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Q3916742 Português
Atenção: Para responder à questão, baseie-se no texto seguinte.


Arrependimentos


   Pentimento é a palavra italiana para arrependimento, mas designa, em muitas línguas, uma pintura, um desenho ou um esboço encoberto pela versão final de um quadro. Âs vezes, com o passar do tempo, a tinta deixa transparecer uma composição em cima da qual o artista pintou uma nova versão. Outras vezes, os raios X dos restauradores desvendam opções anteriores, que permaneceram debaixo da obra final. Esses esboços ou pinturas, que o artista rejeitou e encobriu, são os pentimentos, que foram descartados sem ser propriamente apagados.

   Visível ou não, o pentimento faz parte do quadro, assim como fazem parte da nossa vida muitas tentações e muitos projetos dos quais desistimos. São restos do passado que, escondidos e não apagados, transparecem no presente, como potencialidades que não foram realizadas, mas que, mesmo assim, integram a nossa história.

   A vida é abarrotada de caminhos que deixamos de trilhar; são todos pentimentos encobertos, histórias que não se realizaram. Por que não se realizaram? Em geral, pensamos que nos faltou coragem: não soubemos renunciar às coisas das quais era necessário abdicar para que outras escolhas tivessem uma chance. E é verdade que, quase sempre, desistimos de desejos, paixões e sonhos porque custamos a aceitar que nada se realiza sem perdas: por não querermos perder nada, acabamos perdendo tudo.

   O problema dos pentimentos é que eles esvaziam a vida que temos. O passado que não se realizou funciona como a miragem da felicidade que teria sido possível se tivéssemos feito a escolha "certa". Diante disso, de que adianta qualquer experiência presente? Os pentimentos podem ser maus conselheiros, até porque muitas vezes nós os inventamos como desculpas para os fracassos do presente. Hoje, é fácil esbarrar em espectros do passado: as redes sociais proporcionam reencontros improváveis e, com isso, criam pentimentos artificiais. Por conta da ação das redes, uma história que foi realmente apagada da memória (não apenas encoberta) pode renascer, como se representasse uma grande potencialidade à qual teríamos renunciado. Os falsos pentimentos, revisitados, são pequenas receitas para o desastre.


(Adaptado de: CALLIGARIS, Contardo. Aproveitar a vida e suas dores. São Paulo: Planeta do Brasil, 2025, pp. 25-27, passim)
Considerando-se o contexto, traduz-se adequadamente o sentido de um segmento do texto em:
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: E

Fundamento decisivo: A questão cobra equivalência semântica contextual de um segmento figurado. No trecho “Hoje, é fácil esbarrar em espectros do passado: as redes sociais proporcionam reencontros improváveis e, com isso, criam pentimentos artificiais.”, “esbarrar em” indica deparar-se com algo que retorna, e “espectros do passado” remete a figuras, lembranças ou fantasmas pretéritos; por isso, a alternativa E é a única que preserva esse sentido no contexto.

Tema central: equivalência semântica contextual
Análise das alternativas
A
Errada
“Desvendam opções anteriores” significa revelam, trazem à luz opções feitas antes. “Instituem escolhas prévias” troca esse núcleo semântico por outro incompatível: instituir é estabelecer, não revelar.
B
Errada
“Potencialidades que não foram realizadas” indica possibilidades latentes que não se concretizaram. “Energias apenas disseminadas” muda o campo semântico: nem traduz “potencialidades” como possibilidades de vida, nem preserva a ideia de não realização.
C
Errada
“Para que outras escolhas tivessem uma chance” expressa finalidade de viabilização. “Em função de opções alternadas” introduz outro valor semântico, de causa ou referência genérica, e ainda não equivale a “outras escolhas”.
D
Errada
“funciona como a miragem da felicidade” significa atuar como ilusão de uma felicidade possível. “opera ao modo de uma insinuação feliz” deturpa o sentido de “miragem”, porque elimina o traço decisivo de ilusão.
E
Certa
A alternativa E mantém adequadamente o sentido global do segmento, preservando o campo metafórico de retorno do passado. No texto, os “espectros do passado” se ligam aos reencontros improváveis e à possibilidade de histórias renascerem, o que sustenta a ideia de antigos fantasmas da memória. Embora “confrontar com” não reproduza exatamente o matiz de “esbarrar em”, é a paráfrase mais próxima entre as opções dadas.
Pegadinha da questão
A banca explora trocas de palavras aparentemente próximas, mas que alteram o núcleo do sentido: revelar vira instituir, potencialidade vira energia, finalidade vira causa e miragem vira insinuação. Só a leitura contextual evita esse erro.
Dica para questões semelhantes
  • Verifique se a paráfrase preserva o sentido do trecho no contexto, não apenas por semelhança vocabular isolada.
  • Em expressões figuradas, mantenha o campo metafórico original; aqui, o passado reaparece como espectro, fantasma, reencontro.
  • Observe se a reformulação mantém a mesma relação semântica do original, como finalidade em “para que”.

