Considere o seguinte período composto: “Sua experiência de b...
O texto contextualiza as questões de 01 a 12. Leia-o atentamente.
A metamorfose
Uma barata acordou um dia e viu que tinha se transformado num ser humano. Começou a mexer suas patas e descobriu que só tinha quatro, que eram grandes e pesadas e de articulação difícil. Acionou suas antenas e não tinha mais antenas. Quis emitir um pequeno som de surpresa e, sem querer, deu um grunhido. As outras baratas fugiram aterrorizadas para trás do móvel. Ela quis segui-las, mas não coube atrás do móvel. O seu primeiro pensamento humano foi: que vergonha, estou nua! O seu segundo pensamento humano foi, que horror! Preciso me livrar dessas baratas!
Pensar, para a ex-barata, era uma novidade. Antigamente ela seguia o seu instinto. Agora precisava raciocinar. Fez uma espécie de manto da cortina da sala para cobrir sua nudez. Saiu pela casa, caminhando junto à parede, porque os hábitos morrem devagar. Encontrou um quarto, um armário, roupa de baixo, um vestido. Olhou-se no espelho e achou-se bonita. Para uma ex-barata. Maquilou-se. Todas as baratas são iguais, mas uma mulher precisa realçar a sua personalidade. Adotou um nome: Vandirene. Mais tarde descobriu que só um nome não bastava. A que classe pertencia? Tinha educação? Referências? Conseguiu, a muito custo, um emprego como faxineira. Sua experiência de barata lhe dava acesso a sujeiras mal suspeitadas, era uma boa faxineira.
Difícil era ser gente. As baratas comem o que encontram pela frente. Vandirene precisava comprar sua comida e o dinheiro não chegava. As baratas se acasalam num roçar de antenas, mas os seres humanos não. Se conhecem, namoram, brigam, fazem as pazes, resolvem se casar, hesitam. Será que o dinheiro vai dar? Conseguir casa, móveis, eletrodomésticos, roupa de cama, mesa e banho. A primeira noite. Vandirene e seu torneiro mecânico. Difícil. Você não sabe nada, bem? Como dizer que a virgindade é desconhecida entre as baratas? As preliminares, o nervosismo. Foi bom? Eu sei que não foi. Você não me ama. Se eu fosse alguém você me amaria. Vocês falam demais, disse Vandirene. Queria dizer, vocês, os humanos, mas o marido não entendeu; pensou que era vocês, os homens. Vandirene apanhou. O marido a ameaçou de morte. Vandirene não entendeu. O conceito de morte não existe entre as baratas. Vandirene não acreditou. Como é que alguém podia viver sabendo que ia morrer?
Vandirene teve filhos. Lutou muito. Filas do INPS. Creches. Pouco leite. O marido desempregado. Finalmente, acertou na esportiva. Quase quatro milhões. Entre as baratas, ter ou não ter quatro milhões não faria diferença. A barata continuaria a ter o mesmo aspecto e a andar com o mesmo grupo. Mas Vandirene mudou. Empregou o dinheiro. Trocou de bairro. Comprou casa. Passou a vestir bem, a comer e dar de comer de tudo, a cuidar onde colocava o pronome. Subiu de classe. (Entre as baratas, não existe o conceito de classe.) Contratou babás e entrou na PUC. Começou a ler tudo o que podia. Sua maior preocupação era a morte. Ela ia morrer. Os filhos iam morrer. O marido ia morrer ― não que ele fizesse falta. O mundo inteiro, um dia, ia desaparecer. O sol.
O Universo. Tudo. Se espaço é o que existe entre a matéria, o que é que fica quando não há mais matéria? Como se chama a ausência do vazio? E o que será de mim quando não houver mais nem o nada? A angústia é desconhecida entre as baratas.
Vandirene acordou um dia e viu que tinha se transformado de novo numa barata. Seu penúltimo pensamento humano foi, meu Deus, a casa foi dedetizada há dois dias! Seu último pensamento humano foi para o seu dinheiro rendendo na financeira e o que o safado do marido, seu herdeiro legal, faria com tudo. Depois desceu pelo pé da cama e correu para trás de um móvel. Não pensava mais em nada. Era puro instinto. Morreu em cinco minutos, mas foram os cinco minutos mais felizes da sua vida. Kafka não significa nada para as baratas.
. (VERÍSSIMO, Luís Fernando. A metamorfose. In: _____________. Ed Morte e outras histórias. Porto Alegre: L&PM Editores, 1997, p. 32-33.)
Considere o seguinte período composto: “Sua experiência de barata lhe dava acesso a sujeiras mal suspeitadas, era uma boa faxineira.” (2º§). Assinale a afirmativa em que, acrescentando-se um conectivo para unir as duas orações deste período, mantém-se seu sentido original.
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Gabarito comentado
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Tema central: Coesão e sentido: uso de conjunções coordenativas. A questão aborda como a escolha de um conectivo entre orações modifica (ou mantém) a relação de sentido no período.
Análise do período:
“Sua experiência de barata lhe dava acesso a sujeiras mal suspeitadas, era uma boa faxineira.”
Temos duas orações com sentido de causa e consequência: devido à experiência como barata, ela tinha acesso a lugares difíceis, e por isso foi uma boa faxineira.
Justificativa da alternativa correta (C):
A expressão "por isso" é uma conjunção coordenativa conclusiva. Conforme ensinam Bechara (Moderna Gramática Portuguesa) e Cunha & Cintra (Nova Gramática do Português Contemporâneo), o conectivo conclusivo indica que aquilo que vem depois é uma consequência lógica do que foi dito antes. Portanto, o uso de “por isso” mantém exatamente o sentido original: a consequência de ter experiência de barata é ser boa faxineira.
Exemplo para fixação:
“Estudos mostram bons resultados, por isso vamos adotar essa estratégia.”
Análise das alternativas incorretas:
A) "mas" – Adversativa, introduz oposição, o que altera o sentido: não há contraste entre as orações.
B) "porque" – Causal, introduz explicação ou causa. O texto não diz que ela tinha acesso porque era boa faxineira, e sim o contrário: tornou-se boa faxineira em consequência da experiência.
D) "embora" – Concessiva, sugere ideia de contraste ou concessão que não existe entre as orações do trecho.
Estratégias para evitar erros: Em questões sobre conectivo, leia atentamente as orações e identifique a relação entre elas (causa, consequência, oposição, explicação, concessão). Substitua mentalmente o conectivo e observe se o sentido se mantém.
Destaque:
Segundo Cunha & Cintra, as conjunções conclusivas ("portanto", "por isso", "assim") apresentam a ideia de uma consequência natural da oração anterior.
Resposta correta: C – “por isso”, pois só ela mantém o sentido original de causa e consequência.
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Comentários
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Conclusivos
Logo, pois (deslocado), portanto, por conseguinte, assim, então, por isso, destarte, dessarte.
O segundo período possui ideia de conclusão e não de explicação. Ele conclui que a barata é uma boa faxineira. O porquê, já foi explicado anteriormente...
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