O Texto I constrói uma reflexão sobre o tempo e o envelhecim...

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Q3988357 Português
TEXTO I


Deixem a gente ter o privilégio de envelhecer em paz - Lya Luft



    No mês de setembro, ocorre a maioria dos aniversários de minha família: eu mesma, netas, filho, irmão, além dos que já se foram, como mãe e avó materna, sem contar os amigos. Suponho que tenhamos sido inventados nos cálidos meses de verão. Tenho, em relação ao correr do tempo, não amargura ou medo real, mas curiosidade – desde quando, menina mimada, bati o pé porque queria alguma coisa “agora”. Algum adulto presente achou graça e resolveu liquidar a minha manhã: “Deixa de ser boba, o agora nem existe”.

        Iniciou-se um diálogo surreal: a menina curiosa e teimosa insistia em saber que história era aquela. Explicaram que o tempo passa constantemente, de modo que, quando pronunciamos a última letra da palavra “agora”, esse agora já é passado. Obstinada, várias vezes tentei pensar a palavra “agora” empilhando as letras numa coisa só – mas desisti.

       Então, a cada momento, tudo passava, mudava e já era outro? Eu já era outra? Comecei a me angustiar, eu me angustiava com coisas que pouco tinham a ver com crianças, que, segundo adultos de então, deviam brincar, comer, dormir e se portar bem. Ainda por cima, alguém com humor macabro me alertou: “O tempo só para de passar quando a gente morre”. (Assunto para outra crônica.)

      Sempre tive vontade de ser adulta: achava a vida e os assuntos dos “grandes” muito mais interessantes do que os infantis. Detestava ser comandada, numa época de educação bastante severa: por que ir para a cama às sete e meia? Por que só comer comidinha inocente, como purê de batata e carne de frango? Por que não falar muito à mesa? Por que ter de aprender prendas domésticas como toda boa menina? Eu não queria ser uma boa menina: queria ser a Emília do Monteiro Lobato.

        Aí fui vendo que a passagem do tempo não apenas significava transformação e novidades (parte boa para quem facilmente se entediava), mas também perdas, e para muitos o terror da perda da juventude. Tornou-se uma epidemia a busca desesperada por deter a qualquer custo os sinais do tempo: parecer trinta aos sessenta, ter lábios sensuais aos setenta – vale a pena?

       A velhice (desde que não com o detestável nome de melhor idade) é uma fase natural da vida – um dom a ser curtido. Dor e doença não escolhem idade. Nem sempre a juventude é linda. No avançar do tempo, importa preservar certa elegância (quando dá…) e cultivar o bom humor (quando possível…). [...]

      Que se arrume o que nos incomoda, mas dentro de alguma normalidade. Deixem a gente ter o privilégio de envelhecer em paz, que a gente vai tentar não ficar ainda por cima rabugenta. E quem sabe o rio do tempo desemboca em algum mistério mais interessante do que nossas trapalhadas de agora? 


Fonte: LUFT, Lya. Deixem a gente ter o privilégio de envelhecer em paz. Disponível em: https://50emais.com.br/lya-luft-deixem-a-gente-ter-o-privilegio-deenvelhecer-em-paz/ Acesso em: 08 fev. 2026 [Fragmento].
O Texto I constrói uma reflexão sobre o tempo e o envelhecimento. Considerando o desenvolvimento das ideias ao longo do texto, é CORRETO afirmar que se defende:
Alternativas

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Gabarito: E

Fundamento decisivo: O critério decisivo é a identificação da tese defendida pela progressão argumentativa do texto: a autora opõe a "busca desesperada por deter a qualquer custo os sinais do tempo" à afirmação de que "A velhice (desde que não com o detestável nome de melhor idade) é uma fase natural da vida – um dom a ser curtido" e à conclusão "Deixem a gente ter o privilégio de envelhecer em paz". Assim, deve-se reconhecer a alternativa que sintetiza essa posição sem inverter o sentido do envelhecimento.

Tema central: tempo e envelhecimento
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque distorce o sentido do texto com generalização indevida: fala em "apenas perdas e frustrações" e em período negativo para "todas as pessoas". O texto reconhece perdas, mas também menciona "transformação e novidades" e conclui positivamente que a velhice é "uma fase natural da vida – um dom a ser curtido". Portanto, a alternativa isola um aspecto parcial e o transforma indevidamente na tese do texto.
B
Errada
Está errada porque troca a crítica da autora por uma defesa que o texto não faz. Em vez de recomendar combate estético ao envelhecimento, o texto condena a "busca desesperada por deter a qualquer custo os sinais do tempo". A frase "Que se arrume o que nos incomoda, mas dentro de alguma normalidade" admite cuidado moderado, não a ideia de que recursos estéticos sejam necessários nem de que garantam bem-estar.
C
Errada
Está errada por contradição direta com o texto. A autora rejeita preservar a juventude "a qualquer custo" e ainda relativiza seu valor ao afirmar: "Nem sempre a juventude é linda". Assim, o texto não sustenta que a juventude seja a fase mais importante da vida nem que deva ser mantida por qualquer artifício.
D
Errada
Está errada por extrapolação sem apoio textual. O texto não trata o envelhecimento como problema social a ser resolvido por ciência ou medicina. A abordagem é outra: apresenta o envelhecimento como processo natural da vida e discute a pressão estética e a necessidade de envelhecer com aceitação e paz.
E
Certa
A alternativa E está correta porque sintetiza a posição defendida pela autora ao longo do texto. A velhice é apresentada como "uma fase natural da vida – um dom a ser curtido", e a conclusão reforça essa ideia ao pedir: "Deixem a gente ter o privilégio de envelhecer em paz". Além disso, o texto critica a "busca desesperada por deter a qualquer custo os sinais do tempo", o que mostra recusa à submissão aos padrões estéticos de juventude. A menção a "Que se arrume o que nos incomoda, mas dentro de alguma normalidade" confirma que a autora admite cuidados moderados, sem transformar isso em combate ao envelhecimento.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre o que o texto critica e o que o texto defende: quem isola as referências a perdas ou à obsessão social pela juventude pode marcar uma alternativa que inverte a tese final da autora.
Dica para questões semelhantes
  • Localize os trechos em que o autor formula julgamento explícito; eles costumam revelar a tese central com mais segurança do que passagens narrativas ou concessivas.
  • Não transforme um aspecto parcial do texto em sentido total: se o texto menciona perdas, verifique como ele conclui essa reflexão.
  • Diferencie admitir cuidados moderados de defender combate ao envelhecimento; a presença de concessão não elimina a tese principal.
  • Em alternativas de interpretação global, confira se a resposta acompanha a progressão argumentativa inteira, especialmente a conclusão.

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