Considerando-se o contexto, traduz-se adequadamente o sentid...
Atenção: Para responder à questão, baseie-se no texto seguinte.
Memórias sem imaginação
Fiquei entusiasmadíssimo com recursos da internet, quando finalmente comecei a me valer deles, tempos atrás. Pois não é que de repente passei a ter acesso a imagens e sons de um passado que dava por perdido? Ruas antigas, objetos da casa desaparecida, ingênuos anúncios, canções marcantes, utensílios domésticos carregados de magia - tudo se estampava agora em imagens nitidas e voltava em sons precisos, por meio de plataformas eletrônicas. O mundo das imagens e das ondas sonoras da minha infância e de antes dela estava ali, a um toque do milagre digital.
Mas de repente... Mas de repente comecei a me afogar nesse repertório inesgotável de sensações, que eu podia repetir tanto quanto quisesse. E comecei a dar pela falta de um elemento fundamental para a vida da memória afetiva: o imaginário nosso que parte dela. A força mecânica das coisas recuperadas num buscador digital não trazia consigo a alma da minha imaginação, aquela de quando eu ia me lembrando de algo contando apenas com minha memória interiorizada, sem signos ostensivos. De repente, exposição iluminada das coisas mágicas do meu passado era solar demais, impunha suas imagens à minha imaginação, a riqueza do passado me aparecia agora esbanjada, perdulária, barateada... Faltava às lembranças digitalizadas a hesitação na escolha dos detalhes, a invenção necessária para cobrir lacunas, a dificuldade laboriosa da tentativa de remontagem das antigas experiências. Faltava, em cada imagem exibida e inconteste, a construção compensatória do meu imaginário.
Não estou sendo ingrato. Aos canais de música não tenho como agradecer por abrir um leque incomensurável das composições que o mundo já conheceu e está conhecendo. Mas no campo da memória pessoal, a contundência dos arquivos implacáveis da internet suprime os vazios humanizantes da nossa memória que, segundo Bergson, corta e costura o passado segundo convocações do presente - convocações pessoais e intransferíveis. Colocando diante de nós as marcas físicas de nosso passado, а digitalização computacional suprime as franjas e as sombras que eram parte fundamental de cada lembrança afetiva. Para me proporcionar todas as visões do passado, o computador precisa que eu escancare os olhos e me deixe cegar com tanta iluminação. Fica comigo, no entanto, a saudade da memória que eu praticava misturando lembrança e imaginação, me valendo da riqueza comovente dos vazios que eu me esmerava em preencher. Fica comigo a memória da memória que era a minha.
(Almino Valares, a editar)
Gabarito comentado
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Gabarito: A
Fundamento decisivo: O critério decisivo é a equivalência semântica contextual do fecho do 3º parágrafo, em especial a expressão "Fica comigo a memória da memória que era a minha.", que preserva a autorreferência do enunciador e o valor reflexivo de "memória da memória". Por isso, a alternativa correta é a que reexprime a lembrança do próprio modo de lembrar, sem alterar o núcleo de sentido do trecho.
- Em paráfrase, confirme se a alternativa preserva o núcleo de sentido e também o ponto de vista do enunciador.
- Não aceite sinônimo solto: verifique se a troca lexical funciona no contexto exato do trecho.
- Se houver expressão cristalizada, como "dar por perdido", interprete o conjunto, não as palavras isoladamente.
- Desconfie de alternativas que introduzem ideia inexistente no texto, como ocorreu com a confusão entre "digitalização" e "digitação".
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Comentários
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Fica comigo a memória da memória que era minha (3º parágrafo) = conservo a lembrança do meu modo de lembrar.
uma metamemória (lembrar da própria lembrança)
Perverte vem do verbo perverter. O mesmo que: peca, prevarica, desmoraliza, fraqueja, desvirtua, muda, altera, modifica, corrompe.
Concepções não mantém o mesmo sentido de sensações. ("nesse repertório inesgotável de sensações (2º parágrafo) = em tal mostruário de concepções infindas").
A) CORRETA. No desfecho do texto, o autor faz uma distinção entre a lembrança em si (o fato guardado no computador) e o processo de lembrar (o ato humano de misturar memória e imaginação). "Fica comigo" equivale a conservo; e "a memória da memória" refere-se exatamente ao seu modo de lembrar, à sua subjetividade que está sendo perdida para a precisão digital.
B) Incorreta. O termo "suprime" significa eliminar ou apagar, enquanto perverte significa corromper ou alterar a natureza de algo. Além disso, "bordas obscuras" é uma tradução muito literal e pobre para "franjas e sombras", que no texto representam as nuances e imprecisões humanizantes da memória.
C) Incorreta. "Dava por perdido" significa que ele acreditava que aquilo não voltaria mais, que estava esquecido. A tradução "me ocorria por meio de uma perda pretérita" é confusa e não reflete a ideia de algo que se julgava extraviado e foi reencontrado.
D) Incorreta. "Sensações" refere-se a percepções sensoriais e afetivas (sons, imagens, cheiros). Concepções refere-se a ideias, conceitos ou formulações intelectuais. São termos de campos semânticos diferentes e não são intercambiáveis neste contexto.
E) Incorreta. Esta é uma "pegadinha" comum em provas: a alternativa tenta confundir o candidato usando palavras com a mesma raiz, mas sentidos distintos. "Hesitação" é a dúvida no ato de escolher os detalhes da memória; não tem nada a ver com a "dúvida de digitar" (ato mecânico de usar o teclado).
Porque "conservo a lembrança" traduz "fica comigo a memória" e "meu modo de lembrar" traduz perfeitamente a "memória que era minha". É a lembrança de um registro mental antigo, e não do acontecimento real.
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