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Q3413299 Português

TEXTO I

Pais e filhos: tão perto, tão longe


    A sociedade contemporânea se assenta, segundo vários pensadores das ciências humanas, por uma polaridade: de um lado o excesso, de outro a falta. No entanto, há muitos anos a psicanálise nos ensina: todo excesso esconde uma falta.

    Vivemos um momento sócio-histórico de excessos de trabalho, compromissos, desejos, expectativas e estímulos que atingem indistintamente crianças, adolescentes e adultos. Vivemos ocupados, com agendas cheias de cursos, reuniões, compromissos e atividades extracurriculares. Não há tempo a perder e nunca antes tivemos tanto a sensação de estarmos correndo em busca do tempo perdido. A excelência de desempenho acompanha a todos na escola, no trabalho, nos demais ambientes em que estamos inseridos. Estamos conectados permanentemente e devemos estar disponíveis todo o tempo.

    Esse ambiente de estimulação e exigências constantes, no qual às vezes damos conta das demandas que nos são impostas por nós mesmos ou pelo outro, e outras vezes não, tem uma única consequência a todos: a exaustão.

    Exaustos, ao chegarmos a casa, só queremos ficar mergulhados no nosso mundo, para de certa forma termos (ainda que na nossa fantasia) uma compensação pelas frustrações enfrentadas ao longo do dia. E é nesse ponto que começamos a nos distanciar do nosso parceiro e dos nossos filhos, porque passamos a nos tornar indisponíveis ao outro.

    Educar filhos, formá-los, é tarefa para a vida inteira e exige disposição, tempo, vitalidade e dedicação, e o fato é que, embora na teoria estejamos todos comprometidos com isso, na prática nem sempre estamos dispostos. Terceirizamos essas tarefas para professores, psicólogos, avós e babás. E, quando não temos essas pessoas à disposição, silenciamos as crianças dando-lhes a possibilidade de passar horas diante de alguma telinha: se antes era a televisão, hoje vemos crianças em idades cada vez mais precoces com um Ipad na mão. Não queremos ser perturbados no nosso mundo, no nosso silêncio e, sem percebermos, vamos criando abismos nas nossas relações.



(Valdeli Vieira Pais e filhos: tão perto, tão longe (adaptado) REVISTA E: https://www.sescsp.org.br/online/artigo/13291_PAISEFILHOS.)

Levando-se em consideração as regras gramaticais da Língua Portuguesa, percebe-se como correta a elaboração do seguinte fragmento retirado do Texto I: “Exaustos, ao chegarmos a casa, só queremos ficar mergulhados no nosso mundo...”. A partir disso, analise as reescritas abaixo e assinale aquela que, embora possa alterar o sentido inicial do texto, manteve a correção gramatical quanto ao uso ou não da Crase.
Alternativas

Gabarito comentado

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TEMA CENTRAL DA QUESTÃO:
A questão exige o conhecimento das regras de uso da crase, isto é, a fusão da preposição “a” com o artigo feminino “a”, formando “à”.

ALTERNATIVA CORRETA – (A)
“Exaustos, ao chegarmos a terra, após horas de navegação, só queremos ficar descansando.”

Nesta frase, “a terra” (no sentido de oposto a “ao mar”) não exige artigo feminino necessariamente. O verbo “chegar” exige a preposição “a” (“chegar a algum lugar”), porém, como “terra” é usada aqui genericamente, o artigo não está obrigatoriamente presente, logo não ocorre crase.
Regra: Não se usa crase antes de palavras femininas empregadas sem o artigo ou de sentido indeterminado.

ANÁLISE DAS ALTERNATIVAS INCORRETAS

B) à tempo – Erro grave! “Tempo” é palavra masculina. Jamais ocorre crase antes de nome masculino (Bechara, Moderna Gramática Portuguesa).

C) à nossas casas – Não se usa crase antes de pronome possessivo no plural (“nossas”). A crase só pode ocorrer antes de possessivo feminino no singular e mesmo assim é facultativa.

D) “a casa de um amigo” – Neste caso, como a expressão está especificada (casa de um amigo), normalmente não se usa o artigo, então não há crase. Porém, apesar de gramaticalmente aceitável, o contexto favorece a alternativa A, pois segue mais de perto a estrutura original do texto.

E) à qualquer terra desconhecida – Jamais existe crase antes de pronome indefinido (“qualquer”), pois não há artigo feminino antes deste tipo de palavra.

REGRA RESUMIDA*:
“Haverá crase quando houver a fusão da preposição ‘a’ com o artigo feminino ‘a’. Não ocorre crase antes de palavras masculinas, verbos, pronomes em geral, nomes de cidade sem artigo, e antes de palavras no plural precedidas de artigo no singular” (Cunha & Cintra; Bechara).

DICA PARA A PROVA: Sempre “teste” se cabe “ao” ou “à” trocando por correspondentes masculinos:
- Se diríamos “ao chefe”, use “à chefe”; se não, não coloque crase!

Referências: Bechara, Evanildo; Cunha & Cintra; Manual de Redação da Presidência da República.

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Comentários

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O verbo chegar nesse caso é intransitivo, portanto não faz regência de nenhum pronome.

  • Sentido de “chão, solo” (uso genérico) → não leva crase
  • “Voltou a terra depois da viagem.” (sentido: chão firme)
  • Quando especificada ou acompanhada de artigo → leva crase
  • “Voltou à Terra após meses no espaço.” (Terra = planeta)
  • “Voltou à terra natal.”

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