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Q3947135 Português

Atenção: Para responder à questão, baseie-se no texto seguinte.



Memórias sem imaginação



     Fiquei entusiasmadíssimo com recursos da internet, quando finalmente comecei a me valer deles, tempos atrás. Pois não é que de repente passei a ter acesso a imagens e sons de um passado que dava por perdido? Ruas antigas, objetos da casa desaparecida, ingênuos anúncios, canções marcantes, utensílios domésticos carregados de magia - tudo se estampava agora em imagens nitidas e voltava em sons precisos, por meio de plataformas eletrônicas. O mundo das imagens e das ondas sonoras da minha infância e de antes dela estava ali, a um toque do milagre digital.


    Mas de repente... Mas de repente comecei a me afogar nesse repertório inesgotável de sensações, que eu podia repetir tanto quanto quisesse. E comecei a dar pela falta de um elemento fundamental para a vida da memória afetiva: o imaginário nosso que parte dela. A força mecânica das coisas recuperadas num buscador digital não trazia consigo a alma da minha imaginação, aquela de quando eu ia me lembrando de algo contando apenas com minha memória interiorizada, sem signos ostensivos. De repente, exposição iluminada das coisas mágicas do meu passado era solar demais, impunha suas imagens à minha imaginação, a riqueza do passado me aparecia agora esbanjada, perdulária, barateada... Faltava às lembranças digitalizadas a hesitação na escolha dos detalhes, a invenção necessária para cobrir lacunas, a dificuldade laboriosa da tentativa de remontagem das antigas experiências. Faltava, em cada imagem exibida e inconteste, a construção compensatória do meu imaginário.


   Não estou sendo ingrato. Aos canais de música não tenho como agradecer por abrir um leque incomensurável das composições que o mundo já conheceu e está conhecendo. Mas no campo da memória pessoal, a contundência dos arquivos implacáveis da internet suprime os vazios humanizantes da nossa memória que, segundo Bergson, corta e costura o passado segundo convocações do presente - convocações pessoais e intransferíveis. Colocando diante de nós as marcas físicas de nosso passado, а digitalização computacional suprime as franjas e as sombras que eram parte fundamental de cada lembrança afetiva. Para me proporcionar todas as visões do passado, o computador precisa que eu escancare os olhos e me deixe cegar com tanta iluminação. Fica comigo, no entanto, a saudade da memória que eu praticava misturando lembrança e imaginação, me valendo da riqueza comovente dos vazios que eu me esmerava em preencher. Fica comigo a memória da memória que era a minha.



(Almino Valares, a editar)

A expressão Mas de repente, repetida logo na abertura do 2º parágrafo, indica o súbito momento em que o autor
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: E

Fundamento decisivo: A expressão “Mas de repente”, repetida no início do 2º parágrafo, funciona como marcador de virada discursiva: ela rompe o entusiasmo inicial e introduz a percepção de perda ligada à memória afetiva, o que conduz ao gabarito E.

