A justificativa da afirmação que dá título ao texto - Escrev...

Próximas questões
Com base no mesmo assunto
Q3916752 Português
Atenção: Para responder à questão, baseie-se no texto seguinte.


Escrever é verbo que briga com o sujeito


   No ofício da literatura, linguagem é mais do que meio: é princípio e fim. A literatura cria, à medida que é escrita, as regras pelas quais exigirá ser lida. É por isso que o terreno nunca vai estar inteiramente mapeado; o risco é parte inseparável do jogo. Se há algo de "universal” aí, é negativo: uma permanente insatisfação parece ser comum a gente de variadas épocas e escolas. O raciocínio não se aplica a quem lida com a linguagem como mero instrumento. "Profissionais do texto" que miram um objeto existente fora do mundo da linguagem podem se sentir plenos ao informar, relatar, dissertar, argumentar, resumir, requerer, inventariar etc. Não por acaso, são essas as funções da escrita em que a IA já se tornou competente.

   Na escrita criativa não se tem a mesma sorte. A insatisfação eterna sugere um ajuste precário entre sujeito e verbo, “escritor" e "escrever". É provável que exista um núcleo disfuncional em tudo isso, aquilo que bota o motor para rodar. Qualquer que seja o fenômeno psíquico que leva alguém à escrita, será informação de interesse para quem escreve, mas irrelevante para quem lê. O propósito terapêutico que possa ser extraído do conhecimento da ferida anímica que provoca o texto não importa no mundo do texto.

   O propósito estético da escrita literária não é apenas desvinculado de seu eventual propósito clínico; é, em certo sentido, o contrário dele. Olha para o lado oposto: para fora do sujeito, para o mundo das palavras. Então os escritores são todos uns neuróticos? O romancista americano E.L. Doctorow tem uma frase famosa que sugere distúrbio mais grave: "Escrever é uma forma socialmente aceita de esquizofrenia". Nesse ponto cabe ter cautela. Como metáfora, a coisa tem sua utilidade - quem escreve pode mesmo "ouvir" vozes dentro da cabeça. Contudo, deve-se evitar a tentação de associar arte e loucura para dar ares malditos, heroicos, messiânicos ou mágicos ao que é apenas deformação profissional, boca torta do cachimbo. Embora possa parecer, nada disso tem a ver com uma visão romântica da literatura. Escrever é só um ofício entre tantos, mas em certos aspectos não se assemelha a nenhum outro - o que é natural.


(RODRIGUES, Sérgio. "Ilustrada". Folha de S. Paulo. 20 agosto de 2025)
A justificativa da afirmação que dá título ao texto - Escrever é verbo que briga com o sujeito - expressa-se
Alternativas

Gabarito comentado

Confira o gabarito comentado por um dos nossos professores

Gabarito: B

Fundamento decisivo: A justificativa do título está no 2º parágrafo, quando o texto afirma: "Na escrita criativa não se tem a mesma sorte. A insatisfação eterna sugere um ajuste precário entre sujeito e verbo, “escritor" e "escrever"." Como o comando pede a explicação de "Escrever é verbo que briga com o sujeito", deve-se reconhecer essa relação de desajuste entre escritor e escrita, que é a base da alternativa B.

Tema central: desajuste escritor-escrever
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada por contrariar diretamente o texto-base. O autor afirma que, na literatura, "o terreno nunca vai estar inteiramente mapeado"; portanto, não se pode justificar o título por uma linguagem apoiada num mundo "excessivamente mapeado". A alternativa inverte a condição apresentada no texto.
B
Certa
A alternativa B é a única que preserva o núcleo semântico explicitado no 2º parágrafo: a "briga" do título corresponde à insatisfação do escritor criativo diante de uma relação tensa e precária com a escrita. Embora sua formulação não repita literalmente o texto, ela reexpressa de modo compatível a ideia central de descontentamento ligado ao desajuste entre "escritor" e "escrever".
C
Errada
Está errada por oposição explícita ao texto. O autor diz: "Qualquer que seja o fenômeno psíquico que leva alguém à escrita, será informação de interesse para quem escreve, mas irrelevante para quem lê." Logo, não procede afirmar que as informações mais pessoais do escritor sejam sedutoras para o leitor como fundamento da justificativa do título.
D
Errada
Está errada porque atribui à literatura uma finalidade terapêutica que o texto afasta. O trecho decisivo é: "O propósito estético da escrita literária não é apenas desvinculado de seu eventual propósito clínico; é, em certo sentido, o contrário dele." Assim, o objetivo estético não é apaziguar tensões íntimas.
E
Errada
Está errada por leitura literal e extrapolada de uma metáfora que o texto cerca de cautela. A referência à "esquizofrenia" aparece como frase metafórica de Doctorow, e o autor adverte contra a tentação de associar arte e loucura. O texto não menciona ameaça clínica, bloqueio da escrita nem "escritor não vocacionado".
Pegadinha da questão
A banca desloca o foco da justificativa específica do título para temas laterais do texto, como biografia do escritor, finalidade terapêutica ou metáfora da esquizofrenia. O acerto depende de voltar ao trecho em que a metáfora é explicada pelo próprio autor.
Dica para questões semelhantes
  • Quando a questão pedir a justificativa de uma expressão do título, procure o ponto do texto em que ela é explicitada ou retomada semanticamente.
  • Prefira a alternativa que parafraseia o trecho decisivo, mesmo que não repita suas palavras exatas, desde que preserve o núcleo de sentido.
  • Elimine opções que deslocam o sentido para temas secundários do texto, como psicologia do autor, efeito terapêutico ou imagens metafóricas tomadas literalmente.

