“As folhas da árvore da minha adolescência ainda tremem, es...

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Q3907393 Português
Um velho adolescente


       Descobri recentemente, mais precisamente no sábado passado, que sou um velho adolescente. Isso porque me peguei grudado a tarde toda num livro da Thalita Rebouças. A visão da escritora me fez voar, imaginar situações, me perder em dilemas, num passeio raso d’água nos olhos, encarar alguns medos eternos, até sentir novamente as transformações.

     Thalita escreve para mulheres de um modo tão próximo e profundo, que conseguiu, por momentos, me transformar num velho adolescente menina. Foi um despertar, pouco antes, na minha retina cansada, de que guardava a adolescência como se fosse a estátua de Antínoo, dura, fria, calada, mas eternamente jovem.

      No livro, logo me identifiquei com a personagem, uma garota sem dotes de beleza, um tanto desleixada, dona dos cabelos ruins e peso acima do ideal. Outras semelhanças apareceram durante a narrativa: a menina ouve música para sentir vontade de chorar. Fiz isso recentemente, sem motivos aparentes, lágrima libertária, não de agonia, envolta numa música antiga (...), de um cantor que eu desprezava quando adolescente, o Biafra, naquela parte em que ele afirma existir um licor a mais no bombom. Homem não chora! Uma ova, chora sim, mesmo na maturidade. (...)

     Quase adulto, imaginava a maturidade tal e qual a quinta sinfonia de Beethoven, a reta final, da qual queria distância. No entanto, cá estou. Acho que Biafra me fez chorar por causa disso, o licor ainda vivo, perdido em meio ao bombom. Imagino Beethoven, mas escuto Biafra. “O que sai de mim vem do prazer, de querer sentir o que eu não posso ter...”, o que ele quis dizer com isso?   

        As folhas da árvore da minha adolescência ainda tremem, esparramam o orvalho no soprar do vento, restos daquela mesma chuva que me arrancou o sono, restando em mim o pensamento incerto: será que existe por aí outro adolescente velho quieto e atento, tal e qual a estátua de Antínoo, ouvindo, entrelaçado por pequenos tremores, a sinfonia de Beethoven? Fechei a última página, já sentindo saudades da menina do livro e à procura do resto de licor perdido dentro do bombom.


ALVEZ, André Luiz. Um velho adolescente. Correio do
Estado. Disponível em
<https://correiodoestado.com.br/cidades/artigos-eopiniao/leia-a-cronica-de-andre-luiz-alvez-br-um-velhoadolescente/326927/>. 
“As folhas da árvore da minha adolescência ainda tremem, esparramam o orvalho no soprar do vento, restos daquela mesma chuva que me arrancou o sono”
No trecho acima, predominam construções em sentido:
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: A

Fundamento decisivo: O trecho "As folhas da árvore da minha adolescência ainda tremem, esparramam o orvalho no soprar do vento, restos daquela mesma chuva que me arrancou o sono" usa imagens da natureza em sentido não literal para representar estados afetivos e a persistência da adolescência, indicada explicitamente em "minha adolescência"; por isso, a leitura adequada é a de sentido figurado.

Tema central: sentido figurado/metafórico
Análise das alternativas
A
Certa
A alternativa A está correta porque identifica os dois pontos decisivos do trecho: o valor figurado das imagens e o referente expresso no próprio texto. A expressão "da minha adolescência" mostra que o narrador está caracterizando uma etapa de sua vida, e não descrevendo uma árvore real. Assim, os elementos naturais funcionam como metáforas de lembranças, emoções e permanências da adolescência.
B
Errada
Está errada porque afirma sentido próprio. O trecho inviabiliza a leitura literal ao unir elementos naturais a uma abstração temporal e afetiva: "árvore da minha adolescência". Além disso, "chuva que me arrancou o sono" integra a construção metafórica, não uma descrição objetiva da natureza.
C
Errada
Está errada pelo referente textual. Há sentido figurado, mas o próprio trecho define o que está sendo caracterizado: "minha adolescência". As imagens não recaem sobre uma música. Associar o trecho a Biafra ou Beethoven é deslocar para outro ponto do texto um referente que não está no recorte cobrado.
D
Errada
Está errada em dois níveis. Primeiro, não há sentido próprio, porque predominam metáforas. Segundo, o trecho não caracteriza uma música, e sim a adolescência do narrador, explicitada em "minha adolescência".
E
Errada
Está errada porque reduz o trecho a relato literal de lembrança. O texto até tem caráter memorialístico, mas, nesse recorte, o narrador não conta um fato em linguagem denotativa; ele elabora afetivamente a adolescência por meio de imagens como "árvore", "orvalho", "vento" e "chuva", usadas em sentido figurado.
Pegadinha da questão
A banca explora duas confusões reais: a presença de palavras concretas da natureza, que pode induzir leitura em sentido próprio, e as menções a Biafra e Beethoven em outras partes do texto, que podem levar o candidato a marcar alternativas ligadas a música, embora o trecho destacado aponte para "minha adolescência".
Dica para questões semelhantes
  • Localize o referente nomeado no próprio trecho; aqui, "minha adolescência" resolve sobre o que recaem as imagens.
  • Se elementos concretos aparecem ligados a uma abstração, verifique primeiro a possibilidade de metáfora antes de assumir sentido literal.
  • Não puxe o sentido de outras partes do texto se o recorte já traz o referente decisivo.
  • Diferencie texto memorialístico de relato literal: memória pode ser construída por imagens figuradas, não por descrição denotativa.

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