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No texto "Relação conturbada", Ian Salmar recorre a imagens...

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Q4111487 Português
Relação conturbada

Embarco com muitas dúvidas. Não sei direito quem são essas pessoas que vou ver; sei seus nomes, de onde as conheço, e tenho uma imagem vaga de alguns deles, mas não sei como são nem como vou chegar até eles. Tudo que sei é que tenho oito horas e uma cadeira para pensar sobre isso.

Por oito horas o mundo se torna aquela poltrona. Você tenta se distrair, mas, no fim, é ela quem rouba sua atenção. Mesmo sentado, quase sem se mover, o corpo definha: a postura trava, o pescoço endurece, a espinha se desconcerta, os músculos enrijecem. De tempos em tempos você tenta esticar as pernas, preso num minúsculo cativeiro. Quem diria que ficar sentado cansa?

Desde que comecei a faculdade, tenho me habituado à fadiga da viagem, o estar aqui, ser de lá, pertencer a lugar algum. Três horas de ônibus já bastam para vilanizar a cadeira: vibração constante, nervos amortecidos, a memória chacoalhada. Perguntas se sentam e empedram: Devia voltar mais vezes? Devia ligar? Devia mudar?

Desta vez o ônibus é diferente; a viagem, mais longa; a cadeira, mais abusada. Estou indo para uma terra desconhecida ver gente que não vejo há uns seis, sete anos. Por pouco não falamos mais a mesma língua, mas ainda assim é família. Alguns caminhos são mais tortuosos que outros — e umas cadeiras, mais macias que outras. Mas não essa. Oito horas depois, me sinto carne moída. Não aguento mais ficar sentado.

Texto Adaptado

SALMAR, Ian. Relação conturbada. In: Portal de Livros Abertos da USP. São Paulo: Universidade de São Paulo, [s.d.]. Disponível em: https://www.livrosabertos.abcd.usp.br/portaldelivrosUSP/catalog/view/1 512/1378/5380 . Acesso em: 16 nov. 2025.
No texto "Relação conturbada", Ian Salmar recorre a imagens sensoriais, metáforas e digressões existenciais para construir um discurso sobre a experiência de deslocamento físico e emocional. Considerando a totalidade do texto, a mensagem mais profunda que se depreende da narrativa diz respeito:
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: A

Fundamento decisivo: Como o comando pede a "mensagem mais profunda" do texto, a leitura decisiva deve ser global e não literal. O trecho "Desde que comecei a faculdade, tenho me habituado à fadiga da viagem, o estar aqui, ser de lá, pertencer a lugar algum. [...] Perguntas se sentam e empedram: Devia voltar mais vezes? Devia ligar? Devia mudar? [...] Estou indo para uma terra desconhecida ver gente que não vejo há uns seis, sete anos. Por pouco não falamos mais a mesma língua, mas ainda assim é família." mostra que o deslocamento físico funciona como suporte de uma crise de pertencimento e de um reencontro familiar tensionado pelo tempo e pela distância, o que conduz ao gabarito A.

Tema central: pertencimento e laços familiares
Análise das alternativas
A
Certa
A alternativa A acerta porque integra os dois planos que o texto articula: o deslocamento físico e o conflito afetivo-identitário. O narrador não relata apenas cansaço; ele explicita distanciamento em relação às pessoas que vai rever, crise de pertencimento em "pertencer a lugar algum" e revisão dolorosa dos vínculos em "Devia voltar mais vezes? Devia ligar? Devia mudar?". Além disso, "Por pouco não falamos mais a mesma língua, mas ainda assim é família" sustenta a ideia de laço preservado, porém fragmentado e tensionado pelo tempo e pela distância. É essa reconstrução difícil dos vínculos entre passado e presente que a alternativa A formula.
B
Errada
Está errada porque reduz o texto ao desgaste físico da mobilidade e à rotina universitária. O desconforto do corpo e a menção à faculdade aparecem no texto, mas como elementos que sustentam um mal-estar maior, ligado ao "estar aqui, ser de lá, pertencer a lugar algum" e ao reencontro com a família após anos. Como o comando exige a mensagem mais profunda, não basta ficar no plano da fadiga corporal.
C
Errada
Está errada por extrapolação. O texto não afirma que o reencontro é inevitável nem que "os vínculos de sangue sempre se sobrepõem" às diferenças. A frase "mas ainda assim é família" indica permanência do vínculo, mas em contexto de afastamento, estranhamento e tensão, não de superação plena do conflito nem de verdade geral sobre laços de sangue.
D
Errada
Está errada porque transforma a narrativa introspectiva em denúncia social do transporte público. Embora haja forte descrição do desconforto da cadeira e da viagem, a base textual não sustenta crítica estrutural ao sistema de transporte nem ao "bem-estar coletivo". O foco está na experiência subjetiva do narrador, em que a materialidade da viagem espelha o desconforto emocional.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre tema aparente e sentido profundo: a cadeira, o cansaço e a viagem parecem centrais na superfície, mas o núcleo do texto é o mal-estar de pertencimento e o reencontro familiar tensionado.
Dica para questões semelhantes
  • Se o comando pedir sentido profundo, não pare no elemento mais visível da narrativa; verifique o que ele simboliza no conjunto do texto.
  • Dê mais peso aos trechos em que o narrador explicita conflito interno, como "pertencer a lugar algum" e as perguntas sobre voltar, ligar e mudar.
  • Desconfie de alternativas que transformam indício textual em tese única, como reduzir tudo a cansaço físico ou a crítica ao transporte.
  • Evite aceitar generalizações absolutas quando o texto apenas sugere tensão ou permanência parcial de um vínculo.

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