Clique para visualizar este gabarito

Visualize o gabarito desta questão clicando no botão abaixo

Comentários

Veja os comentários dos nossos alunos

Gabarito letra B

"A insatisfação eterna sugere um ajuste precário entre sujeito e verbo, “escritor" e "escrever"

A alternativa correta é:

B) no sintoma do descontentamento do escritor criativo depois de buscar um nexo intenso entre ele e suas palavras.

✅ Por quê?

O título diz:

“Escrever é verbo que briga com o sujeito”

Isso sugere um conflito entre o escritor (sujeito) e o ato de escrever (verbo).

O próprio texto explica isso claramente neste trecho:

“A insatisfação eterna sugere um ajuste precário entre sujeito e verbo, ‘escritor’ e ‘escrever’.”

Ou seja:

  • o escritor nunca está plenamente satisfeito com o que escreve;
  • há sempre um desencaixe, uma tensão, uma “briga”.

A alternativa B traduz exatamente essa ideia:

  • “descontentamento do escritor criativo” = insatisfação permanente
  • “buscar um nexo intenso entre ele e suas palavras” = tentativa de ajustar sujeito e verbo

❌ Por que as outras estão erradas?

A)

Fala de “mundo excessivamente mapeado”

Isso aparece no texto, mas não explica o conflito entre escritor e escrita.

C)

Diz que informações pessoais seduzem o leitor

❌ O texto afirma o contrário:

essas informações são irrelevantes para quem lê

D)

Fala em “apaziguamento das tensões”

❌ O texto diz que não é isso — a escrita não resolve o conflito, ela nasce dele.

E)

Menciona esquizofrenia como bloqueio

❌ No texto, isso aparece como metáfora, não como causa real nem justificativa do título.

Parte inferior do formulário

A) quando se considera o caso de escritores cuja linguagem venha a se apoiar num mundo excessivamente mapeado: Incorreta. O texto diz o oposto: na literatura, o terreno "nunca vai estar inteiramente mapeado; o risco é parte inseparável do jogo". O mundo mapeado e instrumental pertence aos "profissionais do texto" (informes, relatórios), onde não há essa "briga".

B) no sintoma do descontentamento do escritor criativo...: CORRETA. Traduz a "insatisfação eterna" e o "ajuste precário" mencionados no início do segundo parágrafo como a razão de ser do título.

C) na constatação de que as informações mais pessoais do escritor costumam ser sedutoras para quem as lê: Incorreta. O autor afirma categoricamente no segundo parágrafo que o fenômeno psíquico ou a ferida anímica do escritor é "irrelevante para quem lê".

D) ao se reconhecer que o objetivo estético da literatura é o apaziguamento das nossas tensões mais íntimas: Incorreta. O texto defende que o propósito estético olha para fora do sujeito, para o mundo das palavras, e é o contrário de um propósito clínico ou terapêutico (que buscaria o apaziguamento de tensões).

E) no fato de que a ameaça de uma esquizofrenia costuma bloquear as iniciativas do escritor não vocacionado: Incorreta. A esquizofrenia é citada apenas como uma metáfora de Doctorow para ilustrar o processo de ouvir vozes/personagens, e não como um fator de bloqueio para escritores não vocacionados.

Clique para visualizar este comentário

Visualize os comentários desta questão clicando no botão abaixo