

  • O texto faz o oposto:
  • mostra que não é algo natural, mas histórico/social

E)

❌ Fala em “estabelecer uma constante”

  • O texto rompe com a ideia de constante
  • Mostra que algo tido como constante pode ser questionado

 

A) Incorreta. Embora o texto fale em "passagem da história à lógica", ele não sugere que a finalidade da natureza deva ser negada. O foco não é a "ausência de finalidade" das características naturais, mas sim o questionamento de por que aceitamos certas estruturas sociais (como a servidão) como se fossem leis da natureza.

B) Incorreta. O texto não trata de uma "intuição" sobre a modificação da natureza pela cultura em benefício da sociedade. Ele trata de uma ruptura lógica: o espanto diante do que todos consideram normal. O objetivo de La Boétie é pensar a possibilidade de uma sociedade diferente, e não apenas medir modificações culturais.

C) Correta. Esta alternativa traduz o conceito de "recusar a evidência natural". Quando La Boétie se espanta com a "servidão voluntária", ele deixa de vê-la como algo biológico ou inevitável (natural) e passa a encará-la como uma construção social e política (fruto da cultura). Ao fazer isso, ele abre caminho para estudar a intencionalidade (por que a maioria quer servir?), permitindo dizer que "outra coisa é possível".

D) Incorreta. O autor propõe o exato oposto. Questionar a naturalidade é justamente mostrar que o fenômeno é sujeito a mudanças. Ao dizer que a servidão não é natural, ela passa a ser histórica e, portanto, transformável. A alternativa erra ao falar em "aspectos não sujeitos a mudanças".

E) Incorreta. O texto critica a busca por uma "invariante comum" ou uma "constante" que justifique a dominação. O "heroísmo" de La Boétie, segundo Clastres, está em romper com a "convicção geral" de que a divisão entre dominantes e dominados é uma constante estrutural da sociedade.

Clique para visualizar este comentário

Visualize os comentários desta questão clicando no botão abaixo