No bairro, existe um fenômeno curioso, silencioso e muito
brasileiro: o quintal de ocasião. Ele passa semanas convivendo
em paz com o mato mais confiante, com a garrafa plástica que
“depois eu junto”, com o balde que “não tem problema nenhum”
e com o pneu velho que, misteriosamente, um dia ainda “vai servir
para alguma coisa”. Mas basta surgir a notícia de uma visita, e
acontece o milagre. O quintal, antes entregue à própria filosofia,
descobre de repente sua vocação para a limpeza.
É quase emocionante.
A vassoura, que andava aposentada num canto, volta ao
serviço como se tivesse sido convocada para uma missão de
honra. Os recipientes com água parada desaparecem em
velocidade suspeita. O mato é aparado com a energia de quem
quer não apenas organizar a casa, mas reescrever a própria
história. Em poucas horas, o cenário muda tanto que, se o quintal
pudesse falar, talvez pedisse um minuto para se reconhecer.
Nessas horas, a casa ganha até um certo ar de inocência.
Tudo parece dizer: “Aqui sempre foi assim. Organizado, limpo,
preventivo, quase exemplar.” O balde seco posa de cidadão de
bem. A calha desentupida ostenta uma honestidade recente. O
vasinho virado para baixo age como se nunca tivesse colaborado
com mosquito algum. E o morador, com a serenidade de um
artista diante da obra pronta, recebe a visita com a tranquilidade
de quem acabou de vencer uma disputa particular contra a
vergonha.
Não é exatamente mentira. Também não chega a ser
verdade. É um tipo de sinceridade de última hora.
O mais engraçado é que esse impulso de arrumação não
nasce do amor pela ordem, nem de uma súbita paixão pela saúde
pública. Nasce do velho desconforto de ser visto. Muita gente não
se incomoda tanto com o risco. Incomoda-se com o olhar sobre o
risco. Conviver com o problema parece aceitável. Ser flagrado
convivendo com ele já é uma afronta moral, quase uma ofensa à
reputação doméstica.
E assim seguimos, numa estranha pedagogia da aparência:
limpa-se quando alguém vai olhar, corrige-se quando alguém vai
notar, previne-se quando alguém vai perguntar. Como se o
mosquito da dengue fosse um fiscal sensível à agenda alheia.
Como se a água parada respeitasse o calendário das visitas.
Como se o perigo tivesse a delicadeza de esperar a casa estar
despenteada para agir.
Mas o quintal, coitado, não entende de cerimônia. Ele não
sabe a diferença entre terça comum e dia de inspeção. O
mosquito também não. A larva não suspende expediente porque
o morador prometeu cuidar “amanhã sem falta”. Do ponto de vista
do risco, a desculpa é sempre um enfeite inútil.
Talvez a lição esteja justamente aí, onde a ironia perde a
graça e vira conselho. Cuidado de verdade não é o que se faz
para impressionar visita. É o que se repete quando ninguém está
olhando. Saúde não combina com faxina teatral, dessas que
entram em cena só para aplauso rápido. Ela prefere a disciplina
modesta, sem plateia, sem anúncio e sem heroísmo.
No fim, o quintal arrumado para visita é melhor do que o
quintal largado de vez, claro. Já ajuda. Mas o ideal seria uma
revolução menos dramática e mais constante. Porque prevenir
não é posar para parecer responsável. É escolher ser
responsável até nos dias em que a vassoura não tem
testemunhas.
Fonte: Banca Examinadora
No trecho “Mas o quintal, coitado, não entende de
cerimônia”, as vírgulas ajudam a mostrar que a palavra
“coitado”
Incorreta. Gabarito oficial da banca:
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