Era noite e eu costumava dormir cedo
naquela época. Já estava nos primeiros
preparativos para isso quando escutei que
batiam à porta. Eu não conhecia muita gente por
ali e imaginei que só podia ser a velhinha. De
vez em quando ela vinha pedir a minha ajuda
em alguma coisa. Por alguma razão, ela havia
simpatizado comigo. Talvez eu tenha mesmo a
aparência de bom moço. Costumo ser paciente
com os outros, provavelmente por saber que é
assim que eu preciso que os outros sejam
comigo. Só que não é sempre que estou de boa
vontade. Essa velhinha já havia batido à minha
porta em horas inoportunas. Nunca deixei de
atender, mas foi ao custo de muito domínio
próprio que escondi o meu incômodo.
(...) Como em noites anteriores, ela me
estendeu o seu celular. Um modelo
antiquíssimo, desses que só servem para
telefonar e mandar mensagem. Para a velhinha,
eu representava a geração Z, aquela gente que
já nasceu conectada e que entende tudo sobre
tecnologia. Os óculos, de certo, completavam
essa impressão. Mas a verdade é que eu pouco
entendo desse mundo, mal consigo lidar com o
meu próprio celular. Muitas vezes já aconteceu
de me passarem o celular para ver se eu resolvia
algum problema e eu devolver sem ter
conseguido absolutamente nada. A sorte é que o
problema da velhinha era mais fácil.
Ora, ela apenas não estava conseguindo
ligar o dito cujo. Não era a primeira vez que isso
acontecia, ela imaginava que fosse algum
problema do celular, que tivesse estragado ou
algo do tipo. Mas eu peguei o celular e, como
das outras vezes, segurei o botão de ligar por
alguns segundos, até que ele desse algum sinal
de vida. Não demorou e uma imagem apareceu
na tela, comprovando o sucesso do meu
método. Eu era jovem e não podia entender
como é que alguém não conseguia ligar o celular. Uma vez, vá lá. Mas eu já havia
explicado para a velhinha várias vezes como é
que se faz para ligar um celular, e ela sempre
voltava, e sempre achava que o problema era o
celular.
(...) Devolvido o celular, ela me
agradeceu, com exagero, deu boa noite e voltou
para casa. Talvez nós nos víssemos novamente
na noite seguinte.
FENDRICH, Henrique. A velhinha e o celular. Escotilha.