Considerando-se como a doença é comum, como é
enorme a alteração espiritual que ela provoca e como são
surpreendentes, quando as luzes da saúde estão fracas, as terras
ainda não descobertas que então se revelam — quando pensamos
em tudo isso e infinitamente mais, parece realmente estranho que
a doença não tenha encontrado o seu lugar, junto com o amor, o
ciúme e a batalha, entre os principais temas da literatura. Alguns
romances, ocorreria a alguém pensar, seriam dedicados à gripe;
poemas épicos, à febre tifoide; odes, à pneumonia; breves
poemas, à dor de dente. Mas não; com poucas exceções, a
literatura faz tudo o que pode para sustentar que sua preocupação
é com a mente, que o corpo é uma placa de vidro liso, pela qual
passa o olhar direto e claro da alma, e que o corpo, exceto no que
toca a uma ou duas paixões, como o desejo e a ambição, é nulo,
negligenciável e inexistente.
Mas justamente o contrário disso é que é verdade. O dia
todo e a noite inteira, o corpo interfere; embaça ou aclara, colore
ou descolore, transforma-se em cera no calor de junho, adensa-se
em sebo na escuridão de fevereiro. A criatura que vai dentro só
pode olhar pela placa, encardida ou rósea; não pode, nem por um
instante, separar-se do corpo como a bainha da faca ou a vagem
do grão; tem de passar por toda a infinita sucessão de mudanças,
calor e frio, conforto e desconforto, fome e satisfação, saúde e
doença, até que ocorra a inevitável catástrofe: o corpo se parte
em cacos, e a alma (é o que se diz) escapa.
No entanto, de todo esse drama cotidiano do corpo não há
registro algum. Todos sempre escrevem sobre os afazeres da
mente; as ideias que lhe vêm; seus nobres planos; como ela
civilizou o universo. Mostram-na ignorando o corpo na torrinha
do filósofo, ou chutando o corpo, como uma velha bola de
futebol de couro, por extensões de neve e deserto em busca de
descoberta ou conquista. As grandes guerras que ele trava por si,
com a mente como sua escrava, na solidão do quarto, contra o
ataque de febre ou o avanço da melancolia, são esquecidas.
Virginia Woolf. O valor do riso e outros ensaios.
Tradução: Leonardo Fróes. São Paulo: Cosac Naify, 2014 (com adaptações).
Mantendo-se o grau de formalidade, a correção gramatical e os
sentidos do texto Sobre estar doente, o termo “há” (primeiro
período do terceiro parágrafo) poderia ser substituído por
Incorreta. Gabarito oficial da banca:
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