As frases do imperador Juliano e de Alexandre, o Grande, cit...

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Q3947141 Português
Atenção: Para responder à questão, baseie-se no texto seguinte.


Da desigualdade entre os homens


   Disse Plutarco que a diferença entre um animal e outro é menor do que a que vai de um a outro homem. Referia-se ele à alma e às qualidades intelectuais. Por mim, não hesitaria em ser mais peremptório, dizendo que a diferença entre tal e tal homem é maior do que entre tal homem e tal bicho. O espírito humano comporta tantos graus quantas braças vão daqui ao céu.

   No que concerne à apreciação das coisas, é espantoso que tudo julgando pelas suas qualidades específicas não nos encaremos da mesma maneira. Elogiamos um cavalo por ser vigoroso e ágil, e não por causa do arreio; elogiamos o galgo pela velocidade e não pela coleira; por que, pois, não apreciarmos o homem pelas suas qualidades especificas? É necessário julgar o homem em si e não pelos seus adornos. Como diz espirituosamente um filósofo do passado: "Sabeis por que achais grande esse homem? Porque o medis com o pedestal."

    Os cortesãos elogiavam de uma feita o imperador Juliano porque se esforçava por ser justo. "Orgulhar-me-ia de vossas louvações - disse se viessem de pessoas que ousassem denunciar e censurar meus atos, caso me conduzisse de outra maneira." Os aduladores de Alexandre, o Grande, repetiam-lhe sem descontinuar que ele era filho de Júpiter. Certa vez, olhando o sangue que Ihe escorria de um ferimento, disse ele: "Então, que vos parece? Não achais que é um sangue vermelho como o de qualquer ser humano? Ou ele é da cor do sangue que o poeta Homero põe nos ferimentos dos deuses?"

  Se um homem não tiver valor próprio não lho dará o império do mundo. Mesmo que as jovens o disputem, que por toda parte nasçam rosas sob seus pés, de que servirá tudo isso se tem a alma grosseira e o espírito lerdo? Sem vigor e sem espírito não se chega a sentira plena felicidade, sequer a volúpia. O valor das coisas depende de quem as possui: boas para os que sabem utilizá-las, são más para quem as emprega mal. Para saborear os bens, quaisquer que sejam os que nos outorga o destino, cumpre ter o bom sentimento que a sensação cria. 


(Adaptado de: MONTAIGNE, Michel. Ensaios. São Paulo: Editora 34, 2016. p. 287-294, passim)
As frases do imperador Juliano e de Alexandre, o Grande, citadas no 3º parágrafo,
Alternativas

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Gabarito: A

Fundamento decisivo: O ponto decisivo é a função exemplificativa das falas no 3º parágrafo, em continuidade com a tese já enunciada no texto: julgar o homem por qualidades próprias, e não por adornos ou louvações interessadas.

Tema central: recusa da adulação
Análise das alternativas
A
Certa
A alternativa A é a adequada porque as duas falas recusam a validação baseada em bajulação. Juliano só admite louvores se vierem de quem também tenha independência para censurá-lo quando necessário, o que exige sinceridade no juízo. Alexandre, por sua vez, desfaz a lisonja de ser filho de Júpiter ao remeter à evidência concreta de seu sangue humano. Assim, as duas citações apontam para um reconhecimento fundado na verdade, não no elogio interesseiro.
B
Errada
A alternativa introduz "desprendimento estoico", mas o texto não menciona estoicismo nem formula qualquer condenação a essa corrente. O que está em jogo é a recusa da adulação e a exigência de um juízo verdadeiro. Trata-se de extrapolação conceitual sem base textual.
C
Errada
Não há divergência entre as falas. Juliano desqualifica o elogio submisso ao exigir franqueza; Alexandre também rejeita a bajulação ao negar a falsa divinização. As formulações são diferentes, mas o conteúdo argumentativo converge: ambas recusam a lisonja e reforçam o mesmo critério de avaliação.
D
Errada
O texto mostra o contrário do que a alternativa afirma. Juliano não se mostra sensível às louvações em si, mas apenas a elogios sinceros, vindos de quem também censuraria. Alexandre responde criticamente aos que o exaltam. Além disso, o termo "aduladores" já marca essas louvações como bajulação, não como algo recebido com generosa sensibilidade.
E
Errada
As falas não demonstram reconhecimento amplo e autêntico de virtudes reais. No caso de Alexandre, o texto explicita que os elogios vêm de "aduladores", o que invalida a leitura de reconhecimento verdadeiro. No caso de Juliano, o ponto é justamente que nem todo elogio merece crédito. A alternativa transforma bajulação em prova de reconhecimento efetivo, o que o texto não autoriza.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre receber elogios e ser reconhecido de modo verdadeiro. O texto, porém, orienta a leitura pelo termo "aduladores" e pela tese de "julgar o homem em si", mostrando que as falas recusam a bajulação em vez de confirmá-la.
Dica para questões semelhantes
  • Leia exemplos citados no texto pela função que exercem na tese do parágrafo, não como comentários isolados sobre personalidade.
  • Quando aparecer palavra avaliativa como "aduladores", use seu valor semântico para definir se o elogio é autêntico ou interesseiro.
  • Se duas falas aparecem em sequência como exemplificação, verifique primeiro se elas convergem para a mesma ideia antes de aceitar alternativa que fale em contraste.
  • Não acrescente doutrina, traço psicológico ou conclusão social que o texto não enuncia nem sustenta.

