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Q3413292 Português

TEXTO I

Pais e filhos: tão perto, tão longe


    A sociedade contemporânea se assenta, segundo vários pensadores das ciências humanas, por uma polaridade: de um lado o excesso, de outro a falta. No entanto, há muitos anos a psicanálise nos ensina: todo excesso esconde uma falta.

    Vivemos um momento sócio-histórico de excessos de trabalho, compromissos, desejos, expectativas e estímulos que atingem indistintamente crianças, adolescentes e adultos. Vivemos ocupados, com agendas cheias de cursos, reuniões, compromissos e atividades extracurriculares. Não há tempo a perder e nunca antes tivemos tanto a sensação de estarmos correndo em busca do tempo perdido. A excelência de desempenho acompanha a todos na escola, no trabalho, nos demais ambientes em que estamos inseridos. Estamos conectados permanentemente e devemos estar disponíveis todo o tempo.

    Esse ambiente de estimulação e exigências constantes, no qual às vezes damos conta das demandas que nos são impostas por nós mesmos ou pelo outro, e outras vezes não, tem uma única consequência a todos: a exaustão.

    Exaustos, ao chegarmos a casa, só queremos ficar mergulhados no nosso mundo, para de certa forma termos (ainda que na nossa fantasia) uma compensação pelas frustrações enfrentadas ao longo do dia. E é nesse ponto que começamos a nos distanciar do nosso parceiro e dos nossos filhos, porque passamos a nos tornar indisponíveis ao outro.

    Educar filhos, formá-los, é tarefa para a vida inteira e exige disposição, tempo, vitalidade e dedicação, e o fato é que, embora na teoria estejamos todos comprometidos com isso, na prática nem sempre estamos dispostos. Terceirizamos essas tarefas para professores, psicólogos, avós e babás. E, quando não temos essas pessoas à disposição, silenciamos as crianças dando-lhes a possibilidade de passar horas diante de alguma telinha: se antes era a televisão, hoje vemos crianças em idades cada vez mais precoces com um Ipad na mão. Não queremos ser perturbados no nosso mundo, no nosso silêncio e, sem percebermos, vamos criando abismos nas nossas relações.



(Valdeli Vieira Pais e filhos: tão perto, tão longe (adaptado) REVISTA E: https://www.sescsp.org.br/online/artigo/13291_PAISEFILHOS.)

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Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito comentado – Interpretação de Texto

Tema central da questão: Interpretação de textos, especialmente sobre identificar a ideia principal do autor, analisando relações de causa e consequência presentes no texto, coesão e coerência textual.

Justificativa da alternativa correta (A):

A alternativa A apresenta a ideia central do texto: a exaustão cotidiana dos pais leva à transferência das responsabilidades de criação dos filhos para terceiros, como professores, avós ou telas digitais. O texto diz: “Exaustos, ao chegarmos a casa, só queremos ficar mergulhados no nosso mundo (...). Terceirizamos essas tarefas para professores, psicólogos, avós e babás. E, quando não temos essas pessoas à disposição, silenciamos as crianças dando-lhes a possibilidade de passar horas diante de alguma telinha...”

Observe que o comando da questão pede a visão da autora sobre o tema: interpretar exige conectar as consequências do excesso do cotidiano à indisponibilidade dos pais, levando ao distanciamento e à terceirização da educação dos filhos. Isso demonstra entendimento da coerência textual — toda a argumentação está voltada a mostrar os “porquês” do distanciamento familiar.

Análise das alternativas incorretas:

B) Propõe “espaço individualizado de descanso”. O texto não defende essa prática como solução; ao contrário, a indisponibilidade é apontada como problema.

C) Diz que todos devem estar conectados constantemente. O texto revela a crítica à exigência de conexão total, não uma defesa.

D) Afirma que a terceirização “agilizou o dia a dia” e trouxe benefícios. A autora escreve com tom crítico à terceirização dos cuidados.

E) Diz que a tecnologia “beneficia pais”. O texto relaciona o uso de telas ao isolamento e silenciamento das crianças, criticando a prática.

Dica de prova: Atenção a palavras avaliativas (“beneficiando”, “devem”, “liberando”) e a termos que alteram sentidos. Busque sempre no texto expressões diretas ou fortemente sugeridas para justificar sua resposta — uma leitura atenta é essencial. Segundo Bechara e Koch, a coerência e coesão são fundamentais para entender o sentido global e evitar dúvidas.

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