Viu-se na rua, sem saber para onde ir, tendo por única
fortuna uma bacia de barbear embaixo do braço, um par de
navalhas e outro de lancetas na algibeira. Verdade é que quem
tinha consigo estes trastes estava com as armas e uniforme do
ofício; porém isso não bastava; o pobre rapaz estava em apertos.
(...)
No largo do Paço um marujo que estava sentado em uma
pedra junto ao mar chamou-o para que lhe fizesse a barba: mãos
à obra, que já naquele dia não morria de fome.
Todo barbeiro é tagarela, e principalmente quando tem
pouco que fazer; começou portanto a puxar conversa com o
freguês. Foi a sua salvação e fortuna.
O navio a que o marujo pertencia viajava para a Costa e
ocupava-se no comércio de negros; era um dos comboios que
traziam fornecimento para o Valongo, e estava pronto a largar.
— Ó mestre! disse o marujo no meio da conversa, você
também não é sangrador?
— Sim, eu também sangro...
— Pois olhe, você estava bem bom, se quisesse ir
conosco... para curar a gente a bordo; morre-se ali que é uma
praga.
— Homem, eu da cirurgia não entendo muito...
— Pois já não disse que sabe também sangrar?
— Sim...
— Então já sabe até demais.
No dia seguinte saiu o nosso homem pela barra fora: a
fortuna tinha-lhe dado o meio, cumpria sabê-lo aproveitar; de
oficial de barbeiro dava um salto mortal a médico de navio
negreiro; restava unicamente saber fazer render a nova posição.
Isso ficou por sua conta.
Manuel Antônio de Almeida. Memórias de um sargento de milícias.
São Paulo: Ática, 2001, p. 43.
O romance Memórias de um sargento de milícias foi publicado
entre 1852 e 1853, mas os fatos narrados se passam em um
período anterior, compreendido entre 1808 e 1820. Considerando
essa informação e o trecho do romance apresentado
anteriormente, assinale a opção correta em relação a essa obra no
contexto da literatura brasileira.
Incorreta. Gabarito oficial da banca:
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