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Letra A

Ambos os líderes rejeitam a bajulação e exigem a realidade dos fatos: Juliano quer críticas honestas para validar os elogios, e Alexandre usa o próprio sangue para provar que é um homem comum, não um Deus.

A alternativa correta é a letra A.

No 3º parágrafo, tanto Juliano quanto Alexandre rejeitam a bajulação e valorizam a verdade autêntica:

  • Juliano diz que só se orgulharia de elogios vindos de quem também teria coragem de criticá-lo — ou seja, elogio sincero, não adulação.
  • Alexandre ironiza a ideia de ser filho de Júpiter ao mostrar que seu sangue é humano — desmontando a falsa exaltação.

Ambos reforçam que o reconhecimento de virtudes deve se basear em verdade limpa, sem exageros ou bajulação, exatamente o que diz a alternativa A.

As outras não batem porque:

  • B fala de estoicismo (não é o foco do trecho),
  • C diz que eles divergem (na verdade, convergem),
  • D sugere que gostam de elogios (eles criticam elogios falsos),
  • E afirma reconhecimento real (o texto critica exageros, não confirma isso).

Só um adendo:

Estoicismo é uma filosofia antiga (surgiu na Grécia, com Zenão de Cítio, e depois ficou famosa em Roma com Sêneca, Epicteto e Marco Aurélio) que ensina, basicamente, a viver bem controlando a própria mente e aceitando o que não depende de você.

Ideia central: “Foque no que você controla; aceite o que você não controla.”

Os estoicos dividem a vida em duas partes:

  • O que depende de você: suas escolhas, atitudes, julgamentos.
  • O que não depende de você: opinião dos outros, sorte, passado, clima, morte, etc.

A felicidade, pra eles, vem de cuidar bem da primeira parte e não sofrer à toa pela segunda.

A) CORRETA. As frases buscam a verdade factual. O imperador Juliano afirma que o elogio só teria valor se viesse de quem também tem coragem de criticar (ou seja, um elogio sincero e honesto). Alexandre, ao mostrar seu sangue vermelho, desmascara a lisonja de que seria um deus, reafirmando sua natureza humana real. Ambos rejeitam a mentira da adulação em favor da "verdade limpa".

B) Incorreta. O texto não foca na condenação do "desprendimento estoico", mas sim na condenação da adulação (lisonja). O estoicismo, inclusive, prega a autossuficiência e o julgamento interno, o que estaria mais alinhado à postura de Montaigne do que ao que os cortesãos praticavam.

C) Incorreta. Pelo contrário, eles convergem no desprezo pela submissão cega e pela mentira. Nenhum dos dois valoriza a submissão manifesta; Juliano quer a liberdade de crítica e Alexandre quer o reconhecimento de sua humanidade.

D) Incorreta. As frases mostram que eles eram imunes ou críticos às louvações, e não "generosamente sensíveis" a elas. Eles percebiam a falsidade por trás dos elogios e a confrontavam.

E) Incorreta. O texto sugere que o que os subordinados demonstravam era adulação, não necessariamente um reconhecimento de virtudes reais. A fala de Juliano deixa claro que ele suspeita da sinceridade daqueles elogios, e a de Alexandre mostra que os súditos estavam mentindo ao chamá-lo de deus.

Para acertar, você deve focar na reação de Juliano e Alexandre diante dos elogios (louvações):

Juliano: Ele rejeita o elogio dos cortesãos. Ele diz que o elogio só teria valor se viesse de pessoas que também tivessem coragem de censurá-lo. Ou seja, ele quer a verdade, não a adulação.

Alexandre: Quando o chamam de deus, ele aponta para o próprio sangue e mostra que é vermelho e humano como o de qualquer um. Ele busca a realidade factual (a "verdade limpa") em vez do mito criado pelos aduladores.

Conclusão: Ambas as falas convergem para a ideia de que a virtude ou a natureza de um homem deve ser julgada pela verdade nua e crua, sem os filtros da bajulação ou da posição social.

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