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Q4377290 Português
A demência é o pior desafio do envelhecimento


    No Brasil, a faixa etária que mais cresce é a dos que estão acima dos 65 anos. Em números arredondados: em 2010 eram 20 milhões, contingente que aumentou para 22 milhões no Censo de 2022.
    Os demógrafos definem o índice de envelhecimento dividindo o número de habitantes com mais de 65 anos pelo de crianças entre zero e 14 anos. Em 2010, o índice era de 30%, ou seja, 30 pessoas com mais de 65 anos para cada 100 crianças. Em 2022, esse índice subiu para 55%.
   Graças à redução da fecundidade e dos nascimentos, a pirâmide etária no Brasil começou a mudar de formato a partir dos anos 1990. A base foi se alargando com o passar dos anos, como aconteceu nos países mais ricos. A diferença é que neles as mudanças ocorreram em mais de 60 anos; aqui, em metade desse tempo.
    O envelhecimento dos brasileiros é visível nas ruas e no ambiente familiar. Em meados do século 19, Machado de Assis descreveu "um velho gaiteiro de cinquenta anos" num de seus contos. Hoje, quando perdemos um parente de 70 anos, dizemos que morreu moço. O envelhecimento interfere na organização da sociedade. A Previdência Social terá condições de pagar aposentadorias mensais até os 90 anos, enquanto o número dos que chegam ao mercado de trabalho não para de diminuir? As empresas continuarão a considerar velhos e demitir funcionários de 50 ou 60 anos?
    Na área da saúde, as consequências poderão ser trágicas. Os brasileiros envelhecem mal: quando chegam aos 60 anos, mais da metade sofre de hipertensão arterial; o número de pessoas com diabetes deve andar perto dos 20 milhões; os índices de obesidade com seu cortejo de complicações aumentam a cada pesquisa do Vigitel.
    Nessa faixa etária, é cobrada a conta do fumo, do abuso de álcool e de drogas ilícitas, do sedentarismo e do consumo de alimentos ultraprocessados. Hoje, cerca de 80% dos atendimentos no SUS são de problemas crônicos que requerem controle pelo resto da vida. Doenças cardiovasculares e câncer são as principais causas de óbito. Criado no fim dos anos 1980, o sistema único não foi pensado para lidar com essa realidade.
      Estamos preparados para enfrentar problemas dessa magnitude? Claro que não. Se o Japão, a Suécia e a Finlândia não estão, nós, neste país continental com tantas diferenças regionais, baixo nível educacional e distribuição de renda imoral, é que estaríamos?
     De todos os desafios do envelhecimento, nenhum se compara ao das demências, tragédia que cai nos ombros dos familiares sem que o SUS esteja preparado para ajudá-los. Uma pessoa incapaz de se vestir, tomar banho, comer sozinha ou entender o que se passa ao redor exige cuidados dia e noite, geralmente a cargo de uma mulher da família, obrigada a **interromper a carreira e a vida pessoal **por anos consecutivos.


Autor: Drauzio Varella - GZH (adaptado)
A organização argumentativa do texto permite concluir que a menção ao crescimento da população idosa, às transformações no mercado de trabalho, às doenças crônicas e à sobrecarga familiar converge para uma tese segundo a qual:
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: B

Fundamento decisivo: “De todos os desafios do envelhecimento, nenhum se compara ao das demências, tragédia que cai nos ombros dos familiares sem que o SUS esteja preparado para ajudá-los.” A expressão “De todos os desafios” delimita a comparação, e “nenhum se compara” explicita a hierarquia; como o enunciado pede a tese global, isso direciona à alternativa B.

Tema central: Tese global e hierarquia argumentativa
Análise das alternativas
A
Errada
Estabelece uma hierarquia de causas que o texto não apresenta: não há sustentação para considerar a ampliação da expectativa de vida a causa principal e a queda da fecundidade um fator secundário. Ao contrário, o autor afirma: “Graças à redução da fecundidade e dos nascimentos, a pirâmide etária no Brasil começou a mudar de formato a partir dos anos 1990.” Além disso, a alternativa substitui a síntese das consequências sociais por uma explicação das causas demográficas.
B
Certa
A alternativa B integra os impactos sobre a Previdência, o mercado de trabalho, a saúde e a vida familiar na expressão “desafios estruturais amplos”. Ao apresentar as demências como expressão particularmente grave desses desafios, preserva o destaque final do autor sem excluir os demais problemas desenvolvidos no texto.
C
Errada
A expressão “restringir-se à assistência médica especializada” reduz indevidamente o alcance dos efeitos discutidos. As referências ao pagamento de aposentadorias, às demissões de trabalhadores e à sobrecarga familiar mostram que as consequências ultrapassam a assistência médica.
D
Errada
A caracterização da longevidade como “conquista social consolidada” não é sustentada pelo texto. O termo “exclusivamente” também contradiz a diversidade de problemas trabalhistas, sanitários e familiares apresentados. Além disso, o autor questiona a capacidade futura da Previdência de pagar aposentadorias; não afirma categoricamente uma insuficiência financeira comprovada.
Pegadinha da questão
Confundir o destaque dado às demências com a exclusão dos demais desafios. A formulação “De todos os desafios” incorpora os outros problemas à argumentação e, ao mesmo tempo, estabelece uma hierarquia de gravidade.
Dica para questões semelhantes
  • Verifique se a síntese abrange as diferentes esferas desenvolvidas no texto, em vez de selecionar apenas um argumento.
  • Preserve a hierarquia expressa pelo autor: destacar um problema como mais grave não significa apresentá-lo como único.
  • Confira se termos como “principalmente”, “restringir-se” e “exclusivamente” têm sustentação textual.
  • Diferencie uma preocupação formulada como pergunta de uma afirmação categórica sobre a existência do problema.

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