O autor do texto considera que, em muitas histórias, certo...

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Q209327 Português
Os anônimos

   
 Na história de Branca de Neve, a rainha má consulta o seu espelho e pergunta se existe no reino uma beleza maior do que a sua. Os espelhos de castelo, nos contos de fada, são um pouco como certa imprensa brasileira, muitas vezes dividida entre as necessidades de bajular o poder e de refletir a realidade. O espelho tentou mudar de assunto, mas finalmente respondeu: “Existe". Seu nome: Branca de Neve.
     A rainha má mandou chamar um lenhador e instruiu-o a levar Branca de Neve para a floresta, matá-la, desfazer-se do corpo e voltar para ganhar sua recompensa. Mas o lenhador poupou Branca de Neve. Toda a história depende da compaixão de um lenhador sobre o qual não se sabe nada. Seu nome e sua biografia não constam em nenhuma versão do conto. A rainha má é a rainha má, claramente um arquétipo, e os arquétipos não precisam de nome. O Príncipe Encantado, que aparecerá no fim da história, também não precisa. É um símbolo reincidente, talvez nem a Branca de Neve se dê ao trabalho de descobrir seu nome. Mas o personagem principal da história, sem o qual a história não existiria e os outros personagens não se tornariam famosos, não é símbolo de nada. Ele só entra na trama para fazer uma escolha, mas toda a narrativa fica em suspenso até que ele faça a escolha certa, pois se fizer a errada não tem história. O lenhador compadecido representa dois segundos de livre-arbítrio que podem desregular o mundo dos deuses e dos heróis. Por isso é desprezado como qualquer intruso e nem aparece nos créditos.
     Muitas histórias mostram como são os figurantes anônimos que fazem a história, ou como, no fim, é a boa consciência que move o mundo. Mas uma das pessoas do grupo em que conversávamos sobre esses anônimos discordou dessa tese, e disse que a entrada do lenhador simbolizava um problema da humanidade, que é a dificuldade de conseguir empregados de confiança, que façam o que lhes for pedido.


(Adaptado de Luiz Fernando Verissimo, Banquete com os deuses) 
O autor do texto considera que, em muitas histórias, certos personagens anônimos
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: D

Fundamento decisivo: O critério decisivo é a tese do texto de que personagens anônimos podem ser, ao mesmo tempo, apagados e determinantes para a narrativa. Isso aparece no trecho: "Mas o personagem principal da história, sem o qual a história não existiria..." e é reforçado por "Muitas histórias mostram como são os figurantes anônimos que fazem a história". Esse critério exclui as alternativas que atribuem simbolismo, acaso, irrelevância ou equiparação indevida.

Tema central: anônimos na narrativa
Análise das alternativas
A
Errada
A alternativa erra em dois pontos centrais. Primeiro, atribui caráter simbólico ao personagem anônimo, mas o texto diz expressamente que ele "não é símbolo de nada". Segundo, chama esse personagem de secundário para o desenvolvimento da trama, quando o autor afirma exatamente o contrário: sem ele, "a história não existiria".
B
Errada
A alternativa troca o sentido textual de livre-arbítrio por acaso ou destino. O texto define o lenhador como alguém que faz uma escolha decisiva: "toda a narrativa fica em suspenso até que ele faça a escolha certa" e ainda fala em "dois segundos de livre-arbítrio". Portanto, não se trata de desordem do acaso nem de destino escolhido pelos deuses.
C
Errada
A alternativa é incompatível com a oposição construída pelo texto entre arquétipos/símbolos e o personagem anônimo. O Príncipe Encantado é citado como "símbolo reincidente"; já o lenhador é explicitamente separado desse grupo, pois o autor afirma que ele "não é símbolo de nada". Logo, não há equiparação possível entre ambos.
D
Certa
A alternativa D está correta porque preserva a ideia central do texto: certos personagens anônimos aparecem como figurantes apagados, mas têm papel decisivo no enredo. O autor afirma que a história depende da compaixão do lenhador e amplia essa observação ao dizer que "Muitas histórias mostram como são os figurantes anônimos que fazem a história". Assim, a opção D combina relevância estrutural com obscuridade narrativa.
E
Errada
A alternativa inverte a relação causal apresentada no texto. O personagem não se torna irrelevante após agir; sua ação é justamente a condição para a sequência narrativa existir. O autor afirma que a narrativa depende da escolha do lenhador e que, se ele fizesse a escolha errada, "não tem história". Portanto, os eventos não são independentes de sua participação.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre aparecer como figurante e ser irrelevante. O texto faz justamente o contrário: mostra que o personagem anônimo, embora apagado e sem créditos, é quem torna a história possível.
Dica para questões semelhantes
  • Em questões de interpretação, procure a frase em que o autor generaliza a ideia do exemplo particular; aqui, a tese se amplia em "Muitas histórias mostram...".
  • Se a alternativa atribuir simbolismo, confira se o texto realmente autoriza isso; nesta questão, há negação expressa: o personagem "não é símbolo de nada".
  • Não confunda pouco tempo de aparição com pouca função narrativa; o texto pode atribuir ao personagem breve uma importância estrutural decisiva.

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Comentários

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GAB: D

O trecho que ratifica a resposta é:
 

"Mas o personagem principal da história, sem o qual a história não existiria e os outros personagens não se tornariam famosos, não é símbolo de nada. Ele só entra na trama para fazer uma escolha, mas toda a narrativa fica em suspenso até que ele faça a escolha certa, pois se fizer a errada não tem história. O lenhador compadecido representa dois segundos de livre-arbítrio que podem desregular o mundo dos deuses e dos heróis. Por isso é desprezado como qualquer intruso e nem aparece nos créditos. "

Bom estudo para todos! 

"toda a história depende da compaixão de um lenhador sobre o qual não se sabe nada". 

 

por isso que a letra D é a resposta. 

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