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Q4111490 Português
Relação conturbada

Embarco com muitas dúvidas. Não sei direito quem são essas pessoas que vou ver; sei seus nomes, de onde as conheço, e tenho uma imagem vaga de alguns deles, mas não sei como são nem como vou chegar até eles. Tudo que sei é que tenho oito horas e uma cadeira para pensar sobre isso.

Por oito horas o mundo se torna aquela poltrona. Você tenta se distrair, mas, no fim, é ela quem rouba sua atenção. Mesmo sentado, quase sem se mover, o corpo definha: a postura trava, o pescoço endurece, a espinha se desconcerta, os músculos enrijecem. De tempos em tempos você tenta esticar as pernas, preso num minúsculo cativeiro. Quem diria que ficar sentado cansa?

Desde que comecei a faculdade, tenho me habituado à fadiga da viagem, o estar aqui, ser de lá, pertencer a lugar algum. Três horas de ônibus já bastam para vilanizar a cadeira: vibração constante, nervos amortecidos, a memória chacoalhada. Perguntas se sentam e empedram: Devia voltar mais vezes? Devia ligar? Devia mudar?

Desta vez o ônibus é diferente; a viagem, mais longa; a cadeira, mais abusada. Estou indo para uma terra desconhecida ver gente que não vejo há uns seis, sete anos. Por pouco não falamos mais a mesma língua, mas ainda assim é família. Alguns caminhos são mais tortuosos que outros — e umas cadeiras, mais macias que outras. Mas não essa. Oito horas depois, me sinto carne moída. Não aguento mais ficar sentado.

Texto Adaptado

SALMAR, Ian. Relação conturbada. In: Portal de Livros Abertos da USP. São Paulo: Universidade de São Paulo, [s.d.]. Disponível em: https://www.livrosabertos.abcd.usp.br/portaldelivrosUSP/catalog/view/1 512/1378/5380 . Acesso em: 16 nov. 2025.
Com base no texto apresentado, analise as assertivas abaixo e assinale a alternativa que contém a interpretação coerente com o sentido global do texto, considerando a construção subjetiva do enunciador e os mecanismos de coesão e coerência empregados na narrativa.
Alternativas

Gabarito comentado

Confira o gabarito comentado por um dos nossos professores

Gabarito: B

Fundamento decisivo: O critério decisivo é o sentido global construído pela articulação entre deslocamento físico e crise de pertencimento. O trecho obrigatório “Desde que comecei a faculdade, tenho me habituado à fadiga da viagem, o estar aqui, ser de lá, pertencer a lugar algum.” explicita, sem apoio de regra externa, que a viagem ultrapassa o plano corporal e produz um efeito subjetivo de não pertencimento, o que orienta a leitura correta da questão.

Tema central: não pertencimento identitário
Análise das alternativas
A
Errada
A alternativa erra ao transformar estranhamento e distância em rompimento definitivo. O texto não autoriza dizer que o narrador não reconhece mais os vínculos familiares, porque afirma expressamente: “mas ainda assim é família.”. O valor concessivo dessa formulação preserva o laço familiar, embora marcado por tensão e afastamento. Portanto, há extrapolação interpretativa ao falar em constatação de ruptura final.
B
Certa
A alternativa B está correta porque retoma o núcleo semântico do texto sem reduzir a narrativa ao desconforto da viagem. A subjetividade do narrador aparece logo em “Embarco com muitas dúvidas.” e em “Tudo que sei é que tenho oito horas e uma cadeira para pensar sobre isso.”, que vinculam deslocamento e reflexão interior. Esse eixo se consolida em “Desde que comecei a faculdade, tenho me habituado à fadiga da viagem, o estar aqui, ser de lá, pertencer a lugar algum.”, formulação que explicita o não pertencimento. Os trechos “Estou indo para uma terra desconhecida ver gente que não vejo há uns seis, sete anos.” e “Por pouco não falamos mais a mesma língua, mas ainda assim é família.” reforçam a distância no tempo, no espaço e nos vínculos, sustentando a interpretação de estranhamento identitário.
C
Errada
A alternativa erra ao atribuir inércia e resignação ao narrador. O texto mostra exatamente o contrário: há conflito interno ativo e questionamento insistente, formulados em “Perguntas se sentam e empedram: Devia voltar mais vezes? Devia ligar? Devia mudar?”. A imobilidade física do passageiro sentado não equivale a passividade subjetiva. Além disso, a viagem não é tratada apenas como algo fisiológico e rotineiro, porque se liga diretamente à reflexão sobre origem, retorno e pertencimento.
D
Errada
A alternativa erra ao ler o reencontro familiar como compensação do desconforto e ao atribuir tom otimista ao texto. O campo semântico dominante é de dúvida, fadiga, estranhamento e exaustão: “Embarco com muitas dúvidas.”, “terra desconhecida”, “ainda assim é família”, “me sinto carne moída”. Não há fechamento reconciliador nem expectativa positiva que neutralize o incômodo da viagem. O texto termina no desgaste, não no consolo do reencontro.
Pegadinha da questão
A confusão explorada é reduzir a viagem ao desconforto físico ou supor que a referência à família produz automaticamente acolhimento e otimismo. O texto usa o incômodo corporal como gatilho de uma reflexão sobre afastamento, identidade e não pertencimento.
Dica para questões semelhantes
  • Localize o trecho em que o próprio texto explicita seu eixo subjetivo; aqui, “pertencer a lugar algum” resolve a interpretação global.
  • Verifique se a alternativa respeita o fechamento efetivo do texto; não atribua reconciliação ou ruptura definitiva quando o texto não as declara.
  • Não confunda dado literal do enredo com sentido global: o corpo está imóvel, mas a subjetividade do narrador está em conflito.
  • Quando houver família, retorno e distância, confirme no texto se o vínculo aparece como acolhimento, estranhamento ou tensão antes de inferir o tom.

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