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Q1719008 Português
ENTREVISTA COM ENI ORLANDI

     M. S. – Você tem apresentado uma distinção entre a formação e a capacitação no que tange à formação de professores. Nesse sentido, de que forma os pressupostos teóricos da Análise de Discurso podem contribuir para a proposição de uma política de formação para os profissionais de Letras, tanto em nível de graduação, passando pelas chamadas formações continuadas, ofertadas pelas Secretarias de Educação de estados e municípios, quanto no âmbito da pós-graduação? 

     E. O. – A distinção que faço entre formação e capacitação não significa como está significada a palavra formação em “formação continuada”. Ao contrário, é uma noção que procurei formular para abrigar a possibilidade de se pensar em uma prática pedagógica de construção real de conhecimento, e não presa ao imaginário escolar já significado antes mesmo que se estabeleçam relações concretas com os alunos. A distinção básica é a que estabeleço entre a relação do ensino com a informação – capacitação – e com o conhecimento, com o saber – formação. Na capacitação, consumo e cidadania se conjugam. 
 
     Na conjuntura histórica atual, a alfabetização e o desenvolvimento se declinam, então, em “educação e mercado”, em que o mercado exige a qualificação do trabalho, a qualificação do trabalhador: um país educado. Isto significa um país rico em que os cidadãos “educados” são capacitados para o trabalho e circulam como consumidores de um mercado de trabalho qualificado; neste caso, o da capacitação, o denominador comum é o trabalho, e não o conhecimento. Basta a informação, o treinamento. O mercado funciona como uma premissa indefinida para se falar em “sustentabilidade”

     Esta palavrinha traz em seu efeito de memória a de desenvolvimento, que é o que precisamos, segundo o discurso dominante em uma sociedade capitalista, sobretudo em países ditos pobres. A capacitação é a palavra presente constantemente na mídia, na fala de empresários, governantes e... na escola. De nosso ponto de vista, este funcionamento discursivo silencia a força da reivindicação social presente, no entanto, na palavra formação. Pensando politicamente, podemos dizer que a formação, e não a capacitação, pode produzir um aluno “não alienado”. Retomo, aqui, o conceito de K. Marx (1844), segundo o qual a alienação desenvolve-se quando o indivíduo não consegue discernir e reconhecer o conteúdo e o efeito de sua ação interventiva nas formas sociais.

     A análise de discurso pode prover elementos para que a formação, e não a capacitação, seja incentivada como forma de relação com o conhecimento. Já porque suas reflexões juntam sujeito, língua, educação e formação social. Em minhas reflexões, uno a isto uma teorização do sujeito em que se tem os seus modos de individuação, produzidos pela articulação simbólico-política do Estado, através de instituições e discursos. Aí incluo, nesta presente reflexão, a escola e os discursos do conhecimento.

     Consideramos que a educação, e, em particular, o ensino da língua, como parte do que tenho trabalhado como a individuação do sujeito, neste caso, sendo a instituição a escola, poderia, se bem praticado como processo formador do indivíduo na sua relação com o social e o trabalho, dar condições para que este sujeito “soubesse” que sabe a língua e soubesse “ler e escrever”, de forma a, em sua compreensão, ser capaz de dimensionar o efeito de sua intervenção nas formas sociais, com todas as consequências sociais e históricas que isto implica. Em uma palavra, se desalienasse. O que a capacitação não faz, pois o torna apenas um indivíduo bem treinado e, logo, mais produtivo. Isto não o qualifica em seu conhecimento, o que, com a formação, se dá e produz o efeito de tornar esse sujeito mais independente, deixando de ser só mais um instrumento na feitura de um “país rico”. Ele estaria formado para dar mais um passo na direção de não só formular como reformular e ressignificar sua relação com a língua institucionalizada, a da escola, mas também com a sociedade.

     Ao invés de ser apenas um autômato de uma empresa (com a capacitação), poderia ser um sujeito em posição de transformar seu próprio conhecimento, compreender suas condições de existência na sociedade e resistir ao que o nega enquanto sujeito social e histórico. Tudo isto, se pensamos na formação - desde a educação básica, como o ensino superior – leva-nos a dizer que há modos de formar sujeitos preparados para descobertas e para inovações. Sujeitos bem formados que podem “pensar por si mesmos”, tocando o real da língua em seu funcionamento e o da história, no confronto com o imaginário que o determina.

ORLANDI, EniPulccinelli. Entrevista com EniOrlandi. [Entrevista
concedida a Maristela Cury Sarian] Pensares em Revista, São Gonçalo
– RJ, n. 17, p. 8-17, 2020. (Fragmento).
No texto, o elemento linguístico “desalienasse” em: ‘Em uma palavra, se desalienasse” corrobora:
Alternativas

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Comentário da Questão – Interpretação de Texto

Tema central: A questão exige interpretação de texto, com reflexão sobre os conceitos de formação, capacitação e alienação a partir de recorte discursivo de Eni Orlandi. O comando pede a relação de sentido provocada pelo termo “desalienasse”.

Fundamentação: Orlandi, apoiando-se na teoria marxista, distingue capacitação (apenas treino para o trabalho, para consumo, que não emancipa) de formação (processo de construção efetiva do conhecimento, que permite ao indivíduo repensar, atuar socialmente e reconhecer o sentido de seu fazer). O termo “desalienasse” refere, no texto, ao processo pelo qual o aluno deixa de ser mero reprodutor, tornando-se sujeito crítico, ativo e capaz de compreender-se na sociedade — efeito esperado da formação.

Alternativa correta: C – “A prática de ensino de língua como um fazer focado na formação do indivíduo.” Ao defender que a formação produz sujeitos não alienados, Orlandi se opõe à lógica da simples capacitação, enfatizando a prática pedagógica voltada à formação integral, crítica e consciente. Utiliza, inclusive, referência a Marx para fundamentar a superação da alienação via formação real.

Análise das alternativas incorretas:

A) Limita o conceito de alienação à simples incompreensão escolar, quando o texto trata de condição mais ampla, de natureza social e histórica.

B) Apesar de citar Marx, não explicita o papel do ensino focado na formação para superar a alienação — questão central ao uso de “desalienasse”.

D) Defende a capacitação, exatamente criticada por Orlandi como incapaz de desalienar o sujeito.

E) Sugerindo proximidade entre capacitação e formação, contradiz a oposição taxativa feita pela autora no texto.

Estratégia de resolução: Em questões de interpretação, busque sempre:

  • Identificar palavras-chave que estruturam os argumentos;
  • Observar contrastes (ex.: formação × capacitação);
  • Relacionar conceitos do texto com as alternativas (ex.: alienação/desalienação e formação/capacitação).

Nas palavras de Celso Cunha e Lindley Cintra: “A compreensão do texto vai além do que está explícito, sendo necessário capturar as relações de sentido entre as ideias apresentadas”.

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Comentários

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GABARITO C A prática de ensino de língua como um fazer focado na formação do indivíduo.

 " Consideramos que a educação, e, em particular, o ensino da língua, como parte do que tenho trabalhado como a individuação do sujeito, neste caso, sendo a instituição a escola, poderia, se bem praticado como processo formador do indivíduo na sua relação com o social e o trabalho, dar condições para que este sujeito “soubesse” que sabe a língua e soubesse “ler e escrever”, de forma a, em sua compreensão, ser capaz de dimensionar o efeito de sua intervenção nas formas sociais, com todas as consequências sociais e históricas que isto implica. Em uma palavra, se desalienasse. "

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