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Comentários

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  • Segmento original: "...é fácil esbarrar em espectros do passado"
  • Tradução proposta: "...é comum confrontar com antigos fantasmas"
  • Por que está correta? No contexto do 4º parágrafo, Calligaris utiliza "espectros" para se referir a lembranças ou pessoas do passado que reaparecem (especialmente via redes sociais). "Espectro" e "fantasma" são sinônimos diretos nesse sentido figurado. Além disso, "esbarrar" guarda a ideia de um encontro não planejado, traduzido adequadamente por "confrontar com" no sentido de "deparar-se".

Justificativa da alternativa D não ser a correta: "insinuar" significa dizer algo de maneira indireta, dar a entender algo, logo, não conserva o mesmo sentido de "miragem", que é uma ilusão, ou seja, nesse contexto, uma felicidade que parece real.

A alternativa correta é:

✅ E) é fácil esbarrar em espectros do passado = é comum confrontar com antigos fantasmas.

✔ Explicação:

  • “esbarrar em espectros do passado” → significa encontrar, de forma inesperada, lembranças ou situações antigas que retornam.
  • “confrontar com antigos fantasmas” → traduz bem essa ideia de reencontro com algo do passado que ainda nos afeta.

Portanto, há equivalência de sentido entre as expressões.

❌ Por que as outras estão erradas:

A) desvendam opções anteriores = instituem escolhas prévias

  • “desvendam” = revelam, descobrem
  • “instituem” = criam, estabelecem

Troca o sentido completamente (revelar ≠ criar).

B) potencialidades que não foram realizadas = energias apenas disseminadas

  • “potencialidades não realizadas” = possibilidades que não se concretizaram
  • “energias disseminadas” = algo espalhado, sem foco

Não corresponde ao sentido de “possibilidade não concretizada”.

C) para que outras escolhas tivessem uma chance = em função de opções alternadas

  • No texto: ideia de dar oportunidade a outras escolhas
  • Na alternativa: ideia vaga de “opções alternadas” (sem sentido de oportunidade)

Perde o sentido principal de “ter chance”.

D) funciona como a miragem da felicidade = opera ao modo de uma insinuação feliz

  • “miragem” = ilusão, algo enganoso
  • “insinuação feliz” = algo positivo, sugestivo

Inverte o sentido (ilusão ≠ algo positivo).

A questão pede a tradução adequada do sentido de segmentos do texto. O segredo aqui é não olhar apenas para a palavra isolada, mas para o que ela representa na metáfora do autor.

  • A) "desvendam opções anteriores" = instituem escolhas prévias.
  • Erro: "Desvendar" é revelar o que já existe (no caso, as pinturas por baixo da tela). "Instituir" significa estabelecer ou criar algo novo. São ações opostas.
  • B) "potencialidades que não foram realizadas" = energias apenas disseminadas.
  • Erro: O texto fala de caminhos que não trilhamos (potencialidades). "Energias disseminadas" sugere algo que foi espalhado ou distribuído, o que foge do sentido de "coisas que poderiam ter sido, mas não foram".
  • C) "para que outras escolhas tivessem uma chance" = em função de opções alternadas.
  • Erro: "Opções alternadas" sugere um revezamento (uma hora uma, outra hora outra). O texto diz que precisamos abdicar de algo para que novas/diferentes escolhas surjam.
  • D) "funciona como a miragem da felicidade" = opera ao modo de uma insinuação feliz.
  • Erro: "Miragem" aqui tem tom negativo: uma ilusão enganosa sobre o passado. "Insinuação feliz" traz uma conotação positiva e leve que não condiz com o peso do arrependimento tratado no parágrafo.
  • E) "é fácil esbarrar em espectros do passado" = é comum confrontar com antigos fantasmas.
  • ACERTO: Esta é a substituição perfeita para a FCC. "Esbarrar" equivale a encontrar/confrontar inesperadamente. "Espectros" (vultos, sombras) são metaforicamente os "fantasmas" de quem já fomos ou do que vivemos. O sentido de algo que ressurge do passado é mantido integralmente.

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