Tema central: memória afetiva e digital
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque atribui às memórias digitais um refinamento positivo e uma “grata e inesperada potência”, quando o trecho após “Mas de repente” expressa o contrário: saturação (“comecei a me afogar”) e percepção de falta do imaginário. A alternativa inverte o sentido da virada discursiva do 2º parágrafo.
B
Errada
Está errada porque fala em processo de memorização que dá às lembranças a força de um “novo imaginário”. O texto afirma o oposto: o digital não fortalece o imaginário pessoal, mas o suprime, como se vê em “não trazia consigo a alma da minha imaginação”. Houve mudança indevida de sentido.
C
Errada
Está errada porque sustenta que as plataformas trouxeram vantagens inequívocas para a imaginação das lembranças. O texto registra prejuízo, não benefício: as imagens digitais “impunha[m] suas imagens à minha imaginação” e tornavam o passado “barateado”. A alternativa contradiz diretamente o núcleo semântico do 2º parágrafo.
D
Errada
Está errada por dois motivos textuais objetivos. Primeiro, contradiz o 1º parágrafo, em que o autor declara entusiasmo inicial com a internet; portanto, não cabe dizer que ele “em nada se impressionou”. Segundo, deturpa a crítica do texto ao chamar as memórias de “adulteradas e equívocas”: o autor não acusa falsidade das imagens digitais, mas a perda das lacunas e da elaboração imaginativa da memória afetiva.
E
Certa
A alternativa E está correta porque corresponde ao sentido do trecho em que o autor passa a perceber que as lembranças digitalizadas já não preservam a elaboração afetiva que as tornava pessoais. Isso se confirma pela oposição entre o acesso abundante às imagens e sons do passado e a falta do “imaginário” na reconstrução dessas lembranças.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre o entusiasmo do 1º parágrafo e o sentido pedido na expressão “Mas de repente”, que marca justamente a virada negativa do 2º parágrafo. Outra armadilha é trocar a crítica à perda do imaginário por uma ideia de falsidade ou erro das imagens digitais, o que o texto não afirma.
Dica para questões semelhantes
  • Se a pergunta destaca uma expressão conectiva, localize a mudança de direção argumentativa produzida por ela, e não a ideia geral do texto inteiro.
  • Quando houver contraste entre parágrafos, confronte o antes e o depois da expressão-chave para identificar a avaliação que foi revertida.
  • Em interpretação, elimine alternativas que transformam perda de elaboração subjetiva em ganho de vantagem, ou crítica de efeito em acusação de falsidade textual.

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Comentários

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 Mas de repente... Mas de repente comecei a me afogar nesse repertório inesgotável de sensações, que eu podia repetir tanto quanto quisesse. E comecei a dar pela falta de um elemento fundamental para a vida da memória afetiva: o imaginário nosso que parte dela.

Alternativa E

A) Incorreta. O autor diz justamente o oposto. As memórias digitais não são filtradas com "finura"; elas são "solares demais" e "barateadas". A potência que adquiriram não é vista como "grata", mas como algo que suprime a alma da imaginação.

B) Incorreta. O processo digital, segundo o texto, não concedeu a força de um novo imaginário. Pelo contrário, ele "impõe suas imagens à minha imaginação", impedindo que o autor crie sua própria versão dos fatos.

C) Incorreta. O autor não vê as vantagens como "inequívocas" para a imaginação. Ele acredita que a precisão técnica da plataforma é uma desvantagem para a memória afetiva, que precisa de lacunas e hesitações para ser autêntica.

D) Incorreta. O autor admite, sim, ter se impressionado inicialmente ("Fiquei entusiasmadíssimo"). O problema não é que as memórias sejam "adulteradas" (falsas), mas que sejam precisas demais, o que as torna impessoais e desprovidas de "alma".

E) CORRETA. O "Mas de repente" introduz a percepção de que a facilidade digital gerou uma perda. O autor percebe que faltava às lembranças a "elaboração afetiva" (a hesitação, a invenção para cobrir lacunas) que tornava a memória dele, e não um arquivo frio disponível para qualquer um.

Letra e)

último período do segundo parágrafo

"Faltava, em cada imagem exibida e inconteste, a construção compensatória do meu imaginário"

GAB E

O "Mas de repente" funciona como uma conjunção adversativa que introduz uma quebra de expectativa. Se no início o autor estava deslumbrado, agora ele percebe que a perfeição das imagens digitais "barateia" a lembrança. Ele reconhece que a facilidade dos buscadores anula o esforço da memória interiorizada, aquela que precisa da imaginação para preencher lacunas. Sem esse "trabalho" de lembrar, a memória perde sua elaboração afetiva e deixa de ser algo íntimo e pessoal para se tornar apenas um arquivo mecânico e impessoal.

Que Texto bonitão ^^

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